Carros, as vacas sagradas das alterações climáticas
E não, o carro eléctrico (mesmo com electrões provenientes somente! da energia eólica) não é uma solução para isto.
A comprar esta semana em Lisboa, a Time Out dedicada à bicicleta na cidade.

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Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas
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E não, o carro eléctrico (mesmo com electrões provenientes somente! da energia eólica) não é uma solução para isto.
A comprar esta semana em Lisboa, a Time Out dedicada à bicicleta na cidade.

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Apesar das últimas notícias falarem num aumento de 17,8% no programa de troca de veículos (alguém conhece outro bem de consumo onde o estado ajude a pagar por um novo?), o sector está chateado.
O governo vai alterar a fiscalidade automóvel para acabar com a dupla tributação, acabando com um imposto mas subindo outro na mesma proporção de modo a compensar (o próprio ACP diz que fica igual). O sector está chateado porque o governo não aproveitou a ocasião para baixar os impostos do sector e agora diz que "isso vai impedir a recuperação do sector". Mais uma vez, qual será o sector que não recuperaria se lhe cortassem impostos?
Adenda: a capa de hoje do DN diz em grande que o "orçamento agrava impostos sobre a compra de carros". Quando se lê o artigo, fica-se a saber que o tal aumento do ISV é de uns incríveis 1,7%, e isto nem são valores oficiais, mas de cálculos do sector automóvel. O lóbi não está só mal habituado como sabe fazer manchetes quando lhe dá jeito.
Segundo o Público, o aumento do ISV dá-se apenas nos dois piores escalões ambientais. Há ainda os incentivos fiscais para comprar carros eléctricos - aqueles incentivos que não se aplicam a veículos realmente ecológicos, como a bicicleta.
O NYTimes tem um artigo sobre Vauban, um bairro quase sem carros na Alemanha, sobre o qual o A Nossa Terrinha também já falou.
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Zonas 30
O DN diz hoje em manchete que há "15 concelhos vão ter limite de velocidade de 30km/h". Dei um pulo de alegria. 17 anos depois de Graz ter sido a primeira cidade no mundo a declarar os 30km/h como velocidade máxima por regra, sendo 50km/h a excepção, Portugal teria concelhos na mesma situação. A notícia no interior foi depois um anti-climax, afinal estão apenas em causa pequenas zonas 30, ilhas no meio dos 50km/h.
Desilusão à parte, é uma excelente notícia e estes 15 estão de parabéns. Especialmente de parabéns está a CML que transformou há poucos meses uma avenida de atravessamento de trânsito com 4 faixas largas, a Ramalho Ortigão no Bairro Azul, numa rua calma, com apenas 2 faixas estreitas (aumentou o passeio e o estacionamento passou a ser em espinha) e lombas altas. Isto vem a propósito da segunda parte do texto do DN que lembra que não basta decretar Zonas 30, é necessário criar medidas de acalmia de tráfego.
Alterações Climáticas
Em tempos da conferência de Copenhaga, vale a pena ler dois textos do famoso jornalista especializado em ambiente George Monbiot, no excelente Guardian, sobre a indústria de negação das alterações climáticas antropogénicas, e onde estão envolvidas petrolíferas e empresas do sector automóvel como a Exxon / Esso, Ford, Shell, Texaco, BP, General Motors, DaimlerChrysler, etc.
No primeiro ele mostra o panorama geral e no segundo dá 4 exemplos muito concretos de como tem havido uma campanha altamente organizada para equivocar o público. A propósito da fuga de emails de há uns dias atrás (onde se percebia que alguns cientistas deturparam os seus estudos a favor da "visão ambientalista") ele diz que isso não chega um décimo do caso menos grave entre as trafulhices da indústria de negação que vieram a público.
Numa conferência onde estive hoje, comparava-se esta negação aos movimentos da indústria tabaqueiras desde os anos 50 a propósito do cancro de pulmão. Exactamente o mesmo comportamento por parte indústria. Claro que isto não prova de que lado está a razão no caso do clima, mas prova que as grandes indústrias são capazes de montar um grande esquema de negação.
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1. O governo aumentou ontem a contribuição que todos nós oferecemos a quem já esteja farto do seu popó antigo e queira comprar um novo. Agora pode chegar ao 1800€.
Como já escrevi, defender isto sob o manto da protecção ambiental é gozar com a inteligência das pessoas. Notei agora mais duas incoerências: se a ideia é promover a compra de veículos menos poluidores (o que deveria ser feito por penalização dos mais poluidores, não por descontos pagos por todos) porque é que quem compra um carro pela primeira vez não tem direito a este benefício? Se a ideia é reduzir o consumo de combustível, porque é que o mesmo benefício não é dado à compra de carros em segunda mãos menos poluidores, mas apenas aos novos?
Veja-se isto por onde se veja, este programa do governo (que é coordenado pela UE mas decidido a nível local) é pura e simplesmente um enorme e inexplicável subsídio à indústria e ao comércio automóvel.
Sinceramente estou farto do meu portátil (isso sim, um instrumento de trabalho) e sinto-me discriminado pelo Estado não me ajudar a comprar um novo. Alguém percebe isto?
2. Há dias um representante do sector do comércio dizia que o sector estava mal porque não havia incentivos ao consumo! Mas haverá algum sector que não estivesse melhor se houvessem "incentivos ao consumo"?! Isto só prova que estão habituados a ter um tratamento especial.
3. Como antecipei na primeira posta, e já referi numa nota, a crise no sector automóvel já vinha de trás. A actual crise económica serviu apenas para atirar areia para os olhos das pessoas, quando se canalizam verbas públicas na Europa e EUA para a indústria automóvel.
4. A compra de automóveis segue um padrão de aquilo que em economia se chama procura elástica. Ao contrário da comida, onde o consumo é mais ou menos estável em bons e maus períodos económicos, as compras de automóveis variam muito com a conjuntura.
Isto é um fenómeno que a humanidade conhece há milénios. Os celeiros existem para armazenar cereais, já que a sua colheita varia muito de ano para ano. O mesmo se pode dizer de muitos sectores económicos que aprenderam a viver com essa flutuação (turismo, artigos de luxo, etc.). Muitos mas não todos, o sector automóvel, que também sabia que a coisa viria abaixo, é neste momento o único a contar com um celeiro chamado dinheiro dos contribuintes.
A ler: Mania das grandezas por José Saramago. Acho as conclusões do artigo a que ele se refere um bocado parvas (porquê 9 e não 5 ou 20?), mas isso não é o essencial.
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Quando alguém se farta das suas jeans, quer por estarem velhas ou estragadas, quer por já não gostar delas, deita-las fora (ou dá a alguém) e paga por umas novas na loja. O mesmo diria de uma esferográfica, uma televisão, uma panela de pressão, uma bicicleta, um frigorífico, uns sapatos. Parece-me óbvio que é assim que deve acontecer. Se eu quero um produto novo, devo ser eu a pagar por ele na totalidade. Só conheço 3 excepções a esta regra:
Algumas garrafas (cada vez menos) têm vasilhame. Quando vamos ao supermercado recebemos alguns cêntimos pela garrafa velha, mas na realidade é apenas a devolução do que tínhamos pago.
Muitas lojas dão 5 ou 10€ de retoma por telemóveis velhos, mas na realidade estes são depois vendidos pelas lojas a empresas que reaproveitam os materiais (além de servir de estratégia de marketing).
O último, já devem estar a imaginar, é o popó. E o que me choca é a origem do desconto na compra do novo. Quando alguém quer comprar um carro novo, é o próprio Estado que "pede" a todos nós para fazermos uma vaquinha para ajudá-lo. E estamos a falar de um valor que pode chegar aos 1500€!!
Oficialmente a vaquinha é por razões ambientais, mas isso é incongruente. Primeiro, a produção do novo veículo e o desmantelamento do velho são processos com forte impacto ambiental. O ganho em termos de emissões graças a uma renovação mais rápida da frota (é apenas isto que está em causa) é com certeza ridícula face a este custo ambiental. Segundo e esquecendo esta incongruência ambiental, o custo de um impacto ambiental deve ser pago por quem o provoca. Neste caso deveriam ser os automobilistas com carros poluentes a pagar por isso. Terceiro e último, há muitos outros casos onde exactamente a mesma lógica não é aplicada pelo Estado. O caso dos frigoríficos é um excelente exemplo, porque teria um argumento extra face ao automóvel: os frigoríficos antigos libertam gases destruidores da camada de ozono, se não forem devidamente tratados.
O lobi do popó, mal habituado que está, não está obviamente contente e exige mais ainda. Em mais um exemplo da sua longa tradição de honestidade intelectual, não se coibe de aldrabar toda a gente na sua argumentação, dizendo que na Alemanha este desconto chega aos 5000€. (Uma mentirinha de 2500€).
Greenwashes:
- Patrocinado pela Guardian (possivelmente o melhor jornal britânico) neste video. Trata-se de um carro movido a electricidade, tal como o meu frigorífico. Mas como é um carro, e tem que soar a verde, a reportagem diz que é um carro movido a energia eólica!! A palavra "wind" deve ser repetida 20 na reportagem de 2 minutos, sempre com as turbinas eólicas a aparecer. A partir de hoje, o meu frigorífico funciona oficialmente com a força do vento.
- O lobi do popó português, diz que a corrida deles deste ano é ambiental. Tradução: vai haver caixotes do lixo, recolha do lixo e as fitas de plástico vão ser um plástico mais biodegradável. Não estou a gozar, é mesmo só isto.
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A coisa andava aí a pairar, e hoje somos brindados com dois favorzecos das nossas autoridades para a indústria automóvel.
1. No meio de uma crise internacional - onde todos os sectores estão a passar por dificuldades - a indústria consegue mexer os cordelinhos nas altas esferas do poder, conseguindo milhões de ajuda para se safar da crise. O governo português (que não está só nesta questão) avança com um apoio de 900 000 000* de euros para a indústria, o equivalente a 5 ou 6 vezes o custo de um novo hospitaldistrital! Outra comparação, baixar o IVA de 21% para 20% custou apenas 600 milhões.
Se há razões económicas especiais para os governos apoiarem o sector bancário em tempos de crise (onde é fundamental que haja crédito e liquidez disponíveis) - e note-se que estes valores não se aproximam nem de perto nem de longe ao dinheiro gasto no apoio à banca - não há absolutamente razão nenhuma para apoiar a indústrta automóvel em detrimentos de outros sectores. Aliás, apoiar uma indústria que está na base de vários problemas mundiais actuais (crise energética, aquecimento global, guerras), parece-me um absurdo. A única razão que encontro para esta ajuda, é aquilo a em economia se designa tecnicamente por uma "ganda cunha".
P.S. Ainda bem que o Ministro Pinho afirma que a crise no sector automóvel português não é tão grave como no resto da Europa. Nem quero imaginar o que o governo teria feito se fosse da mesma gravidade... (obrigado Tiago)
*Com notícias que vieram entretanto a público, ficou-se a perceber que parte deste montante, mais exactamente 200 milhões, fazem parte de uma linha de crédito - logo não são "dados" à indústria. Apenas emprestados em condições especiais. É importante sublinhar a diferença, porque no caso da banca houve muito sensacionalismo na imprensa para empolar os gastos públicos.
2. Claro que dinheiro não chega. Os governos da UE voltaram a afrouxar as exigências ambientais à indústria automóvel. O limite dos 130g/km de CO2 que deveria ser cumprido em 2012, foi novamente chutado para 2015. Para enquadrar bem a questão, noto três coisas:
- a mesma indústria convenceu em 1998 as autoridades europeias que não seria necessária qualquer regulação ambiental, tendo-se na altura comprometido a baixar as emissões para 140g/km em 2008. O valor médio em 2005 era contudo de 159g/km! Como diz a BUND, organização ambientalista alemã, o "cumprido não é devido".
- em 2006 esteve para ser aprovada legislação a obrigar a indústria aos 120g/km em 2012, mas os cordelinhos de última hora conseguiram facilitar a coisa para os 130.
- esta semana, a Agência Ambiental Europeia veio dizer que a Europa não vai cumprir os limites estabelecidos na directiva de limites de emissões (estamos a falar de 4 poluentes diferentes!) devido... ao transporte rodoviário!
Uma boa notícia em Lisboa para compensar, o programa de bicicletas públicas/partilhadas que tinha sido chumbado pela maioria PSD na AML, foi hoje aprovada em reunião de vereadores - depois de algumas alterações ao seu financiamento.
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