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Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Porquê pôr 500 carros à porta do metro, quando se pode pôr 1000 pessoas a viver à porta do metro?

MC, 22.10.19

Construction | Pragosa (Português)

Mesmo em frente ao metro da Ameixoeira, a CML decidiu construir um estacionamento com 15000m², para albergar 501 automóveis. A ideia é quem vem de fora, não entrar na cidade com o automóvel, mudando para o metro. Esqueçamos o facto do estacionamento ser fortissimamente subsidiado (os 50 cêntimos nem pagam o funcionamento do parque, quanto mais as obras e o valor do terreno).

Em vez de manter as pessoas longe do centro, e paga-las para virem de carro, não faria mais sentido dar a possibilidade das pessoas viverem em frente ao metro? Nesses 1,5 hectares poderiam viver 500 (usando a densidade média do centro de Lisboa) ou 1000 (com a densidade que existe no local) pessoas. E a CML nem precisaria de gastar dinheiro. Poderia oferecer o terreno a privados, em troca de rendas controladas, ou vendê-los pura e simplesmente (o valor de mercado andará nos 30 milhões).

Podem-me chamar demagógico, mas não há outra maneira de ver isto. Entre gastar dinheiro para atrair carros para a cidade, ou fazer dinheiro para ter pessoas a morar na cidade... a CML prefere a primeira. Quando é que vamos admitir que as câmaras se preocupam mais com os automóveis do que com as pessoas?

 

 

https://www.jf-santaclara.pt/single-post/2017/01/15/NOVO-PARQUE-DE-ESTACIONAMENTO-DISSUASOR

CML acha que é sua função construir um estacionamento por cada casa

MC, 10.10.18

Fernando Medina diz explicitamente que é obrigação da CML criar um lugar de estacionamento por cada casa em Lisboa, e que está a trabalhar nisso. Isto é a resposta que dá aos Deputados Municipais do LIVRE em Lisboa*, quando lhe perguntam se ele não vê a incoerência entre proclamar a importância de uma mobilidade sustentável, ao mesmo tempo que a CML gasta tantos recursos a criar milhares de estacionamentos.

Ter uma câmara a gastar recursos público em mais estacionamento é ERRADO, porque cria mais facilidades ao uso do automóvel. Quem dantes tinha dúvidas porque não sabia se encontrava lugar no regresso a casa/no seu destino, agora deixa de ter. Quem estava indeciso entre ter carro no centro da cidade, deixa de estar. Não admira que Zurique tenha proibido o aumento do estacionamento, tirando um lugar na rua, por cada estacionamento privado criado - nem se põe a hipótese de ser criado na rua. Tóquio só deixa as pessoas registarem um automóvel, se provarem que têm lugar para estacionar.

Ter uma câmara a gastar recursos público em mais estacionamento é INJUSTO, quando o espaço urbano é algo tão valioso e há outros usos tão mais deficitários. Num momento em que é impossível encontrar um quarto a menos de 300€ na cidade, a CML vai gastar recursos públicos para garantir que há um lugar de estacionamento (requer aproximadamente a mesma área que um quarto, curiosamente) para cada casa a 1€.

 

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Será Lisboa a cidade mais atafulhada de carros estacionados no mundo?

MC, 12.09.18

Será Lisboa a cidade mais atafulhada de carros estacionados no mundo?

Este post estava pendente há anos (!) e é também um pedido da vossa ajuda. Estava pendente porque não queria ser injusto mas tendo acabado de visitar quatro novos países, menos "desenvolvidos", fico cada vez mais convencido que não haverá no mundo uma grande cidade que dedique tanto do seu espaço público ao estacionamento automóvel como Lisboa, seja estacionamento legal ou ilegal. Aliás, conhecendo cinquenta países, sempre com atenção à mobilidade, não consigo claramente dar um exemplo pior.
Responder seriamente à pergunta implicaria anos a recolher dados, mas posso dar quatro razões (ver fotos) que me levam a pensar assim.

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1) Nunca vi ruas de 20m de largura, onde se conseguisse enfiar 4 filas de estacionamento automóvel (para lá de 2 vias de circulação), e Lisboa tem dezenas de exemplos assim.

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2) Nunca vi ruas estreitas, onde os passeios têm apenas meio metro, mas há espaço para estacionamento.

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3) Pequenos cruzamentos urbanos onde chegam a haver 4 carros impunemente estacionados em CADA esquina, pondo em perigo os peões e tapando a passadeira (quando existe).


4) É muito comum haver ruas e avenidas sem qualquer estacionamento à superfície no centro das cidades (tentem uma cidade ao calhas no google maps). Nos países mais "desenvolvidos" chegam a ser mais de metade. Em Lisboa conta-se pelos dedos das mãos, os casos assim.

Sei que Fernando Medina discorda - ainda há dois meses repetiu que um dos grandes problemas de Lisboa é a falta de estacionamento, e vocês conhecem algo pior?

Fernando Medina, olhe para o que esbanja antes de pedir aos outros

MC, 03.09.18

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Fernando Medina fez uma importantíssima e corajosa proposta este fim-de-semana. Defendeu uma enorme simplificação dos passes de transportes públicos em Lisboa, um para o centro da cidade e outro para a Grande Lisboa, combinada com uma forte redução dos preços através de financiamento do orçamento do Estado.
As redes sociais explodiram com a discussão sobre se fará sentido o resto do país apoiar ainda mais os transportes de Lisboa e Porto, mas ninguém - nem Medina - se lembrou da vaca sagrada. É que ainda há umas semanas o presidente da CML se orgulhava dos milhões que tem gasto a financiar estacionamento automóvel. Dizia ele que desde que tomou posse já criou 22 parques de estacionamento, mais 3000 lugares, com recursos públicos.
Faz sentido haver quartos por 500€/mês em Lisboa, e a CML usar os seus recursos públicos para garantir mais uns milhares de estacionamento a preço simbólico? Faz sentido Lisboa reclamar mais financiamento do resto do país para os seus transportes públicos, quando esbanja assim em automóveis?

 

E se todos quiséssemos lugar para estacionar?

MC, 22.08.18

 E se somarmos as deslocações a pé, comboio, bicicleta, mota e taxi dentro de Lisboa, imaginem o que sobraria.

Dados:
Carris transportou 140,6 milhões de passageiros em 2017.
http://www.carris.pt/pt/indicadores-de-atividade/
Metro transportou 161,5 milhões
https://www.metrolisboa.pt/.../mais-de-160-milhoes-de.../
Um parque de estacionamento consegue ter um automóvel por cada 26m² (contando com espaço para manobra, e as vias de ligação internas)
https://menos1carro.blogs.sapo.pt/164229.html

São 827 mil deslocações por dia, que precisariam de um lugar de estacionamento à chegada.

 

Se o estacionamento não fosse subsidiado, cada americano conduziria menos 1500km por ano

MC, 27.07.17

Ter um lugar de estacionamento grátis (ou quase) nos sítios onde queremos ir, é um grande convite a optar pelo automóvel. As nossas escolhas seriam diferentes, se o estacionamento fosse cobrado ao mesmo preço que são as outras ocupações de espaço (seja público ou privado, exterior ou interior). Por exemplo, a propósito das alterações dos parquímetros em Lisboa, alguém contava a um jornalista que tinha deixado de andar de automóvel para não ter de pagar estacionamento.

O que aconteceria então? Um economista de transportes americano, fez a sua estimativa num relatório recente, tendo chegado à conclusão que os americanos conduziriam menos 500 mil milhões de km por ano! Isto são mais de 1500km por pessoa que deixariam de ser feitos se o automóvel não fosse subsidiado e pagasse um preço justo. As nossas cidades e ambiente seriam tão melhores.

Não, um carro estacionado não ocupa apenas 6m²

MC, 27.07.17

Muitas vezes esquecemo-nos quanto do precioso espaço da cidade é preciso dedicar por cada automóvel. Há quem falem em 6m² ou 8m² para estacionar um, porque esse é a área que ele ocupa fisicamente.
Mas se eu tiver 600m² não vou lá conseguir pôr 100 automóveis, uns contra os outros... só se for numa sucata. É necessário espaço entre eles, e espaço para os acessos e as manobras.
Na foto, numa área de 6540m² (109x60), haverá 308 (22x14) automóveis SE o parque estiver totalmente ocupado. Isso dá 21m² por automóvel na melhor das hipóteses, e uns 30m² ou mais se pensarmos na ocupação média de um parque.
Quem pede mais estacionamento "grátis" às câmaras, está a pedir uma área que corresponde a meio apartamento, para o seu automóvel, pago pelos outros.

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Os supermercados que cobram mais a quem não vem de carro

MC, 27.07.17

Muitos estabelecimentos comerciais com estacionamento optam por não cobrar aos clientes. É óbvio que o estacionamento tem enormes custos de funcionamento, e do espaço ocupado (seja comprado ou arrendado) especialmente quando falamos do centro das cidades onde o m² é bem caro. Estes custos são refletidos nos preços e no serviço para todos os clientes, quer venham de carro ou não.
Da próxima vez que forem a um supermercado ou centro comercial com estacionamento, lembram-se que estão a subsidiar o estacionamento dos outros.

Nota: Sim, há muitos casos que são as próprias câmaras que exigem, infelizmente, a existência destes estacionamentos. Mas isso não implica que o seu uso seja gratuito.
Além de ser uma situação injusta, trata-se de um incentivo perverso ao uso do automóvel, pago por quem não o usou. Haverá certamente clientes que optariam por outro meio de transporte, se o parque não fosse gratuito.

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Santos Populares vs Carros

MC, 22.06.17

Nos santos populares, um comerciante lamentava-se que tinha pago 380€ para poder ocupar 6m de rua durante 6 dias. Na zona em causa, os automóveis nem pagam estacionamento, mas se pagassem um residente pagaria 0,20€ e o não-residente 24€ por 5m durante os mesmos dias*.
Quando os automobilistas se queixam de terem de pagar para ocupar espaço público, esquecem-se que o automóvel tem um subsídio gigante face às outras ocupações.
E isto mostra-nos também que entre uma esplanada aberta a todos, num grande evento social das festas da cidade, e a ocupação da rua por uma caixa metálica vazia de uma só pessoa, a Câmara Municipal de Lisboa tem uma enorme preferência pela segunda.

*metade dos dias eram dias de semana.

 

O estacionamento como função social do Estado

MC, 06.01.15

Acabei de publicar no nosso Facebook uma excelente notícia para Lisboa: o estacionamento por baixo do Príncipe Real não vai mesmo avançar. Mas continuando a ler a notícia, fico triste com o que aparece. Diz o texto que "ainda assim, para Carla Madeira [presidente da Junta de Freguesia], continua a existir a necessidade de estacionamento naquela zona, pelo que defende a construção de um outro parque", seguindo-se uma discussão das possíveis localizações.

Nem me refiro ao anacronismo de a maioria dos autarcas achar que é sempre preciso mais e mais estacionamento, mas algo pior e que abrange muito mais gente. Refiro-me à ideia, muito entranhada entre nós, que cabe às autarquias providenciar estacionamento. Reparem, há imensas pessoas sem casa, mas as autarquias tem um papel limitado na habitação. Há imensas pessoas desempregadas, mas as autarquias não estão a criar emprego. Há pessoas a passar fome, mas ninguém acha que a culpa é das câmaras e juntas.

Há tarefas que pela sua natureza têm de passar por uma entidade pública central, como licenciamentos, inspeções, iluminação, esgotos, limpeza urbana, etc. mas o estacionamento não é um desses casos. Não me refiro ao estacionamento na via pública, que obviamente tem de ser gerido por uma entidade pública, mas ao estacionamento construído de raiz, seja em subterrâneos ou silos, que é o que está em causa. Nada proíbe um privado de construir e operar um estacionamento, como aliás se comprova pela existência de alguns* na zona referida.

Não está em causa uma escolha política de esquerda vs. direita, de mais serviços providenciados pelo Estado vs. pelo mercado, mas um problema de prioridades sociais.  É assumido por todos que o emprego, a alimentação e a habitação são tarefas que podem ser entregues na sua quase totalidade ao mercado, mas cabe ao Estado garantir a "habitação para os automóveis".

 

* O facto de serem em número reduzido, prova que o estacionamento é subsidiado nas nossas cidades.