Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Parabéns! Temos das melhores redes de auto-estradas na Europa!... mas para quê?

MC, 09.04.08
aqui tinha começado a fazer o exercício de verificar qual o país com melhor cobertura de auto-estradas. O que fiz foi procurar a maior cidade em cada país sem auto-estrada. Se todas as cidades com mais de 50 mil habitantes tiverem auto-estrada num país, e noutro só a partir dos 100 mil habitantes, acho que é razoável dizer que no primeiro a cobertura é melhor.

O resultado era o de esperar, Portugal é esta no Top! Para que não fiquem dúvidas:

Portugal: Beja é a maior sem auto-estrada e tem 28 mil habitantes
Espanha: Ciudad Real  não tem auto-estrada e tem 70 mil
França: Rodez 65
Itália: Siracusa 124
Escócia: Inverness 67
Inglaterra: Grimbsy 88
País de Gales: Wrexham 43
Alemanha: Coburg 42
Holanda: Stadskanaal 34
Suíça: Schaffhausen 34
Áustria: Steyr 39
Dinamarca: Holstebro 34
Suécia: Vaxjo 56
Grécia: Ioannina 70
Noruega, Irlanda e Finlândia nem uma rede de auto-estradas digna desse nome têm! Só na Bélgica - que têm a mesma população mas por ser pequena tem menos kms que nós - é que não arranjei nada. (Achei que nem valia a pena ver os países de leste).

O que é que a gente ganha com esta obsessão (além do record no Guiness?)
Como é que um país relativamente pobre gastou tantos milhões em alcatrão, quando há tanta coisa mais importante por fazer?
Onde é que está o tal "desenvolvimento" que as auto-estradas iriam trazer? Não há ponte ou auto-estradeca neste país que não "vá trazer desenvolvimento à região"... Alguém o viu?
Porque é que ao mesmo tempo que temos as melhores auto-estradas, temos a pior ferrovia que é bem mais eficaz, barata, verde, etc...? Porque é que o Estado promove descaradamente o meio de transporte mais ineficaz, perigoso e poluente?
Porque é tendo nós o problema de importarmos bem mais do que exportamos, insistimos em gastar mais e mais em petróleo que vem do exterior? E porque não poupamos esse dinheiro para coisas mais importantes?
Porque é que gastamos em alcatrão quando a tendência é a de deixar de apostar no automóvel há décadas nos outros países? Aliás tenho muitas dúvidas que algum país, que tivesse partido da nossa situação no início dos anos 80, alguma vez tivesse gasto tanto em auto-estrada, o que nos teria feito ganhar o campeonato das auto-estradas a 10 jornadas do fim.

Que venham mais pontes, viadutos, túneis! Ponte para as Berlengas, para as "desenvolver"! Um viaduto até à Torre na Serra da Estrela, que aquelas curvas são chatas! Auto-estrada para Canas de Senhorim, já!

Isto é uma patologia psiquiátrica colectiva, é o que é.

Campeões do alcatrão

MC, 26.11.07
Quando escrevi este post, fiquei na dúvida sobre o melhor modo de comparar o número de quilómetros de vias-rápidas e auto-estradas entre países. Entretanto ocorreu-me comparar os quilómetros de ferrovia com os de rodovia em auto-estradas.
Infelizmente não me enganei nas expectativas, e lá estamos nós no pódio europeu.

Netherlands 1.11
Spain 1.4
Portugal 1.41
Luxembourg 1.87
Belgium 2.04
Denmark 2.21
Italy 2.51
Slovenia 2.58
France 2.82
Germany 2.99
Austria 3.39
Lithuania 4.25
Turkey 4.7
United Kingdom 4.72
Croatia 4.92
Greece 5.75
Sweden 6.21
Finland 8.96
Estonia 9.99
Ireland 10.9
Slovakia 11.68
Bulgaria 13.16
Hungary 14.67
Czech Republic 18.56
Poland 49.14
Romania 100.57
Número de quilómetros de comboio por cada quilómetro de auto-estrada/vias rápidas
(Islândia, Liechtenstein, Malta e Chipre não têm auto-estradas e/ou comboio
por razões óbvias, e não há dados para a Letónia)


Porque que raio é que estamos sempre no pódio nestes rankings?! (Não tenho resposta). Outros exemplos:
Carro-dependência
Posse de automóveis

Menos Carros = Menos Pessoas? I

MC, 11.07.07
Este é para mim um post fundamental, por estar relacionado com o modo como queremos organizar as nossas cidades, e a nossa vida urbana. Quero também tentar contrariar uma ideia, que eu classifico de mito urbano, que tem sido badalado dia-sim, dia-sim, na comunicação social.

Em Portugal, especialmente agora com as eleições em Lisboa, sempre que se menciona alguma medida que possa restringir de algum modo a circulação automóvel no centro das cidades, sejam parquímetros, diminuição do estacionamento, faixas bus, sentidos proibidos, lombas ou até portagens urbanas, há logo alguém que alerta para os perigos desta alteração. Diz-se que lesa o comércio tradicional, afasta a classe media/alta da cidade, leva à saída das firmas e dos empregos para  a periferia, etc... Ainda anteontem no debate sobre Lisboa, foi dito várias vezes que não era verdade que a cidade precisasse de menos automóveis. A argumentação é simples: dificultando o acesso, as pessoas e as identidades a pouco e pouco optam por se deslocar para locais onde esse acesso não esteja dificultado.

Bom eu poderia desde já argumentar, que menos trânsito torna uma zona mais agradável, atraindo por isso moradores e peões, e por consequência comércio.

Mas em vez de discutir em abstracto temos a sorte de poder comparar o que acontece na realidade, o sonho de qualquer cientista social, que ao contrário da maioria dos cientistas naturais, não pode realizar experiências. Podemos comparar o que acontece nos EUA e na Europa.

(Bem sei que há diferenças culturais, históricas, geográficas, etc... mas acho que isto não explica a diferença).

Nos EUA as avenidas são larguíssimas, há enormes parques de estacionamento em todos os recantos das cidades. Na Europa há enormes áreas de ruas fechadas ao trânsito, outras só para transportes públicos, as ruas são mais estreitas, há pouco estacionamento, o uso do automóvel é desincentivado, há portagens para entrar em cidades, há lombas nas ruas, não há um único local nos centros sem parquímetros, etc...  Nos EUA menos de 10% da população urbana usa o transporte público, enquanto na Europa 40% a 50% a isso é forçada.

Todos concordarão que a diferença é abismal. Mais, esta diferença não é de hoje, mas de há décadas. Tratatam-se portanto de modos opostos de pensar as cidades.

Quanto às consequências. Na Europa os centros das cidades são animadíssimos, com comércio tradicional em todos os recantos (ao contrário dos EUA onde predomina o comércio em grandes superfícies fora da cidade), há muitos peões (nos EUA há por vezes ruas sem passeio e sem peões mesmo nas cidades), as casas no centro da cidade são muito caras sendo por isso habitadas pela classe média/alta enquanto os subúrbios servem para os menos abastados (nos EUA viver nos subúrbios significa ser rico - basta a ver a conotação de suburban nas séries americanas).

Temos portanto umas 100 grandes cidades no mundo ocidental rico que podemos usar na nossa análise, e quase todas (ou todas) mostram exactamente o contrário das acusações feitas em cima à restrição da circulação automóvel, seja em termos de comércio/ empregos/ firmas, seja em termos da classe média/alta serem expulsos das cidades.

Ecopistas em Portugal

MC, 09.07.07
Estrada exclusivamente para bicicletas na Holanda
(Estrada exclusivamente para bicicletas na Holanda)

Nos últimos anos têm sido inauguradas várias ecopistas em Portugal. Ecopistas são pequenas estradas exclusivamente para bicicletas, peões, cavalos, etc... que atravessam normalmente áreas rurais, mais propícias a este tipo de passeio pela natureza. São claramente uma mais-valia em termos ambientais e turísticos, numa época em que o "eco-turismo" é cada vez mais importante. (Infelizmente alguns destas ecopistas nasceram porque havia o espaço disponível graças ao desmantelamento de linhas de comboio, como na linha Vila Pouca de Aguiar-Chaves e no Alentejo).

notícia de construção de 500km no Alentejo até 2013, e já este ano no Algarve. Esta última atravessará o Algarve de uma ponta à outra - de Sagres a Vila Real de Sto António - ao longo de 214 km. Seja para pequenos percursos, ou para atravessar o Algarve de bicicleta, esta ecopista será certamente um sucesso. (Segundo a notícia a ecopista é usada não só para ciclo-turismo, mas também para deslocações no dia-a-dia).

Em muitos países europeus há uma autêntica rede de estradas integrada a nível nacional e mesmo transfronteiriço. Por estas estas ciclo-estradas estarem todas integradas e sinalizadas - até há mapas de estradas à venda - tal como as "estradas rodoviárias" em Portugal, elas acabam por servir mais como uma rede para deslocações em bicicleta até, do que para simples cicloturismo. A foto em cima é um desses exemplos, que liga a Holanda à Bélgica. Em baixo a rede de "ciclo-estradas" na zona metropolitana de Eindhoven.

Rede de estradas de bicilcletas na zona de Eindhoven
(clique para ver maior)

Página das EcoVIias Algarve, publicidade ao projecto

Bicicleta mais rápida em cidade

MC, 04.07.07

O João Taborda, responsável pela página da Massa Crítica do Porto, fez este interessante gráfico com base em dados da União Europeia. Como se vê a bicicleta é o transporte mais rápido para muita deslocações. Ao contrário do automóvel estaciona-se à porta do ponto de partida e do ponto de chegada e não fica "presa no trânsito".
Aceitam-se duelos.

P.S. Ao gráfico, o João juntou a seguinte frase (aqui cortada): Na cidade, a bicicleta constitui na maioria das vezes, um meio de deslocação mais rápida que o automóvel. Contabilizando o tempo porta a porta, tendo em conta a procura por estacionamento e deslocação a pé, a bicicleta é a opção mais vantajosa em mais de 30% das deslocações diárias na Europa.