O JN noticiou ontem que "
só 23 peões [foram] multados até final de Agosto". Embora eu seja o primeiro a reconhecer que a grande maioria dos peões não respeitam as regras*, não posso deixar de torcer o nariz a esta culpabilização do peão. Ela é típica de uma sociedade novo-rica que põe o automóvel num pedestal e trata quem não anda de carro como um cidadão de segunda. Só assim se explica esta tendência de culpabilizar a vítima e não o possível agressor (alguém alguma vez viu um peão a atropelar gravemente um automobilista?), que faz lembrar quem culpa as mulheres que andam de mini-saia e decote pelas violações sexuais. Como é que se pode comparar em pé de igualdade o comportamento negligente de quem vai totalmente desprotegido com o de quem vai dentro de uma caixa de metal de uma tonelada??
Outro exemplo: enquanto peão já várias vezes ouvi protestos dos automobilistas desagradados com o meu comportamento apesar de eu estar a cumprir o código da estrada (por atravessar uma passadeira quando eles estão com "pressa" por exempo), mas nunca vi um peão refilar com um automobilista zeloso. Está-nos no sangue a ideia que o automóvel deve ser beneficiado, mesmo já tendo um código da estrada e um planeamento urbano a pensar nele e não no peão.
Uma coisa que o JN não fez foi contabilizar os automobilistas que foram multados por excesso de velocidade na cidade (descontando os famosos radares de Lisboa e Porto, que todos sabem onde estão), por não darem prioridade aos peões nas passadeiras, por passarem o sinal vermelho, por não respeitarem o amarelo intermitente antes de uma passadeira, por não darem prioridade aos peões independentemente de estarem numa passadeira quando entram numa nova via, etc... Alguém duvida que serão igualmente baixos?
*Uma infracção típica de peões (e também de automobilistas) é a que vem do raciocínio "ainda agora passou para vermelho", que é de certo modo compreensível porque de facto há um enorme intervalo de tempo em que está vermelho para todos. Foi um amigo alemão que me chamou a atenção para isso, exactamente por lhe ter causado estranheza. Os técnicos do tráfego devem definir um grande intervalo de segurança com a melhor das intenções, mas ingenuamente acabam por agravar a situação porque todos sabemos que quando logo a seguir a cair o vermelho não há perigo.