Ontem o Público
noticiou que os acidentes rodoviários em Agosto tiveram resultados "mais animadores que os de 2006".
Será que, para quem escreveu o artigo, é animador a existência de "apenas" 78 mortos em acidentes, será animador saber que dos 8964 acidentes resultaram 249 feridos graves e 2790 feridos ligeiros.
Ou, observando os dados desde o ínicio do ano em que o valor de mortes na estrada já chega quase aos 500, poderá ser dito que é animador o resultado das campanhas de prevenção e operação das brigadas de trânsito?
Para além do Público, existem outros jornais com secções exclusivamente dedicadas aos acidentes de viação, O Correio da Manha, O Sol, e provavelmente outros. Sim, é um problema da nossa sociedade... mas será que depois de escolhermos o filme que vamos ver no cinema na página 54 vamos ver como foram os acidentes rodoviários na página 23?
A situação é, de facto, preocupante, e animador seria se não houvessem acidentes, ou pelo menos mortes e feridos graves. Ter secções de jornais exclusivamente dedicadas ao assunto, é algo que nos deve fazer pensar, na regularidade com que os mesmos acontecem.
Utilizar a palavra "animador" será, no mínimo, um desrespeito pelas famílias daqueles que perderam a vida, qualquer que tinha sido a razão a levar a tal fatalismo.
Li uma vez, num comentário num blog, um automobilista a acusar, que quem perde alguém num acidente de automóvel, ganha um ódio de estimação a todos que o utilizam. Talvez uma maneira fácil de não nos responsabilizarmos, voltamos a assobiar para o lado e quando vierem novos números encolhemos os ombros de novo.
Eu também sou condutor, e apesar de jovem, também já perdi amigos na estrada. Se calhar isso abriu-me de algum modo os olhos e hoje em dia conduzo melhor e com mais prudência. Pelos vistos, nem toda a gente perdeu alguém e isso continua a acontecer apenas aos outros. Defendem-se abolição de radares, aumentos de limites de velocidade, melhores airbags, e carros mais resistentes, sem nunca por em causa a utilização excessiva que fazemos do automóvel.
Substituir as páginas dos jornais que falam sobre acidentes, por assuntos mais "felizes" não está no nosso horizonte, e como de facto pouco há que nos anime, vamos dizendo como se apenas números se tratassem que este ano foi "mais animador".