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Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

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Centros comerciais e centros históricos

TMC, 23.04.10

Muito do dito fenómeno de desertificação dos centros históricos fica patente nalgumas declarações do autarca presente nesta notícia. O edil, António Manuel, não se limita a constatar o fenómeno mas avança, até, soluções que o combatam. E é precisamente no tipo de argumento por ele advogado que poderemos desvelar a mentalidade que lhe está subjacente e que foi, afinal, a responsável pelo fenómeno de desertificação dos centros históricos. O mais irónico nestas afirmações é portanto a ignorância das causas, e a defesa dessas próprias causas como soluções. Vamos tentar precisar o que se disse.

 

Quer em Lisboa e no Porto, os subúrbios foram desenvolvendo-se de modo mais ou menos fragmentado, em torno de agregados populacionais, originariamente satélites do núcleo histórico central da cidade. O transporte motorizado individual, ao generalizar-se amplamente e tendo como garantia as auto-estradas gratuitas (algo que, pelo menos no Norte, parece vir a ser alterado, e que em breve será por nós abordado) fomentou a progressiva fixação das populações na orla desses núcleos; o transporte motorizado, não possui, contudo, a total responsabilidade neste fenómeno migratório; por motivos políticos e sociais, o congelamento das rendas bloqueou o crescimento do mercado de arrendamento, tornando-se o viver numa casa numa sinonímia de comprar a casa. E nos subúrbios é bastante mais módico ter uma.

 

 

Ora, ao que os subúrbios falta é o que sobra (talvez um saudoso sobrava seja mais exacto) à cidade: espaço público de proximidade, comum, de encontro, caminhável e preenchido de pormenores e detalhes, de personagens e de ausência de padrões. O automóvel, como é sobejamente apontado neste blogue, veio introduzir assimetrias nessa espaço e até condicionar o posterior desenvolvimento urbanístico. Tais características do centro histórico não são, todavia, caprichos de um projectista; antes são características da arquitectura que, através do engenho humano, ocasionam encontros, convivências, trocas, convívios, qualidade de vida. E é por isso que qualquer subúrbio, por mais fragmentado que seja, também precisa dessas características. Os centros comerciais que todos conhecemos surgem precisamente como, entre outras coisas, a solução possível para esse défice de encontros e convívio; são centros onde não há precisamente nenhum centro, pois estão no subúrbio; é esse o seu segredo. Nos centros comerciais miúdos e graúdos sentam-se, convivem, cochicham, namoram, mastigam e andam a pé e fazem tudo isso num simulacro do centro histórico.

 

 

Antes de parecer ao leitor que estou a fazer a apologia do centro comercial, pedia-lhe ao invés que olhasse, precisamente, para as semelhanças entre um centro comercial (de subúrbio) e um centro histórico. E só depois que reparássemos nas diferenças: acesso exclusivo à viatura particular e de modo gratuito (ver alguém ir a pé para um centro comercial de subúrbio é muito raro), ambiente controlado (os meus olhos, por exemplo, secam-se num instante), videovigilância, repetição de padrões prefabricados (roupa, comida, lazer), o que se salda por enormes desvantagens energéticas e ambientais e, o que é pior, criação de novos e nocivos hábitos. É através desses hábitos que é comummente feita a comparação entre os emergentes centros comerciais em Portugal e os decadentes centros históricos. É agora o centro histórico que tem de adquirir as características do centro comercial! Leia-se e atente-se:

 

São necessárias outras políticas para atrair mais gente para a Baixa, como a instalação de videovigilância nas principais artérias para reforçar a segurança.

 

[…] também é preciso melhorar as condições de estacionamento para os moradores e para quem frequenta a Baixa para fazer compras.

 

Considerando que o parque de estacionamento subterrâneo da Praça da Figueira "tem preços muito elevados", António Manuel defende "condições especiais para clientes das lojas da Baixa, que formam um centro comercial melhor do que os outros. Só que enfrentam uma concorrência desigual. Se retirassem os parques de estacionamento ao Colombo e ao Amoreiras Shopping, também desapareciam os seus clientes.

 

 

Devemo-nos sim interrogar acerca da justiça dos centros comerciais terem tarifas de parque de estacionamento gratuitas ou a preços ínfimos e de, através dessa forma, instigarem comportamentos de mobilidade que adulteram a presença nos centros históricos. Para mim o símbolo do centro comercial é a escada rolante. Uma escadaria, numa zona histórica da cidade, pressupõe sempre um esforço, a descer ou a subir, para vencer um desnível entre planos. Mas é engraçado, vai-se descobrindo novas perspectivas e recantos: é a cidade que, para ser descoberta, exige a atenção da pessoa que caminha. No centro comercial está tudo indicado, revelado, assepticamente limpo, esclarecido: tudo é óbvio. Só há dois modos de locomoção: o ir e o chegar nas quatro rodas e o deambular, o ver as sucessivas montras em alegre passeata. A escada rolante abate precisamente esse desnível; passa-se de um para o outro piso, cada um com a sua tipologia (cinema, restaurantes, lojas) numa tranquilidade homogénea.

 

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