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Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Menos Um Carro

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Os transportes públicos afinal não são um papão

MC, 24.08.09

Todos já ouvimos críticas ao funcionamento e à cobertura dos transportes públicos vindos de quem não os experimenta há muitos anos. O presidente daquela associação de automóveis, é um exemplo.

Mas há quem dê a mão à palmatória e reconheça que não tinha razão (só por isso merece os parabéns):


Decidi experimentar e verifiquei espantado como foi rápido, tranquilo, limpo, com lugares sentados disponíveis e ar condicionado. Fiquei cliente da Carris e, mais recentemente, aventurei-me no eléctrico, não por questão de pitoresco, mas porque me transportou muito agradavelmente para onde queria ir.
Bem sei que os trajectos que refiro são relativamente curtos, que eu tenho o privilégio de viver quase sem horários, evitando horas de ponta, mas provavelmente há outras pessoas em situações semelhantes e que mantêm preconceitos contra os transportes públicos, perdendo muito em qualidade de vida.

 

Aconteceu-me o mesmo há poucos dias, quando tive de utilizar o comboio para ir buscar o meu carro a uma oficina em Vila Franca de Xira: tive a grata surpresa de descobrir um transporte rápido, funcional e limpo, com ar condicionado e bancos confortáveis, além de uma voz solícita que anuncia todas as paragens e ligações a outros transportes em cada estação. A anos-luz, portanto, dos tempos em que eu andava nos comboios desta mesma linha, que em hora de ponta mais pareciam transporte de gado.
Dou a mão à palmatória e não volto a dizer mal dos transportes públicos, que, pelos vistos, evoluíram imenso.


Esqueci-me de dizer que na paragem do eléctrico havia um placard a dizer quantos minutos faltavam para a chegada do próximo.

 


A ler: a Unesco retira a Dresden o título de Património da Humanidade (algo que acontece pela segunda vez na história) por a cidade ter insistido em construir uma ponte de 4 faixas que vai despejar automóveis no centro histórico, no Spiegel.

Ponto de ordem à mesa: a electricidade e os combustíveis são baratos em Portugal

MC, 22.08.09

Já por várias vezes tive a discussão sobre o preço da electricidade e os combustíveis aqui nos comentários do blogue. Há a ideia errada que em Portugal  os preços são elevados face à média europeia. Seja porque as pessoas só comparam com Espanha, seja porque confiam no que lêem nos jornais que não têm muitas vezes falta de pudor em vender sensacionalismo (cheguei a encontrar um título de jornal sobre os preços da electricidade, que era na realidade baseado num artigo de opinião de um sindicalista, que tinha ido buscar os preços pagos por uma família cujo consumo médio estaria ao nível de uma TV em stand-by sem mais nada... mas eu não conheço nenhuma família assim). Faço assim copy-pate de informação que deixei em comentários.

 

Preço final pago pelos consumidores, 1º semestre 2008 em €/kWh, dados do Eurostat:

UE27            0.1691 0.1633 0.1508

Zona Euro    0.1733 0.1711  0.1587
Portugal       0.1691 0.1480 0.1326

As colunas são consumos baixos, médios e altos (deixei os muito baixos e muito altos de fora). Portugal está abaixo da média europeia, e bem abaixo da média da Zona Euro.

 

 

Preço final dos combustíveis em €/L, fonte relatório da DG de Energia e Transportes da Comissão Europeia, complementar com base de dados de energia Eurostat em 2005,2006 e 2007 (os últimos que o relatório tem)

Gasóleo

UE25         0.948  1.094 1.052
Portugal    0.834  0.981 1.019

Gasolina 95

UE25         1.034 1.192 1.150

Portugal    0.996 1.196 1.239

 

Das seis comparações, Portugal apenas fica acima da média numa (e por uma margem minúscula).

 


A ler: histórias de miúdos que foram proibidos oficialmente de ir para a escola de bicicleta , porque era perigoso (possivelmente porque os país dos outros miúdos os levam de carro). Alguém imagina proibir-se um automóvel de circular porque corre perigo devido às bicicletas? No Carectomy

O sonho que nos venderam!

António C., 21.08.09

Neste fabuloso anúncio que já tem uns anos, pode-se ver a forma como nos foi estimulado o desejo pelo automóvel.

 

Nomeadamente este Citroen Dyane, com o argumento que precisaria de abastecer menos vezes. Um verdadeiro avô do GreenWashing!!

 

 

Gosto especialmente quando o carro passa pela paragem cheia de gente e o garoto faz um espectacular "nhanhanhahanaha" a todos os que esperam na paragem!

 

Isto foi na altura em que Lisboa tinha parques suficientes no centro, em plena praça dos restauradores, como se pode ver aqui:

 

Claro que hoje em dia esta praça tem muito mais lugares, nomeadamente no parque subterrâneo, mas o director creativo da campanha de então deve muito provavelmente passar as manhas nos dias de hoje em cruzamentos semelhantes a este:

 

 

Esta é a realização do sonho que a publicidade automóvel nos vendeu.

Não existem semáforos entre bicicletas

MC, 21.08.09

Não existem semáforos entre bicicletas.

Nas cidades onde as bicicletas existem às carradas, não existem semáforos nos locais onde as bicicletas se cruzam apenas com outras bicicletas. Um cruzamento de ciclovias não precisa de regulação.

Não existem mesmo que o número de bicicletas seja o dobro, o triplo, ou quadrúpulo dos cruzamentos de automóveis.

Num pedaço de estrada cabem 10 ou 20 vezes mais pessoas a andar de bicicleta do que de carro. O mesmo cruzamento consegue fazer cruzar 10 ou 20 vezes mais pessoas em bicicleta do que de carro.

 

Este pensamento não me saia esta manhã da cabeça quando ia com pressa e tive que travar, sair da minha bicicleta, esperar um ou dois minutos por um semáforo, voltar a subir, cansar-me a pedalar só para alcançar de novo a velocidade que tinha antes do semáforo. E 500m à frente novo semáforo. E mais outro e mais outro. Isto apenas para que alguns de nós possam andar de carro. Se a grande maioria se deslocasse de bicicleta, ou a pé, ou de transportes, não existiriam semáforos. Enquanto a maioria abusar do carro, estamos condenados a este sistema ineficiente de cruzamento de pessoas.

 


Só para lembrar que em Lisboa é muito fácil saber quando chegam os próximos autocarros. Basta enviar um e-mail para sms@carris.pt com o código na paragem no título, ou um sms para o 3599 (0,30€) com o mesmo código, e em segundos obtém-se a resposta.

Os códigos podem ser descobertos no topo da página da Carris (código de paragem) ou neste ficheiro.

(Atenção, o ficheiro está num formato não-standard, um tal de .xls, mas o OpenOffice abre-o sem problemas)  

Ainda mais subsídios para os popós? Tirem-me deste filme

MC, 20.08.09

Queres andar a pé. Anda.

Queres andar de bicicleta? Compra e anda.

Queres andar de transportes públicos? O Estado paga uns euritos ao mês do teu passe e vais com sorte.

Queres andar de popó? Depois de descontos no IRS, ISP, 100% de desconto no IAutomóvel e IÚnico de Circulação, apoio à sua produção, incentivos extra no abatimento do carro anterior e IRC, o governo vai dar 5000€ a quem comprar um popó eléctrico! Eu e todos os outros que apenas usam as três primeiras opções, vão estar a oferecer uma batolada de dinheiro ao pessoal para andar de popó.

 

Que mentalidade saloia. Apoiar uma solução de mobilidade que poucas vantagens traz quando as soluções que já provaram resultados por essa Europa fora são abandonadas.

 


A ler: 101 atropelamentos nas passadeiras em Lisboa em apenas 4 meses no Observatório da Baixa. Será que a culpa é dos peões? Será que se fossem popós eléctricos não haveria atropelamentos?

Motoretas com carta de carro

MC, 18.08.09

Por proposta do PCP, e seguindo uma directiva comunitária ainda por aplicar, foi aprovada uma alteração ao Código da Estrada que permite conduzir motoretas até 125cc com a carta de condução de automóvel.

A ideia é tirar gente dos carros e meter nas motas. Como o espaço ocupado por automóvel é a principal causa dos problemas dos carros nas cidades, esta mudança pode diminuir significativamente o congestionamento, os custos da mobilidade pessoal, a sinistralidade, o espaço roubado à cidade e a poluição (uma mota ainda polui bastante, mas com menos engarrafamentos os consumos serão muito menores que o actual) e facilitar a vida aos peões por não haver estacionamento nos passeios (no espaço de um carro cabem várias motas), nem tempos longuíssimos de espera,, nem 1001 obstáculos na travessia de ruas, etc.

Acho uma alteração claramente positiva, só receio o aumento do ruído. As cidades do sul de Itália não são própriamente simpáticas neste ponto.

O "ideal" seria ter esta mudança a ser feita para motas eléctricas, um pouco menos poluentes e muito menos ruidosas.

 


Sugestão um pouco off-topic: lista de várias ciclovias de lazer em Portugal na Visão, para uns passeio nestas férias.

Um julgamento histórico?

TMC, 16.08.09

Segundo noticia o JN, os dois condutores envolvidos numa colisão que vitimou 17 pessoas serão julgados em Novembro. Incorrem em vários crimes mas destaque-se que a ambos é imputada a responsabilidade de homícidio por negligência a cada uma das vítimas mortais.

 

Não conhecendo os pormenores todos do caso, lembro-me de ter lido recorrentemente na imprensa os seus desenvolvimentos; desde logo foi apontado como possibilidade a acusão de homícidio por negligência, o que julgo ser inédito na justiça portuguesa; uma equipa do Instituto Superior Técnico foi contratada para poder reconstituir o acidente e inferir a quem cabiam as responsabilidades. Penso que normalmente só em casos muito flagrantes é que a culpa é atribuída ao automobilista.

 

A sinistralidade rodoviária é um problema de saúde pública com enormes impactos económicos. Há vários factores envolvidos, desde o mau planeamento das estruturas, segurança relativa dos automóveis até aos factores humanos como sonolência, inexperiência ou condução sob a influência de drogas. São estes que as campanhas de sensibilização tentam combater. Qualquer propaganda que se faça acerca dos objectivos a cumprir não deixa de ser sempre um pouco mórbida: ficamos contentes se morrerem menos pessoas neste ano do que no ano passado.

 

É por esta razão que este julgamento pode ser histórico. A colisão foi investigada, tal como o crime que é, com o objectivo de apurar as causas e derivá-las em última instância para os condutores. Existe portanto a intenção de responsabilizá-los e é isso que deve ser aplaudido. Em Portugal, o que vinga é sempre a desculpabilização dos intervenientes e o desprezo pelas regras mais elementares; o resultado na circulação rodoviária está à vista.

 

Já o MC tinha abordado as consequências que a condução parece ter para o condutor; há uma perda de percepção da velocidade directamente relacionada com o conforto e o sentimento de poder que a condução proporciona; o automóvel parece expandir as nossas capacidades mas ilude-nos quanto ao impacto das mesmas. Não nos apercebemos que uma mísera velocidade de 50km/h é suficiente para ser mortífera.

 

A frase que ouvi do meu professor de condução nunca fez tão sentido: vocês não estão a tirar a carta; estão a tirar uma licença de porte de arma.

Quanto custam realmente oito quilómetritos de via-rápida

MC, 16.08.09

Quando discutimos uma auto-estrada, nem pensamos nos custos que ela implicou. Vemos apenas o alcatrão já colocado e os supostos benefícios dele.

Um comunicado recente da Quercus (complementar deste) chamou-me a atenção para 8km de um sublanço do IC9 na zona de Tomar. Custou 36 milhões de euros, 4500 euros por metro! Mas não são só custos financeiros que estão em causa. São propriedades agrícolas que deixaram de existir, dezenas de sobreiros e centenas de azinheiras que foram abatidas, zonas ecológicas danificadas, património arquelógico milenar que foi destruído. Tudo acompanhado com dezenas de ilegalidades cometidas pelo governo, pelas Estradas de Portugal e os empreiteiros, desde tropelias nos estudos ambientais a emissão de todo o tipo de aprovações já depois da obra estar em curso.

E para quê? Para promover o meio de transporte que mais recursos e infra-estruturas necessita? Para o "progresso" quando tantos países já nos mostraram que não são as vias-rápidas que nos vão ajudar?

 


A ler uma notícia antiga no JN sobre como estacionar em Lisboa sem parquímetros. Enquanto na maioria das cidades europeias até os residentes são fortemente restringidos, este texto mostra o estado de alma existente em Portugal que considera o direito ao estacionamento na rua como um direito acima de tudo e todos. No Passeio Livre.

E agora, para algo completamente diferente

TMC, 14.08.09

Caminhar também é moda longe da praia

 

Por razões de saúde ou simplesmente pelo convívio, são muitos os que saem de casa ao final do dia para caminhar nos centros das cidades. Em família ou com os vizinhos, andar a pé também é moda longe da praia e das marginais de rio.

 

A Avenida da Conduta, principal via que atravessa Gondomar, é exemplo daquela tendência. A partir das seis da tarde e até perto da meia-noite, sobretudo ao fim-de-semana e quando está bom tempo, vê-se muita gente a caminhar  à volta de cinco quilómetros. Mas os passeios estão cheios também nos dias úteis. Na Maia, a afluência é bem menor. Com o portão aberto até à meia-noite, os munícipes optam por andar à volta do Estádio Prof. Dr. José Vieira de Carvalho. O local é mais procurado ao final da tarde. Em Valongo, são cada vez mais os que vão caminhar ao fim do dia. Mas há quem prefira andar uns quilómetros logo pela manhã, antes do trabalho.  A zona dos Lagueirões é  a mais concorrida.

 

Andar é desporto para qualquer idade nos Lagueirões

 

Dos oito aos oitenta, o hábito de andar a pé não tem idade. Rosa de Jesus foi com a nora Maria dos Anjos e a neta Letícia caminhar entre os prédios, na zona dos Lagueirões. Por volta das oito e meia da noite, marcava passo num grupo de seis mulheres e meninas. Uma rotina que se repete há dois anos. Fazem uma hora de caminhada, todos os dias, "mesmo no Inverno", contou, ao JN. E "só se chover muito" é que ficam em casa. A nora não se fica por aquele grupo. Às 22 horas, volta a sair para o mesmo local para "andar a pé com duas colegas". O marido prefere caminhar "de manhã e sozinho", explicou Maria dos Anjos.

 

Eduardo Jorge, de 37 anos, também marca presença todos os dias, mas logo pela manhã. "Costumo vir às sete e meia, mas hoje deu-me mais jeito de noite", explicou, ao JN, prometendo que na manhã seguinte não ia faltar. "Sabe melhor, é mais fresco e não estou com o stress do trabalho", justificou. Corre sempre até às oito e meia, cerca de 10 quilómetros, toma banho e sai para o trabalho, que fica perto de casa. Acompanhado pela filha Ana Rita, de 13 anos, que estava de bicicleta, Eduardo trazia uma camisola da selecção portuguesa, mas garante que é "amador". O percurso, confessa, "é um bocado perigoso" por causa dos carros que passam, mas procura os locais com maior visibilidade.

 

Quarenta voltas ao estádio para fazer bem às pernas

 

António Alves, de 57 anos, também escolheu o estádio para caminhar com a mulher porque "faz bem as pernas". "Ele anda mais, cerca de 40 voltas", conta Joaquina. O casal garante que "está sempre muita gente a andar" ali. E há dias em que se juntam naquele espaço "40 ou 50 pessoas".

"Sou obrigado a andar pelo meu médico", contou, por sua vez, José Santos, de 61 anos, porque "parar é morrer". "Todos os dias ando a pé e só pego no carro quando é preciso", disse ao JN. Além disso, não gosta "de estar parado". Em sentido contrário, num passo mais acelerado, seguia Maria Fernanda, de 55 anos. Habitualmente, caminha durante cerca de uma hora. E não pára para conversar.

 

 

 

Passeio na Avenida da Conduta junta vizinhos

Todos os dias, o mesmo ritual: descer e tocar às campainhas dos vizinhos para ver quem se junta à caminhada, explicou Lurdes Madanços, de 45 anos. Num grupo de seis pessoas, constituído por casais e moradores do mesmo prédio, em Fânzeres, seguia ao longo da Avenida da Conduta.

Nesta via de Gondomar, há dias em que os caminheiros chegam às três centenas. Alguns fazem o percurso entre o centro do concelho e a freguesia de Rio Tinto, passando pela Vila de Fânzeres. Porém, se os calçadões atraem quem gosta de andar ou correr, por outro lado ouvem-se críticas ao mau estado do pavimento. Entre os largos passeios que foram sendo construídos na Avenida da Conduta existem muitas falhas. "Há pontos que nem sequer têm passeio", queixa-se Pedro Monteiro, de 33 anos. Até porque numa das bermas da via ele é inexistente. Por outro lado, os carros passam a alta velocidade e as pessoas criticam a retirada das lombas de desaceleração.

No "lado bom" da Avenida, David Silva, de 46 anos, e a esposa, Paula Duarte, de 42, empurravam o carrinho de Iris Filipa, de dois anos. Com Carolina e Leandro, cada um com quatro anos, Iris integrou esta família de acolhimento que passeava após o jantar. Fazem sempre o percurso entre a chamada fonte luminosa e a Rotunda da Carvalha. O Inverno não costuma ser obstáculo. Porém, quando está de serviço nos bombeiros, David falta à caminhada.

Quanto às razões que os levaram a fazer exercício, o marido explica que "tinha o colesterol muito alto e o médico mandou andar". Prefere andar de bicicleta e às vezes traz consigo a sua filha mais velha. Mas assim não pode fazer companhia à Paula que, por sua vez, tem indicação médica para caminhar no sentido de "perder alguns quilos".

 

A alguns metros de distância, estava um grupo entre os 14 e os 19 anos. Cristiano, César, Fávio e Márcio chegaram após as 22 horas. Mais dois amigos costumam juntar-se ao grupo mas estavam de férias. "Fica mais barato vir andar" do que o ginásio, explicou Márcio.

Paula Cruz, de 41 anos, diz que não tem tempo para ir ao ginásio "e são muitos caros". "Costumo vir andar para a Avenida da Conduta porque acho que me faz bem. Além disso, não faço mais nenhum desporto", justificou.

 

 

 

 

Comentário: não deixa de ser irónico que haja uma notícia que aborde uma actividade por demais natural ao ser humano. Além de estar deitado e sentado, o andar a pé é algo que é inerente a qualquer pessoa e que advém do facto de termos um corpo com duas pernas.

 

Porque há então uma notícia que aborda uma actividade tão natural como se fosse um novo fenómeno? As respostas estão na própria notícia e nos seus pressupostos:

 

1) andar a pé nos passeios e nas cidades não é normal porque...

2) ...as pessoas na cidade normalmente deslocam-se de automóvel;

3) se as pessoas realmente estão a andar a pé nas cidades e nos passeios ou é uma moda ou é para melhorarem a saúde por recomendação do médico ou é por factores económicos

 

São estes os efeitos deturpados que uma cultura do automóvel provoca: tem que haver uma razão para andar a pé; tem que haver uma explicação para uma deslocação que não é regra, que não é a deslocação motorizada. As próprias pessoas encontraram-nas e justificaram a sua actividade , a sua diferença, como se isso fosse necessário. Não me admira que um dia se chame ao andar a pé o footing e haja até passeios especiais para o fazer.

 

Não nos esqueçamos que pela etimologia, automóvel é qualquer móvel que se automobilize. As pessoas são automóveis!

 

E no entanto, é evidente que há algum prazer e convívio que esse desporto económico e salutar fornece. Ficar surpreendido é que é bizarro.