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Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

Michael Hartmann - Autobiografia V

MC, 14.04.09

Quando Michael Hartmann começou a caminhar no meio da rua, a polícia não gostou. Uma coisa é um carro enorme a ocupar o diminuto espaço do peão parado durante horas ou dias, algo que a polícia de Munique há 20 anos - e a nossa hoje - sancionava quando o rei faz anos, outra completamente diferente é um peão a ocupar uma pequena parte do enorme espaço dos automóveis durante alguns segundos, nem estando sequer parado. A primeira tolera-se, agora a segunda é um crime contra a humanidade. O Michael pediu várias vezes que lhe fosse passada uma multa equivalente à do estacionamento no passeio, mas sem sucesso. Como não havia enquadramento penal à altura do crime hediondo de Michael, a polícia começou a prendê-lo, para logo a seguir o ter que libertar por não haver fundamentos legais para a prisão.

O passo seguinte foi prendê-lo duas vezes num hospital psiquiátrico, alegadamente por ter comportamentos suicidas. Era portanto alguém que durante meses caminhou na estrada, e  que a qualquer momento poderia querer suicidar-se, mas estranhamente ainda não tinha encontrado nenhum modo de o fazer durante as caminhadas entre veículos de uma tonelada a alta velocidade. Mais uma estratégia da polícia que fracassou por falta de fundamento legal.

Pouco depois foi atropelado com alguma gravidade. O chefe da esquadra local passou no local do acidente e comentou "pois então, afinal não é assim tão seguro caminhar na rua".

Um americano sobre as cidades europeias

MC, 14.04.09

People still stroll in Europe. The older people often walk with their hands behind their backs, with one hand clasping the opposite wrist, in The European Dream, Jeremy Rifkin

 

As pessoas ainda passeiam a pé na Europa. Os idosos caminham muitas vezes com as mãos atrás das costas, com uma mão agarrando o pulso oposto.


Não há nada de especial em passear a pé, mas exactamente por isso é que sorri ao ler um americano a fazer este comentário sobre as nossas cidades. Nos EUA as  cidades são parques de estacionamento. Não há praças com velhotes a jogar à sueca, nem ruas pedonais com comércio local. É possível andar a pé sem nunca nos cruzarmos com outro peão.

Mais recentemente soube de empresas nos EUA que têm guarda-costas especialmente contratados para acompanhar os cidadãos estrangeiros a trabalhar lá temporariamente, quando eles têm o estranho hábito de ir dar uma volta a pé até a um supermercado, ao centro ou seja o que for. 


E como todo o mundo é composto de mudança, em Nova Iorque, umas das poucas "cidades europeias" nos EUA, o espaço urbano começa a ser devolvido às pessoas. Tenho que admitir que a esplanada não parece minimamente agradável para um europeu, mas a mudança é importante pelo próprio simbolismo da devolução. Falo de mais uma reportagem da StreetFilms.

 

Boa notícia em Lisboa, bem a propósito: o Largo de Camões volta a ter, mais de um século depois,  um quiosque com bebida e comida. Claro que é das zonas mais humanas da cidade, mas é sempre bom ver uma praça a ganhar ainda mais vida.

MAIS PROGRESSO E DESENVOLVIMENTO ATRAVÉS DE AUTO-ESTRADAS

TMC, 08.04.09

Populares da Vila da Branca, Albergaria-a-Velha, manifestaram-se esta quarta-feira frente à Assembleia da República contra um traçado da A32 «sem fundamento técnico» que, dizem, vai «dividir a freguesia», noticia a Lusa.

 

Munidos de bandeiras negras, flores e cartazes onde se liam frases como «três auto-estradas no espaço de 6km não», um grupo de populares da Branca apresentou-se «de luto» pela decisão do Governo de adoptar um percurso da futura A32 que atravessará a freguesia.

 

Antero Pereira, um dos populares presentes, apontou para «cerca de 450 pessoas» que se manifestam por estar em causa «a qualidade de vida e o património da Vila da Branca».

«As pessoas que estão aqui são pessoas que se deslocaram 300km num dia de semana, perderam, num momento de crise, um dia de trabalho e estão aqui para defender aquilo que é o futuro da Branca», afirmou.

 

«Nós não aceitamos este traçado, querem impor-nos um trajecto que começa logo por cortar transversalmente a expansão da zona industrial de Albergaria-a-Velha, que tem uma grande importância em termos económicos para a região», continua.

Segundo Antero Pereira o traçado proposto pressupõe ainda «um viaduto de 1km com uma pendência de 6 por cento de inclinação, pendência máxima, que é uma barbaridade», acrescentando que «a paisagem vai sofrer com a inserção de um traçado pesado como o é uma auto-estrada».

 

«Não precisamos de nada disto»

 

Antero Pereira referiu ainda em declarações à Lusa que este traçado vai «cruzar no centro de gravidade da estação arqueológica do monte de S.Julião» e lembra que há alternativas que considera mais adequadas.

 

«O Plano de Desenvolvimento Municipal prevê uma variante cujo corredor podiam aproveitar para implantar esta estrutura sem que se levantasse uma voz que fosse, uma única bandeira a opor-se a uma solução desse tipo», referiu.

 

«Não precisamos de nada disto: Temos uma auto-estrada A1, está em construção a A29, temos a linha do Norte, estão a querer impingir-nos um TGV também, o que é que nos querem impingir mais?», questiona Antero Pereira.

 

 

 

«A Branca continua de luto»

 

Estas preocupações são partilhadas por Beatriz Marques que também participou na manifestação garantindo que «a Branca continua de luto até que o senhor primeiro-ministro decida que aquela auto-estrada não faz lá falta».

 

«Daqui a pouco não temos terreno para semear batatas, para plantar couves para fazer nada! Importa-se, que o país é rico e tem muito dinheiro para importar os produtos que a gente tem de comer», reclama Beatriz Marques.

 

Segundo Antero Pereira, «a luta continua até que o poder possa subverter esta decisão, a declaração de impacte ambiental proferida possa ser anulada e adoptado o traçado mais consensual, mais de acordo com a razão, mais pacífico, mais tranquilo, que não fira o ambiente, o património e que traga sobretudo paz» à população de Vila da Branca.

 

 

Esta notícia será em breve esquecida e desprezada mas é o que de mais directo e concreto sentem as populações locais aos traçados das auto-estradas do desenvolvimento. Torna-se claro que nestas discussões, a qualidade da nossa democracia é que sai lezada. Como rebater o argumento de haver três auto-estradas num espaço de 6km?

 

Será possível dar qualquer credibilidade aos técnicos e governo que permite que isto suceda?

 

Michael Hartmann - Autobiografia IV

MC, 08.04.09

No primeiro caso em tribunal que Michael Hartmann enfrentou (onde foi condenado a pagar uma multa e uma indeminização por ter amolgado um automóvel), o juiz não aceitou como válido o argumento da defesa, onde se dizia que o Michael só tinha caminhado por cima do automóvel, porque ele estava parado na zona de circulação do peão. O juiz contrapôs que ele poderia ter contornado o carro pela direita ou pela esquerda.

Baseado nesta argumentação "legal" o activista decidiu ocupar então a rua, comendo um pão no meio de uma avenida, num local onde os automóveis o podessem contornar sem problema. Escusado será dizer que as autoridades deixaram de concordar com o argumento do juiz, a partir do momento em que se troca as palavras "peão" e "automóvel".

Dêem uma esmolinha ao peão

MC, 07.04.09

A história resume-se rapidamente. A Carla Castelo da SIC, uma jornalista muito empenhada na causa de uma mobilidade mais humana, fez uma reportagem sobre o martírio dos peões em zonas centrais de Lisboa. Um dos casos envolvia um percurso onde os peões são obrigados a atravessar uma via-rápida (oficialmente avenida, daquelas onde se buzina quem anda a menos de 70km/h) onde não havia passadeira nem semáforos. O departamento de tráfego da CML não gostou do que viu, e apesar de não haver alternativas pedonais não esteve com meias medidas e fez pagar o justo pelo pecador: proibiu a passagem de peões. Nova reportagem sobre a insistência dos peões em andar a pé, e pimba! a CML coloca um muro de betão para tentar bloquear os peões.

O ridículo arrasta-se há 3 meses, e esta é a reportagem mais recente:

 

O que mais me confrange não é não haver passadeira, nem a reacção arrogante da câmara*, é toda aquela zona da cidade e a própria reportagem. Quem vê a reportagem, nem percebe que se trata de uma zona muito central de Lisboa. Uma avenida que liga duas importantes praças de Lisboa, tão importantes ao ponto de terem feito parte das 11 estações iniciais de Metro há 50 anos. O local está transformado em cruzamento de auto-estradas - perdão avenidas, cheio de viadutos uns em cima dos outros. Não existem quaisquer zonas de passagens para peões, excepto a que foi agora encerrada. Do outro lado da via-rápida não há sequer passeio ou passadeiras. As alternativas mais próximas para peões são a centenas de metros. Toda a zona parece que foi montada de propósito a impedir a passagem de peões e a matar qualquer ideia de cidade humana.

Posto isto e descontando a primeira reportagem onde este caso era apenas mais um exemplo, todas as reportagens seguintes (as quais eu não deixo de aplaudir) resumem-se a um pedido de migalhas para um sem-abrigo faminto. Obviamente que a Carla Castelo tem a melhor das intenções, tal como vários leitores que me chamaram a atenção desta série de reportagens (obrigado!), mas para mim trata-se de um claro sinal da aceitação social da inferioridade do peão na cidade.

 

* A câmara poderia simplesmente pôr lombas antes do cruzamento. Bem sei que aquela estrada tem perfil de saída de auto-estrada, e as velocidades chegam aos 80, 90. Mas a velocidade máxima permitida ali é 50, o abuso frequente da lei não pode ser usado como argumento para impedir a colocação de lombas que façam ela ser cumprida.


A ver: outra reportagem da Carla Castelo sobre a avenida mais poluída da Europa, a centralíssima "avenida" da Liberdade.

Michael Hartmann - Autobiografia III

MC, 07.04.09

(adaptado da introdução)

 

Quando um peão, que esteja no espaço reservado ao automóvel, é "danificado" acidentalmente por um automobilista, a culpa é do peão.

Mas quando um automóvel está no espaço reservado ao peão, e é acidentalmente danificado por um peão, a culpa também é do peão!

 

(E convenhamos, os danos no primeiro caso costumam ser um pouco mais graves)

Parabéns Galp!

MC, 06.04.09

A Galp lançou um programa de Car Pooling, ou partilha das viagens de carro (infelizmente chamou-lhe galpshare o que ajuda a confundir entre car sharing e car poolng) com uma forte e interessante campanha publicitária. O galpshare  junta-se assim ao CarPool e o Dê Boleia. O funcionamento é semelhante, uma pessoa que queira fazer um determinado percurso num determinado dia ou regularmente, deve registar essa informação indicando o contacto e se quer partilhar o seu carro ou viajar no carro de outrém. Sendo que a Galp é a principal afectada pela promoção do car pooling, e tendo a capacidade de realmente criar uma iniciativa com muitas adesões, a gasolineira está obviamente de parabéns!

 

Gosto especialmente da campanha publicitária. A campanha Solitários do Asfalto na rádio "chateia" o automobilista por passar horas sozinhos dentro do carro, incentivando a partilhá-lo. Mas o spot na TV (45 seg) vai mais longe:

 

Ele mostra o absurdo da mobilidade em automóvel nas cidades, onde levam em média 1,4 pessoas. É pena que o foco do texto seja a energia gasta, porque todo o spot parece ter sido construído para explicar a maior estupidez do automóvel na cidade: o espaço que ocupa. Quase todos os problemas são causados pelo espaço. O congestionamento não existiria se cada pessoa andasse de bicicleta/mota ou autocarro, ocupando menos espaço. E o congestionamento reduz a velocidade de circulação e a frequência dos autocarros, duplica o tempo de viagem e o stress, triplica os gastos em combustível e a poluição. Por culpa do espaço ocupado é necessário construir grandes viadutos, túneis, e parques de estacionamento, é necessário haver semáforos (o que por sua vez também causa congestionamento, etc.). A própria sinistralidade é causada pelo espaço ocupado (imaginem uma mota em vez de cada carro). A monopolização do espaço público por parte do automóvel, não permite mais praças e jardins, ocupa passeios e impede uma fácil de circulação dos peões. Tudo culpa do espaço ocupado.

Depois de lerem este sermão, revejam o filme, e digam lá se não é muito bom.

 

Não, eu não acho que uma gasolineira deva ser criticada pelo simples facto de ser uma gasolineira. Nem acho que tenha uma obrigação moral maior em termos de respeito pelo ambiente. As leis é que devem ser mais exigentes, e as autoridades menos complacentes, mas tratando todos por igual. O GreenWash é diferente, mas isto não é claramente um caso de Greenwash.


Enviado pelo leitor P.A. Uma notícia no DN onde se diz que Portugal vai transcrever uma directiva europeia que reforça a cooperação judicial na UE, em termos de pagamentos decididos judicialmente (indeminizações, multas, etc.). Estão em causa crimes como terrorismo, tráfico de armas, exploração sexual de crianças e pornografia infantil, tráfico de armas, tráfico de órgãos humanos, etc. Mas qual é o título que o DN escolheu? Escolheu aquilo realmente preocupa o povo: Multas apanhadas na UE vão ser cobradas em Portugal

Michael Hartmann - Autobiografia I

MC, 04.04.09

A autobiografia do activista alemão pró-peões (ver posta anterior) está cheia de observações muito simples mas muito perspicazes, que mostram bem como as nossas cidades vivem sobre a ditadura do automóvel sobre os outros modos de transporte sem que nos apercebamos.

Diz ele que um carro (e é mesmo só a caixa de metal, nem tem uma pessoa lá dentro) que esteja parado no local destinado à circulação dos carros, ocupando muitas vezes apenas uma pequena parte da rua, é normalmente rebocado levando uma multa elevada.

Mas o mesmo carro estando parado no local destinado à circulação dos peões, onde normalmente ocupa uma grande parte senão a totalidade do passeio, apenas leva uma multa pequena.

Michael Hartmann - Autoschreck

MC, 04.04.09

Há muitos anos que ouvi falar de Michael Hartmann, um conhecido activista pelos direitos dos peões em Munique. Soube na altura em que um tribunal tinha decretado que ele não deveria ser penalizado por caminhar em cima dos automóveis estacionados no passeio, porque não o fazia com o intuito de danificar.

Exactamente, caminhar sobre os carros estacionados no espaço do peão. Um dia em que ia pelo passeio com a namorada, fartou-se de estar constantemente a interromper a conversa e afastar-se dela, por os carros estacionados ilegalmente impedirem a passassem de duas pessoas lado a lado. Fartou-se e foi em frente, tal como era suposto. Por se irritar com a ocupação do espaço dos peões por caixas de metal, decidiu também passar a ser peão no local reservado para as caixas de metal.

Já há uns tempos que descobri na net um documentário famoso sobre ele, o Autoschreck (algo como  Susto do Automóvel) de 1995, um "clássico" do activismo pró-peão e anti-automóvel, mas sempre tive receio de o referir. Convenhamos que o senhor tem um pouco de doido, e  ninguém gosta de associar doidos à sua causa. Mas à parte da sua figura, será que faz realmente sentido acharmos que alguém que decide caminhar pelo alcatrão é doido? Qual é a diferença entre um peão a ocupar a zona dos carros e um carro a ocupar a zona dos peões? Ainda por cima um carro que está na zona dos peões nem tem uma pessoa lá dentro, é apenas uma caixa de metal. Parece-me que o doido é o outro.

Como o documentário mostra (e nem precisava de mostrar), um peão a ocupar o alcatrão é violentamente maltratado pelos automobilistas, mesmo em frente às câmaras. Mas nunca vi um automobilista a estacionar no passeio e a ser violentamente tratado por um peão.

 

Aqui fica o documentário de 15min. Veja-se pelo menos dos 0:30 aos 1:30, onde numa cena trágica (um pouco à 24 Horas mas trágica e muito frequente) se mostra bem como a parte mais fraca na mobilidade é apenas uma formiga que pode ser esmagada acidentalmente.