Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008
Chegado por e-mail:
Há algumas semanas fui passear pela Espanha, fiz a costa sul, entre Andaluzia e Barcelona. Uma coisa que me surpreendeu foi ver a reacção de uns quantos espanhóis quando descobriam que era português
- És de Portugal? Eh pá, vocês têm uma infra-estrutura rodoviária bem desenvolvida!
- ?!?!?!!? O quê? - pensava eu. Da última vez que conheci espanhóis em Portugal ou no estrangeiro, a minha reacção era mais do género
- És de Espanha? Mmm, Jamon, Flamenco, Paella, Chicas, Fiesta...!!! - Alguma vez me passaria pela cabeça falar das autoestradas que ligam Barcelona a Madrid, ou sobre o sistema de estacionamento em Alicante, ou de qualquer coisa que tivesse relacionada com automóveis ou coisa parecida. Não! O paleio tende sempre para as imagens estereotipas de uma nação, de uma cultura - boa comida, praias, o bom tempo, fiesta, etc, no caso de Espanha... Mas a minha experiência em Espanha, foi que - e isto mais do que uma vez - a primeira coisa que muitos espanhóis mencionam quando sabem que sou português, é a situação do parque automóvel em Portugal. Fiquei chocado, porque não comentam a boa comida portuguesa, ou as bonitas praias que temos, não se referem ao temperamento lusitano, nem à beleza das nossas cidades, não, fazem comentários sobre as estradas de Portugal! A que ponto chegou o nosso país, quando a imagem da cultura e mentalidade portuguesa no estrangeiro passou a ser o automóvel?
Ao ler
esta notícia esboçei um sorriso ao ver o comentário que este jogador de futebol norte-americano fez sobre Lisboa e Portugal:
A terminar, Adu fez ainda um curioso comentário sobre o modo de vida em Lisboa, nomeadamente o uso de automóveis: "Em Portugal toda a gente tem carros pequenos e estacionam em todo o lado, ao contrário dos Estados Unidos."O que vale é que temos carros pequenos de preferência com duas rodas em cima do passeio para não ocupar muito espaço...
...enfim, de facto, o uso abusivo do automóvel é algo que salta à vista no nosso país.
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008
Se prova ainda não houvesse que o peão é tratado abaixo de cão na nossa sociedade, aqui fica uma:
Homicídio de uma criança de 11 anos que atravessava a passadeira:
18 meses de prisão (suspensos)
Falsificação de notas dos exames do secundário:
36 meses de prisão (suspensos)
A única boa notícia aqui é que ao menos houve um tribunal que condenou um homicida ao volante, quando há inúmeros casos em que nem uma condenação acontece.
Nota: Eu tenho horror à defesa de longas penas de prisão (tenho muito orgulho por termos um dos limites máximos de prisão - 25 anos - mais baixos do mundo), por isso não estou aqui a defender penas de 10 anos. Também sou alérgico a comparações demagógicas e maniqueístas de decisões judiciais que apenas olham para a contabilidade dos meses na prisão. Mas por mais voltas que se dê,
é impossível compreender como é que os homicidas ao volante (e os potenciais homicidas também) são tratados com tanta complacência.
Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
Aqui fica mais uma prova desse mito urbano de Lisboa não ser ciclável: um mapa dos declives de Lisboa (a rosa clarinho as áreas com declive menor do que 5%, ou seja ao longo de um quilómetro sobe-se menos de 50m).
Há uma enorme área (69%) da cidade com declive pouco acentuado, sendo que a preconceito de Lisboa como cidade das cordilheiras vem principalmente da primeira imagem quando pensamos na cidade: a zona histórica do Castelo e do Bairro Alto.
Tal como Paris não desistiu por ter a colina de Montmatre, tal como Londres Londres não desistiu devido à enorme extensão, tal como Copenhaga não desistiu por ter um péssimo clima, Lisboa (e outras cidades portuguesas) não podem passar ao lado desta ferramenta fundamental para a mobilidade urbana de futuro que é a bicicleta.
Já há dados sobre a circulação automóvel desde a abertura do buraco do Marquês. Ao contrário do que o mui nobre e brilhante ex-(e muito ex)-presidente da CML Santana Lopes nos prometia, o número de carros a circular naquela zona aumentou. Suponho que a teoria do ar estar agora mais limpo também tenha vindo por água abaixo. (Notícia do CM resumida n'
Os Verdes em Lisboa)
Ou seja enterrámos 27 milhões de euros para aumentar o trânsito numa zona onde em 2006 os limites comunitários de poluição atmosférica foram ultrapassados em 180 dias ("Avenida" da Liberdade), quando o máximo são 35 dias.
Tenhamos coragem de enterrar agora o buraco, e acabar com aquele crime urbanístico.
Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2008

Há um livro que sempre que eu o (re)descobria em livrarias, me surpreendia por ainda não o ter comprado. Depois de o folhear, rapidamente me recordava da razão para tamanha falha e voltava a colocá-lo na estante.
O livro chama-se PERCURSOS: Paisagens & Habitats de Portugal e é feito pelo
Instituto de Conservação da Natureza. O mesmo ICN que é responsável pelos parques naturais do país.
Ora no país da carro-dependência, um percurso por uma paisagem ou habitat natural, mesmo do ponto de vista do Instituto que protege esses habitats, não é um percurso a pé ou de bicicleta pelo meio da natureza, como eu ingenuamente julgava. Todos os percursos são percursos de carro pela estrada nacional, havendo apenas
alguns deles que incluem pequenos percursos pedestres pelo meio, sendo que nenhum destes "desvios" é acompanhado por uma descrição das direcções a tomar ou pelo menos um mapa como acontece com os percursos rodoviários.
Algo vai mal quando o próprio ICN acha estranho que alguém se lembre de passear a pé por paisagens protegidas.
Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008
Largo do Rato em Lisboa
Repare-se como o largo era de todos, peões e transportes.
1943 (Arquivo Municipal)

1935 tirado d'
O Carmo e a Trindade
E hoje...
Na cidade transformada em cruzamento de vias-rápidas, o largo é da exclusividade dos automóveis, mais o seu ruído infernal, o seu stress, a sua agressividade, restando às pessoas as bermas. E não lhes chega monopolizar o espaço, o tempo não escapa. Para atravessar o largo a pé é necessária uma eternidade em semáforos e mais semáforos, voltinhas e mais voltinhas. Será que alguma vez o largo será devolvido?