Fui à pouco tempo a uma espécie de entrevista de emprego (digo espécie porque na prática já estava dentro da empresa e foi uma entrevista para me conhecerem melhor), em que me perguntaram que carro gostaria de eu ter.
Esta era uma daquelas perguntas para tentar perceber a personalidade da pessoa, se quer um topo de gama demonstra ambição, se quer um desportivo é uma pessoa com garra que gosta de correr riscos, se quer um SUV (será um parvo?) terá uma ambição desmedida. Etc...
Para espanto de quem perguntava respondi que a minha grande ambição era conseguir viver sem comprar um. Viver perto do trabalho, deslocar-me a pé, de transportes ou de bicicleta e quando precisar de um carro alugar consoante as necessidades. Um 2 lugares para dias de grande tráfego na cidade, mas que não posso evitar usar, alugar um de 5 lugares para ir de fim de semana com amigos e família, alugar um topo de gama quando quiser aumentar o meu status e pentear o meu ego, alugar uma carrinha quando precisar de transportar grandes mercadorias ou fazer mudanças.
De facto para trabalhar na primeira semana nessa empresa tive de alugar um carro numa lowcost de aluguer de automóveis (sim, também existem).
É certo que poderei não ter mostrado ambição, gosto pelo risco, vaidade ou qualquer outro desses comuns adjectivos. No entanto penso ter dado a ideia de ser um estratega à altura dos desafios exigidos na vida da empresa.
Mereci logo de seguida algumas perguntas de algibeira, como:
-Então e se precisar de ir a farmácia a meio da noite? ("de táxi" respondi eu) ou;
-E se um dia tiver família e tiver que levar os filhos à escola? ("vamos ver, posso mudar de opinião, no entanto há companhias que fazem esse serviço", respondi);
Após algum diálogo a tentar desfazer os meus argumentos quem me entrevistou apenas referiu no final: "Gosto de pessoas com convicções fortes e bom poder de argumentação!"
Não sei até hoje se fiquei mal visto ou não... a questão é que de facto é possível viver sem possuir carro. Não significa que nunca se use, e aliás, se todos pensassem em usar carro como excepção certamente as filas de trânsito não existiam. Não gosto quando me chamam fundamentalista, quando quem é verdadeiramente fundamentalista é quem tem de pegar no carro para fazer quaisquer 300 metros, para ir ao café ou ao pão.
O carro tem utilidade quando poucas pessoas o usam, se todos o usarmos diariamente ficaremos certamente parados e viveremos em cidades atrofiadas.