Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Acalmia de tráfego VI


Outra solução bem simples, barata e eficaz para reduzir as velocidades na cidade: eliminar linhas (a rua é de dois sentidos) e estreitar ruas. A ideia é a mesma do conceito de shared space (que vergonhosamente ainda não mereceu um post aqui no blog), que é a ausência de regras explícitas. Os condutores são forçados a todo o momento a prestar atenção, a negociar a sua presença, porque nunca é claro se estão a proceder de um modo seguro. Dito de outro modo, a enorme quantidade de linhas, semáforos, indicações, etc... nas nossas cidades cria uma falsa sensação de segurança e de exclusividade do espaço que cria a ideia que é perfeitamente seguro e aceitável andar depressa.
Na rua acima - rua importante num bairro residencial - um condutor nunca sabe se está no local certo, e ao cruzar outro veículo tem que ter cuidado devido à falta de espaço. Por outras palavras, alguém acha que conduziria a 70 como se conduz nas ruas semelhantes em Portugal?

Acalmia no Trânsito I
Acalmia no Trânsito II
Acalmia no Trânsito III e IV
Acalmia no Trânsito V

P.S. Relacionado com isto, uma reportagem da BBC sobre os efeitos nefastos dos semáforos (mais um exemplo de excesso de regulamentação do tráfego) encontrada pelo bananalogic. Na reportagem vemos um americano a comentar que nos manuais de planeamento de tráfego americanos os peões são definidos como "interrupções de fluxo"... Mais valia acabar com eles!

Adenda: outro exemplo da Holanda, roubado no Ciudad Ciclista, roubados por sua vez do El País. Antes e depois:

publicado por MC às 21:39
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Estádios: Chegado Por E-mail

"(...) Deixo-lhe aqui um email que acabei de enviar para o Governo Civil e para a C.M. De Lisboa, para fazer com ele o que quiser, até simplesmente apagá-lo se verificar que nada acrescenta, ou de que nada serve, e se assim o entender. É sobre o problema “ Estádios VS Viver perto deles em Lisboa (...)

D. A."

 

"Exmos. Senhores, venho por este meio, e na qualidade de residente de Telheiras, manifestar a minha indignação pelo que se passa neste bairro sempre que se realiza um jogo de futebol no estádio de Alvalade. É inadmissível que os moradores da rua Prof. Manuel Cavaleiro de Ferreira tenham de passar por cima do passeio para conseguirem estacionar os seu veículos nas respectivas garagens. É inadmissível que haja carros estacionados em cima de quase todos os passeios, danificando-os, e passadeiras não permitindo a sua utilização pela parte dos peões, gerando-se situações de extrema insegurança. É inadmissível que haja carros estacionados em cima de grande parte da ciclovia, nalguns casos cortanto o acesso à mesma e não permitindo a sua utilização. É inadmissível que haja carros estacionados em quase todos os espaços verdes desta zona, em cima de zonas de prado, que ficam obviamente danificadas. É inadmissível que, apesar de tudo o já descrevi, haja parques, como o parque subterrâneo da Praça Central e o enorme parque entre o Eixo NS e a Rua Prof. Mark Athias, estejam quase vazios na altura em que se realizam os jogos, já para não falar do parque do próprio Estádio de Alvalade. É inadmissível que as ruas circundantes ao estádio fiquem num estado deplorável, cheias de lixo. É inadmissível que se gerem situações como a que passo a descrever: Há uns tempos a minha mulher sentiu-se mal, metemo-nos no carro na garagem, demorámos quase 5 mnts, entre variadíssimas manobras, para conseguir sair da garagem. Seguimos até à Rua Prof. Francisco Lucas Pires e eis que nos deparamos com duas filas de trânsito paralelas, ambas no mesmo sentido embora a dita rua tenha dois. Eramos três carros a "remar" contra a maré de viaturas que tentava sair desta zona para a Segunda Circular. Fui agredido verbalmente por outros condutores, chamaram-me "Palhaço" entre outras coisas que prefiro não repetir, tudo porque eu não estava a facilitar a circulação dos carros cujos condutores vinham do estádio. Estivemos quase 30 mnts. nesta situação absurda. Resumo, quem reside nesta zona não tem literalmente forma de sair de carro daqui sempre que há um jogo, e pior que isso há pelos visto que fugir a conjugar a busca de tratamento para um qualquer mal estar físico com os início e final dos jogos em Alvalade. É Absurdo. Ou seja, quem aqui viva e que queira fazê-lo em segurança, precise ou busque apoio médico, queira utilizar a ciclovia ou simplesmente queira estacionar na sua propriedade ou junto da mesma, tem necessáriamente que conhecer o calendário de jogos do Sporting C.P independentemente de se gostar ou não de futebol ou do mesmo ter um nível de importância significativo na sua vida... Isto parece-me, no mínimo, absurdo, quase anedótico.
Ora, se eu me dirigir a um hospital e deixar a minha viatura mal estacionada sou multado e eventualmente é-me rebocada a viatura, regra estabelecida da qual sou a favor, no entanto se me dirigir a um qualquer estádio de futebol (pois o que descrevi não se passa apenas no estádio do Sporting) já não sou multado. O futebol justifica a falta de civismo? É inadmissível. Não estaremos perante uma nova forma de tirania?
Durante o Euro2004 o processo de entradas e saídas dos estádios correu bem, as pessoas deslocavam-se de transportes públicos para o estádio, e esta e outras zonas não ficavam entupidas de carros, agora voltou-se atrás? Na altura era literalmente para Inglês ver? Que se passa Srs. autarcas?
Ajudem-nos por favor.

Com os melhores cumprimentos
e desde já obrigado pela atenção

D.A.”


 


Adenda a 24jan por MC: A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou uma recomendação do PEV para resolver este problema que inclui a promoção dos transportes públicos para estas ocasiões e uma maior fiscalização do estacionamento ilegal.
(via Os Verdes em Lisboa)
publicado por António C. às 11:45

editado por MC em 24/01/2008 às 11:04
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Segunda-feira, 14 de Janeiro de 2008

A necessidade de parquímetros explicada a crianças

Mais um filme da StreetFilms que dá outro argumento para a existência de parquímetros nas cidades, neste caso o argumento da necessidade de haver uma grande rotação dos lugares de estacionamento para que não haja ainda mais congestionamento (e ruído e poluição) causado pelos carros à procura de estacionamento. Por sua vez isto ajuda as cargas e descargas e a acabar com segundas filas. E como todos os que andam de autocarro na cidade sabem, esta é também a principal razão pela qual o serviço não é melhor.
A receita é simples: um pequeno custo para poucos que traz ganhos a muitos... (mas como em tudo ligado à ditadura do automóvel o egoísmo impera o que não torna as coisas nada fáceis).

De São Francisco chega uma ideia relacionada bem engenhosa através do Carectomy (um engraçado título para um blog, que em português seria algo como carroctomia ou seja a remoção cirúrgica do automóvel): colocar os preços do estacionamento à superfície mais elevados do que os dos parques subterrâneos. Assim o primeiro reflexo dos automobilistas é estacionar nos parques, em vez de andar às voltas à procura de um lugar.

Ainda ligado a este problema, julgo ter sido esta razão pela qual se acabou em Lisboa com o estacionamento à superfície na Avenida Fontes Pereira de Melo: a enorme quantidade de carros que ou andava devagar ou fazia manobras para estacionar só atrapalhavam ainda mais os transportes públicos. Agora é só aumentar os anémicos passeios - onde eles ainda existem - e espalhar a ideia pelo resto das avenidas.

Adenda: (19 de Janeiro) Nem de propósito, numa conferência ontem no Porto foi dito exactamente o mesmo que aqui escrevi. 40% ou 50% do trânsito no centro das cidades é de condutores á procura de lugar para estacionar, e a melhor forma para resolver isto é aumentar os preços de estacionamento na rua ou pura e simplesmente acabar com o estacionamento.
publicado por MC às 16:58
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Domingo, 13 de Janeiro de 2008

Falsa liberdade do automóvel II

A ler este post do CarFree USA apercebi-me de uma coisa curiosa:

Já repararam que quando há um acidente de automóvel, os restantes veículos ficam por vezes impedidos de circular, e portanto presos durante horas e horas. E já repararam que quando um peão (ou uma bicicleta) tem um acidente isso nunca, mas mesmo nunca, acontece aos restantes peões (e bicicletas)?


Falsa liberdade do Automóvel I

Adenda (16 Janeiro): Não tive que esperar muito para um exemplo: A principal auto-estrada do país esteve hoje cortada durante 3 horas e meia. Um transporte de futuro...
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publicado por MC às 15:29
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Mais um homicídio e uma tentativa de um outro

Hoje no DN, no fundo de uma página, mais duas pequenas notícias a passarem despercebidas: uma mulher que foi morta por atropelamento ao passar a passadeira depois de sair do autocarro em Viana do Castelo, e outra que foi atirada para o hospital e está em perigo de vida porque atravessava outra passadeira em Rio Maior.
Como sempre a notícia (e o mal está na sociedade, não no DN) pouca referência faz aos homicidas.
Como sempre os casos são tratados como se de acidentes naturais se tratassem, ou seja obra do mero acaso e totalmente inevitáveis, e não como consequência da mais bárbara negligência humana.
Como sempre há um total inversão de valores no caso do homicídio de Viana do Castelo onde não se questiona o comportamento do homicida, mas sim a localização da paragem de autocarros! A culpa é quase atribuida a quem a pôs ali. Até pode ser que a localização seja má, mas a localização não mata ninguém, ao contrário de quem conduzia sem o mínimo cuidado.
E ainda temos que aturar com hipocrisias que referem a necessidade de educar os peões a usar a passadeira... A estas duas vítimas pouco serviu estar na passadeira, só não vê isso quem não quer ver.

Já agora, o primeiro caso é mais um excelente exemplo do quão importante pode ser a lei alemã (aqui referida) que obriga o trânsito a circular devagar junto a autocarros.
publicado por MC às 15:28
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Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Alegoria da caverna e os shoppings

Ao ler este comentário do yodleri, onde se associa a alegoria da caverna aos cidadãos que "crescem" dentro do automóvel, lembrei-me do A Caverna do Saramago onde pessoas que vivem fechadas voluntariamente dentro de um "centro" pagam num centro de diversões para experimentar o que é a chuva e o vento (simulados por máquinas).
Pois esta imagem sombria não é assim tão desfasada da actualidade. Já repararam na quantidade de shoppings, plazas e forums que tentam imitar os espaços comerciais tradicionais, isto é as lojinhas na rua? São os corredores que recebem nomes de ruas, é o chão que imita a calçada portuguesa, são as esplanadas em praças, são as plantas artificiais, são alguns cafés que até têm uma estrutura a imitar uma casa com um telhado feito com telhas de tijolo, etc...
E porquê? Porque o original já não existe. Porque a cidade não é um local agradável para ir às compras, para passear. As ruas comerciais são vias-rápidas com lojas laterais, cheias de fumo, barulho ensurdecedor e mil e um obstáculos (e até perigos) para o transeunte. Ir ver a montra do outro lado implica dar uma grande volta, com uma grande espera para atravessar pelo meio.
Hoje vive-se com esta realidade sem a nunca pôr em causa.

publicado por MC às 21:52
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A cidade dos peões

Num link deixado neste comentário do Mário, encontrei esta excelente figura:

As nossas cidades são exactamente isto para quem não se desloca exclusivamente de carro.
publicado por MC às 20:37
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Esta gente droga-se mesmo

O primeiro-ministro acaba de anunciar mais uma ponte rodoviária em Lisboa sobre o Tejo! Em 10 anos tivemos a ponte Vasco da Gama e a ponte a norte de Vila Franca de Xira, que pelos vistos não são "suficientes". Para que é que queremos mais automóveis a entrar na cidade? Porque é que demoramos tanto tempo a chegar a conclusões às quais já se chegou há décadas noutros países em termos de transportes, nomeadamente que os automóveis nas cidades não podem ser bem-vindos, muito menos convidados a entrar como agora é feito?
Há 15 anos quando foi lançada a Ponte Vasco da Gama fiquei totalmente surpreendido por esta não incluir ferrovia, mas para "compensar" rapidamente se falou em construir uma terceira só para a ferrovia.
Mas isso seria um sacrilégio, uma ponte SÓ para comboios? Tanto betão e fundos a serem desperdiçados não poderia ser. Toca a tornar a terceira travessia em ponte com ambas as valências.

Nem de propósito, uma amiga de Barcelona (reparem não é da Dinamarca ou da Alemanha) acabada de chegar ao Estoril vinda do Aeroporto  comentava - como primeiras impressões da cidade - as enormes velocidades nas auto-estradas urbanas e a enorme quantidade de trânsito nos arredores.
publicado por MC às 14:33
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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Zonas 30km/h, lombas e radares em Portugal

O JN noticia hoje que a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária defende a introdução em Portugal de zonas com velocidade máxima de 30km/h (o que já existe em quase todos os países da UE). O documento será ainda discutido com várias entidades, inclusive autarquias, mas isto é em si uma excelente notícia. Melhor ainda, defende que este limite seja posto em prática não apenas através da lei, mas de alterações nas vias (como lombas e semáforos). Uma das razões para avançar com esta política é, segundo a notícia, o facto de a sinistralidade dentro das cidades estar a descer bem mais lentamente que fora delas.
A mesma notícia avança que será instalado uma rede a nível nacional de radares de velocidade, que neste momento só existia em Lisboa e Porto e por iniciativa das câmaras.

Para ler mais:
Medidas "físicas" de acalmia no trânsito:
Acalmia no Trânsito I
Acalmia no Trânsito II
Acalmia no Trânsito III e IV
Acalmia no Trânsito V
(aparentemente acalmia de tráfego é a expressão técnica correcta)

Schritttempo na Alemanha
Obrigado Mário
publicado por MC às 10:58
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Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008

Desculpas

A RTP transmitia hoje de manhã uma reportagem sobre a utilização de segways em Lisboa. Um senhor de meia-idade que faz diariamente um percurso de alguns quilómetros na zona do Campo Pequeno dizia ao subir a "Avenida" João XXI (para quem não conhece é uma "avenida" com uma pequena colina pelo meio) que não poderia fazer aquele percurso de bicicleta porque subir aquele troço seria complicado.
Isto é um excelente exemplo daquilo que eu me queria referir aqui, quando escrevi que muita gente não quer ter a plasticidade mental para perceber que não há nenhuma ordem divina que nos obrigue a ir pelo caminho mais complicado. É que a duzentos metros tanto a Norte com a Sul da "avenida" em causa há alternativas praticamente planas ("Avenida" Sacadura Cabral a Norte e "Avenida" Elias Garcia + Bairro do Arco do Cego a Sul), e ele de certeza que conhecerá esses percursos.
Eu percebo que o senhor se queira auto-convencer (e provavelmente à mulher) que não tinha alternativas, mas ao menos que fosse honesto e dissesse que usa o segway "porque é giro".

P.S. Pela segunda vez num espaço de dias volto a ler/ouvir que o Segway não polui. Deve haver aqui algum fenómeno paranormal (ou para anormais como dizia o Herman) que me passa ao lado. Quando se fala em protocolo de Quioto, fala-se logo na produção de electricidade que tem uma grande fatia das emissões. Quando se fala em aumento do preço do petróleo fala-se logo no aumento da electricidade que provem em parte da queima deste. Quando se fala em cabos de alta tensão fala-se nos alegados impactos na saúde pública. Quando se fala em iluminação, defende-se o uso das lâmpadas para ajudar o ambiente. Fazem-se campanhas ambientalistas de redução do consumo de electricidade, de isolamento das habitações, etc... etc... Mas quando se chega aos transportes eléctricos, eles são sempre puros, ecológicos e amigos do ambiente por artes mágicas.
Também publicado no CidadaniaLx
publicado por MC às 10:08
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