Não tenho nada contra a tecnologia...
...mas ao ler acerca do novo projecto City Motion, albergando várias empresas de transporte público, centros de investigação universitários e as próprias autarquias de Lisboa e Porto não pude evitar algum cepticismo. Além disso, sei bem o resultado destes projectos mirabolantes e mui cooperantes. Estudei e trabalho numa faculdade com vários departamentos de transporte em que o campus é usado como estacionamento gratuito para alunos, professores e funcionários , apesar de estar rodeado por transportes públicos de qualidade.
A notícia do projecto também não é muito promissora, simplesmente porque o objectivo do projecto - mudar profundamente a mobilidade nas grandes cidades - parece advir de três factores:
1) articulação dos vários agentes interessados (a minha tradução para stakeholders)
2) fusão de dados e respectiva gestão numa plataforma logística digital em tempo real
3) usufruto dessa informação para o utilizador dos transportes públicos
O ponto 1) é desejável em qualquer projecto mas no caso dos problemas de mobilidade concretos que assolam Lisboa e Porto o ponto 2) e especialmente o 3) são inócuos. Poderão melhorar um pouco a mobilidade mas só o farão para quem já usa os transportes públicos. Não há nada no projecto que ataque o problema principal que é uso excessivo do automóvel nas cidades.
Ou seja, o projecto não é nada realista. Falha o alvo. Assume que qualquer utilizador de transportes públicos usará os resultados via telemóvel e atribui ao acesso à informação o ónus da mudança na mobilidade urbana. Não há nada no projecto que permita cativar utilizadores de viaturas particulares para as públicas e ignora a falta de sustentabilidade das empresas de transporte públicos, precisamente por estas ainda não captarem clientes suficientes.
Ninguém gosta de esmolar mas face a todos os incentivos concedidos pelos sucessivos governos à viatura particular, é claro que o resultado só poderia ser o prejuízo das empresas de transportes públicos.
