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Menos Um Carro

Blog da Mobilidade Sustentável. Pelo ambiente, pelas cidades, pelas pessoas

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E agora, para algo completamente diferente

TMC, 14.08.09

Caminhar também é moda longe da praia

 

Por razões de saúde ou simplesmente pelo convívio, são muitos os que saem de casa ao final do dia para caminhar nos centros das cidades. Em família ou com os vizinhos, andar a pé também é moda longe da praia e das marginais de rio.

 

A Avenida da Conduta, principal via que atravessa Gondomar, é exemplo daquela tendência. A partir das seis da tarde e até perto da meia-noite, sobretudo ao fim-de-semana e quando está bom tempo, vê-se muita gente a caminhar  à volta de cinco quilómetros. Mas os passeios estão cheios também nos dias úteis. Na Maia, a afluência é bem menor. Com o portão aberto até à meia-noite, os munícipes optam por andar à volta do Estádio Prof. Dr. José Vieira de Carvalho. O local é mais procurado ao final da tarde. Em Valongo, são cada vez mais os que vão caminhar ao fim do dia. Mas há quem prefira andar uns quilómetros logo pela manhã, antes do trabalho.  A zona dos Lagueirões é  a mais concorrida.

 

Andar é desporto para qualquer idade nos Lagueirões

 

Dos oito aos oitenta, o hábito de andar a pé não tem idade. Rosa de Jesus foi com a nora Maria dos Anjos e a neta Letícia caminhar entre os prédios, na zona dos Lagueirões. Por volta das oito e meia da noite, marcava passo num grupo de seis mulheres e meninas. Uma rotina que se repete há dois anos. Fazem uma hora de caminhada, todos os dias, "mesmo no Inverno", contou, ao JN. E "só se chover muito" é que ficam em casa. A nora não se fica por aquele grupo. Às 22 horas, volta a sair para o mesmo local para "andar a pé com duas colegas". O marido prefere caminhar "de manhã e sozinho", explicou Maria dos Anjos.

 

Eduardo Jorge, de 37 anos, também marca presença todos os dias, mas logo pela manhã. "Costumo vir às sete e meia, mas hoje deu-me mais jeito de noite", explicou, ao JN, prometendo que na manhã seguinte não ia faltar. "Sabe melhor, é mais fresco e não estou com o stress do trabalho", justificou. Corre sempre até às oito e meia, cerca de 10 quilómetros, toma banho e sai para o trabalho, que fica perto de casa. Acompanhado pela filha Ana Rita, de 13 anos, que estava de bicicleta, Eduardo trazia uma camisola da selecção portuguesa, mas garante que é "amador". O percurso, confessa, "é um bocado perigoso" por causa dos carros que passam, mas procura os locais com maior visibilidade.

 

Quarenta voltas ao estádio para fazer bem às pernas

 

António Alves, de 57 anos, também escolheu o estádio para caminhar com a mulher porque "faz bem as pernas". "Ele anda mais, cerca de 40 voltas", conta Joaquina. O casal garante que "está sempre muita gente a andar" ali. E há dias em que se juntam naquele espaço "40 ou 50 pessoas".

"Sou obrigado a andar pelo meu médico", contou, por sua vez, José Santos, de 61 anos, porque "parar é morrer". "Todos os dias ando a pé e só pego no carro quando é preciso", disse ao JN. Além disso, não gosta "de estar parado". Em sentido contrário, num passo mais acelerado, seguia Maria Fernanda, de 55 anos. Habitualmente, caminha durante cerca de uma hora. E não pára para conversar.

 

 

 

Passeio na Avenida da Conduta junta vizinhos

Todos os dias, o mesmo ritual: descer e tocar às campainhas dos vizinhos para ver quem se junta à caminhada, explicou Lurdes Madanços, de 45 anos. Num grupo de seis pessoas, constituído por casais e moradores do mesmo prédio, em Fânzeres, seguia ao longo da Avenida da Conduta.

Nesta via de Gondomar, há dias em que os caminheiros chegam às três centenas. Alguns fazem o percurso entre o centro do concelho e a freguesia de Rio Tinto, passando pela Vila de Fânzeres. Porém, se os calçadões atraem quem gosta de andar ou correr, por outro lado ouvem-se críticas ao mau estado do pavimento. Entre os largos passeios que foram sendo construídos na Avenida da Conduta existem muitas falhas. "Há pontos que nem sequer têm passeio", queixa-se Pedro Monteiro, de 33 anos. Até porque numa das bermas da via ele é inexistente. Por outro lado, os carros passam a alta velocidade e as pessoas criticam a retirada das lombas de desaceleração.

No "lado bom" da Avenida, David Silva, de 46 anos, e a esposa, Paula Duarte, de 42, empurravam o carrinho de Iris Filipa, de dois anos. Com Carolina e Leandro, cada um com quatro anos, Iris integrou esta família de acolhimento que passeava após o jantar. Fazem sempre o percurso entre a chamada fonte luminosa e a Rotunda da Carvalha. O Inverno não costuma ser obstáculo. Porém, quando está de serviço nos bombeiros, David falta à caminhada.

Quanto às razões que os levaram a fazer exercício, o marido explica que "tinha o colesterol muito alto e o médico mandou andar". Prefere andar de bicicleta e às vezes traz consigo a sua filha mais velha. Mas assim não pode fazer companhia à Paula que, por sua vez, tem indicação médica para caminhar no sentido de "perder alguns quilos".

 

A alguns metros de distância, estava um grupo entre os 14 e os 19 anos. Cristiano, César, Fávio e Márcio chegaram após as 22 horas. Mais dois amigos costumam juntar-se ao grupo mas estavam de férias. "Fica mais barato vir andar" do que o ginásio, explicou Márcio.

Paula Cruz, de 41 anos, diz que não tem tempo para ir ao ginásio "e são muitos caros". "Costumo vir andar para a Avenida da Conduta porque acho que me faz bem. Além disso, não faço mais nenhum desporto", justificou.

 

 

 

 

Comentário: não deixa de ser irónico que haja uma notícia que aborde uma actividade por demais natural ao ser humano. Além de estar deitado e sentado, o andar a pé é algo que é inerente a qualquer pessoa e que advém do facto de termos um corpo com duas pernas.

 

Porque há então uma notícia que aborda uma actividade tão natural como se fosse um novo fenómeno? As respostas estão na própria notícia e nos seus pressupostos:

 

1) andar a pé nos passeios e nas cidades não é normal porque...

2) ...as pessoas na cidade normalmente deslocam-se de automóvel;

3) se as pessoas realmente estão a andar a pé nas cidades e nos passeios ou é uma moda ou é para melhorarem a saúde por recomendação do médico ou é por factores económicos

 

São estes os efeitos deturpados que uma cultura do automóvel provoca: tem que haver uma razão para andar a pé; tem que haver uma explicação para uma deslocação que não é regra, que não é a deslocação motorizada. As próprias pessoas encontraram-nas e justificaram a sua actividade , a sua diferença, como se isso fosse necessário. Não me admira que um dia se chame ao andar a pé o footing e haja até passeios especiais para o fazer.

 

Não nos esqueçamos que pela etimologia, automóvel é qualquer móvel que se automobilize. As pessoas são automóveis!

 

E no entanto, é evidente que há algum prazer e convívio que esse desporto económico e salutar fornece. Ficar surpreendido é que é bizarro.

 

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