Por que razão os peões deve(ria)m desrespeitar as regras I
Tenho andado a acumular vários exemplos do modo discriminatório com que as regras de trânsito e o desenho urbano tratam os peões em comparação com os automóveis. A situação deveria ser exactamente a inversa por duas fortes razões.
1. Os peões (e quem anda de transportes públicos ou bicicleta) dão vida à cidade, tornam-na humana e segura, usam o comércio tradicional. Os automóveis fazem-na sombria e desumana, enchem-na de ruído e poluição, usam e abusam do espaço urbano público, causam sinistralidade, empurram a vida para as periferias, para os shoppings no meio do nada. Imagine-se só por momentos uma cidade onde todos andam a pé e de transportes, e outra onde todos andam de automóvel. Alguém tem dúvidas?
2. Os semáforos e outras regras de trânsito só existem porque há quem queira andar de automóvel, e esse trânsito precisa de ser regulado. Se toda a mobilidade fosse feita a pé de autocarro, haveria 20 vezes menos veículos a circular, o que dispensaria essa parafernália toda. Faz algum sentido as desvantagens das escolhas de uns, recaírem sobre os que não tomaram essas escolhas?
Enfim, o mundo não é perfeito. Ao menos pedia que as regras tratassem os peões e os automobilistas de igual para igual, mas isso está muito longe de acontecer... veja-se os próximos capítulos.
Quanto ao título... A ideia que quero passar é que exigir aos peões que respeitem as regras é o mesmo que exigir aos servos do senhor feudal que lhe continuem a dar metade da colheita em troca sabe-se lá do quê. Só uso o condicional, porque há uma possível consequência chata para os peões que não as respeitam, consequência esta que não existe nem de perto nem de longe para os automobilistas: passar o resto da vida numa cadeira-de-rodas ou ir ter com o jc mais cedo.
Tertúlia amanhã em Lisboa na esplanada da Fábrica de Braço de Prata, sobre "Opções de transporte em Lisboa" às 20h30 (logo a seguir à bicicletada), organizada pela Plataforma de Discussão e Intervenção Ambiental.
No dia 2 de Julho às 19h na sala Visconti da Fábrica Braço de Prata, será projectado o documentário "The End of Suburbia" seguido de debate.
