O Tiago Veras escreveu um texto ao presidente do Instituto Superior Técnico onde fundamenta e justifica a implementação de um sistema de estacionamento pago para o campus do Instituto. Com a devida autorização, publicamo-la aqui.
Nota: até à data não houve qualquer resposta.
Caro Prof. António Cruz Serra,
No seguimento da mensagem ‘Nota Informativa CG/33/2011 - Restrições orçamentais em 2012’, e no sentido de colaborar para a sustentabilidade financeira do nosso Instituto, sugiro que todo o estacionamento no interior do campus Alameda seja cobrado, à maneira do que é feito no estacionamento na via pública na envolvente deste campus.
Apresento de seguida um pequeno exercício de cálculo, para que se perceba melhor o potencial desta proposta.
Sublinho que o valor das receitas anuais corresponde à metade do esforço financeiro a ser empreendido pela nossa instituição.
Esta medida, ainda, teria custos de implantação nulos ou insignificantes, pois o acesso existente, através de cartão, identifica já o utilizador e os horários de entrada e saída. Bastaria, através de um programa informático simples, associar os cartões à respectiva despesa em estacionamento, podendo a cobrança ser feita, por exemplo, através de débito automático no vencimento (no caso dos professores).
Compreende-se que há direitos adquiridos, relativamente ao estacionamento neste campus, que seria difícil enfrentar. Entretanto, face ao esforço que será exigido a todos os utilizadores deste campus, penso que vale a pena considerar esta medida, mesmo que se tenha em conta, para cada quarto de hora ‘estacionado’, um valor mais baixo que o considerado neste exercício. A renúncia a serviços eventualmente mais indispensáveis, como a segurança e a limpeza, teria portanto uma menor expressão para todos os professores, alunos e funcionários do IST.
Com os melhores cumprimentos,
Tiago Veras
Quem duvidasse da força com que o automóvel está entranhado na psicologia de deslocações urbanas dos portugueses, é só ler esta notícia: cinco associações de estudantes e alunos convidam à rejeição do sistema de estacionamento pago anunciado pela UL. A radicalização (por vezes com promessas de violência física para com os parquímetros) das posições face ao que é falsamente percepcionado como um direito adquirido (o estacionamento gratuito) apenas demonstra a patologia que é acreditar que a cidade tem de albergar de qualquer maneira os automóveis e que estes são inócuos.
Façamos o seguinte exercício: se considerarmos que alguém só a assina uma petição se esta for contra o que é percepcionado como um estado justo de coisas (neste caso, estacionamento gratuito na alameda da UL), quando foi a última vez que pelo menos cinco associações de estudantes promoveram tão rapidamente uma petição para se pugnarem por um tal estado justo de coisas ? Não haverá causas sociais e potenciais alterações legais que merecem uma mobilização tão frequente e tão activa como esta? Haver há, mas não cativam nem invocam esta fúria e esta mobilização.
A conclusão é que a percepção dos direitos da entidade "condutor + carro" é mais cara ao condutor do que qualquer outra. E isso é perigoso.
O estacionamento gratuito na Alameda da Cidade Universitária acabou. A EMEL vai passar a geri-lo. Para lidar com tamnha perda, a empresa vai promover uma campanha de sensibilização dos condutores. Num comunicado, a UL anuncia:
Já neste texto abordei esta problemática: os campus universitários, face à enorme afluência dos seus funcionários, docentes e alunos geram quantidades significativas de tráfego automóvel, pelo que este deve ser evitado; a política de gestão do estacionamento destes campi deve fazer com que o acesso ao campus seja feito através de transportes públicos ou de bicicleta, já que estes se concentram no miolo da cidade, estando por isso servidos de bons acessos.
Na altura, e com o auxílio de mais interessados, criámos também um blogue com as críticas ao estacionamento no campus do IST e uma sugestão (da autoria de Tiago Veras) daquilo em que se poderia tornar uma morada mais agradável e mais humanizada caso não fosse concedido acesso quase gratuito aos automóveis; no minímo, defendia-se, igualar as tarifas dentro do campus com aquelas do exterior, evitando que o IST fosse um autêntico paraíso do estacionamento mesmo no centro da cidade.
Coincidência ou não, também ontem a UL, noutro comunicado, anunciou que tinha logrado angariar votos suficientes para o seu projecto 172 do Orçamento Participativo da CML; o objectivo é a requalificação da própria Alameda da Cidade Universitária. Parece-me óbvio que este objectivo de requalificação está relacionado com o fim do estacionamento gratuito.
Este blogue fez sugestões neste sentido há quase dois anos. Dois dos autores da proposta de requalificaçaõ do IST nem tinham acabado a sua licenciatura. E outros especialistas já terão feito propostas neste sentido há mais tempo. Qual é a surpresa?
O caderno "Cidades" do Público traz hoje uma série de artigos sobre a realidade da mobilidade no interior do país. Neste blogue abordamos com mais frequência as desvantagens da utilização massiva do automóvel em meio urbano e a série de políticas públicas que seguiram o seu paradigma, redundando na proliferação das auto-estradas e redução dos serviços prestados pelo transporte ferroviário.
O princípio chave que sustenta todas as sucessivas críticas é que o direito à mobilidade, consagrado na constituição portuguesa, seguiu a equivalência de um automóvel por cidadão; o pensamento é o seguinte: com um automóvel poderemos chegar a qualquer lado, desde que haja estradas e estacionamento. Ora, é uma solução redutora: além dos defeitos para que temos apontado de modo sistemático, esta solução pressupõe que todos os portugueses têm capacidade para o fazer (com ou sem recurso ao crédito) e que o devem fazer.
O automóvel é uma boa solução enquanto existirem certas condições que o satisfaçam: estradas, viagens semanais frequentes, estacionamento farto ou fiscalização reduzida e inexistência de impostos que internalizem todos os custos envolvidos no seu fabrico e uso generalizado. Se as últimas condições são políticas e financeiras, as primeiras coincidem com o ordenamento do território de meio urbano. Em meio rural, um automóvel como solução universal de mobilidade não pode vingar porque a sua compra não seria justificável, e assim o direito à mobilidade raramente é assegurado, pois qualquer rede de transportes públicos implica custos adicionais; carreiras vazias e com baixa frequência, já que as aldeias estão dispersas, fragmentadas, longes da capital de distrito onde existem os serviços de farmácias, as escolas, os hospitais. Nem falemos da cultura.
O que os artigos demonstram é precisamente a existência de dois países e de um paradoxo: o que pensamos ser um enorme problema no país de meio urbano dado o excesso de automóveis ou, posto por outras palavras, dado o excesso de democratização da viatura individual, é, no país do interior rural, um enorme problema dada a escassez dessa mesma democratização. Aconselha-se a leitura desta peça, que traça o panorama geral, (depressa porque estes artigos tendem a desaparecer) e a procura de soluções em Bragança, Beja e em Castela-Leão.
A mensagem é a seguinte: a mobilidade é um direito, tornando-se por isso uma questão social por excelência e o automóvel simplesmente não é capaz de suprir esse direito em todo o lado. O país urbano é prejudicado pelo excesso do seu uso e o país rural é prejudicado pela falta do seu uso. Enquanto eu, vivendo em Lisboa, não me sinto prejudicado (e não prejudicando ninguém) por não usar um carro no acesso aos serviços que melhoram a minha qualidade de vida, no interior teria de ter um carro para garantir esse mesmo acesso; a questão é que ninguém deve ser obrigado a ter carro, mas deve ter direito à mobilidade. São coisas diferentes.
A Câmara Municipal do Porto instalou um brinquedo inócuo que diz aos peões quanto tempo têm para não morrer atropelados. Aumentar o tempo de passagem nas passadeiras complica sempre as contas dos engenheiros de tráfego.
Perante o novo plano de austeridades, a Associação Académica da Universidade do Algarve bate-se pelos direitos dos seus alunos. Como? Mais estacionamento para os carros dos estudantes, ora pois. Ver aqui (foto tirada do Spectrum).
O panorama que este blogue tem traçado do país não é animador. Até parece que, para além das pessoas que nele colaboram e do punhado de leitores, há uma completa ignorância das medidas a tomar em termos de transportes em geral e contra o automóvel em particular.
Não é o caso. Existe em Portugal plena consciência dos problemas, desafios e medidas a tomar. Na nossa academia temos reputadas potestades em planeamento urbano, mobilidade sustentável, ordenamento do território; há doutoramentos em desenho urbano, car-pooling, biocombustíveis, optimização de frotas dos transportes públicos, etc.
Podemos dizer então o problema parece ser que esse conhecimento não escoa para a sociedade civil e para os decisores; ou que então o ritmo do escoamento é demasiado baixo ou que a complexidade do problema parece obviar qualquer resolução.
Eu por mim acho que falta qualquer coisinha, um je ne sais pas de quoi óbvio mas que é muito nosso, muito português e que nos tolda os olhos.
Alameda Universitária de Lisboa
Metro: Campo Grande, Cidade Universitária, Entrecampos
Autocarros: 21, 36, 31, 35, 44, 49, 64, 701, 738, 755, 768
Comboio: Estação de Entrecampos

(clique na opção Ver imagem do Firefox para ampliar)
A alameda relvada ainda escapou.

(clique na opção Ver imagem do Firefox para ampliar)
Na parte direita da fotografia havia uma escola chamada Cidade Universitária.
Instituto Superior Técnico
Metro: Alameda, Saldanha (três linhas)
Autocarros: 7, 10, 16, 17, 35, 36, 44, 83, 708, 718, 726, 727, 732, 738, 742

Gosto especialmente das marcas de estacionamento em cima dos passeios. Nas próprias barbas duma escola de suposta excelência em arquitectura, engenharia e ciências, os alunos habituam-se cedo aos grandes exemplos.

Funcionários, investigadores, professores e alunos finalistas têm direito a estacionamento gratuito.
O caso do Técnico é ainda mais flagrante porque está bem no centro da cidade. Qual é a legitimidade das próprias universidades apregoarem aquilo que não cumprem? Qual é o impacto na saúde, no trânsito e na cidade dos automóveis que estas universidades albergam? Quantos lugares ocupa ilegitimamente este saber?
A polémica também existe do outro lado do Atlântico. No excelente blogue urbanidades, ler a reacção de Moacir Pereira às implicações no tráfego da cidade da Universidade de Santa Catarina.
lisboa(214)
ambiente(202)
bicicleta(146)
cidades(110)
portugal(108)
peões(101)
sinistralidade(70)
estacionamento(64)
espaço público(55)
bicicultura(51)
economia(49)
comboio(48)
auto-estradas(41)
automóvel(38)
trânsito(31)
energia(30)
porto(27)
Blogs sobre mobilidade sustentável
Apocalipse Motorizado (Brasil)
Blogue colectivo da Massa Crítica
Planeta Bicicultura (agregador)
Por um mundo + seguro (Brasil)
100 dias de bicicleta em Lisboa
Páginas
Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados
BUTE (bicicletas p/ estudantes)
Ciclovia (lista das ciclovias em em Portugal)
Critical Mass (não oficial) #1
Critical Mass (não oficial) #2
Environmental Transportation Association (UK)
Fed. Port. de Ciclotur. e Utilizadores de Bicicleta
Itinerarium (transportes públicos do Porto)
Mário J Alves (página pessoal)
Massa Crítica/Bicicletada Portugal
Sociedade do Automóvel (documentário BR)
Transporlis (transportes públicos de Lisboa)
Outros blogs relacionados
Boleias (carpooling) e Alugueres Curtíssimos de Carro (carshare)
GalpShare (boleias)