Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010
Vigília pela Linha do Tua

Neste sábado dia 18 de Setembro de 2010, das 18h à meia-noite, o Largo Camões, em Lisboa, será palco de uma vigília pela Linha do Tua.

 

A iniciativa está aberta a todos os interessados na conservação desta linha ferroviária de via estreita que até há cerca de dois anos ligava o interior transmontano à Linha do Douro.

 

A intenção de trazer o protesto para os paços da capital foi promovida por várias organizações de cidadania da região de Trás-os-Montes e vem na sequência de vários acontecimentos deste último ano.

 

O filme Páre, Escute e Olhe contribuiu para a sensibilização acerca dos riscos associados à construção de um paredão anexo à região do Douro vinhateiro, património mundial da humanidade; a obra de Jorge Pelicano não pretendeu apenas ser uma resposta à cómica lavagem de imagem promovida pela EDP acerca das vantagens das barragens, como a activa conivência de orgãos informativos como a TSF ou de outros que, pura e simplesmente, negligenciaram através do silêncio novos desenvolvimentos do conflito entre os interesses das populações locais e a construção da barragem que acarreta o desaparecimento da linha. A construção da barragem de Foz Tua é algo dado como adquirido, os movimentos de contestação das populações locais e outros de cariz ambiental não são referidos e a imagem que prevalece é a de que a EDP e este governo estão no trilho certo no que concerne às metas das energias renováveis.

 

Entretanto, o colectivo GAIA tentou divulgar e promover o debate em torno da questão junto das populações das aldeias ribeirinhas. Segundo testemunhos presenciais, a percepção colectiva é a de que os impactes devido ao desaparecimento da linha seriam negativos; revolta e esquecimento eram também vocábulos que surgiam associados.

 

Outra boa notícia é a suspensão da construção e das obras de instalação da barragem de Foz Tua devido à possibilidade de classificação da Linha do Tua como património arquitectónico nacional; enquanto o processo de apreciação classificativo estiver a decorrer, o troço estará salvaguardado. Se o resultado do processo for o esperado, a barragem poderá ter de ser excluída, uma vez que a cota de preserevação da Linha do Tua seria tão baixa que os objectivos iniciais não teriam qualquer possibilidade de cumprimento.

 

Face ao que foi dito, considero que a vigília de sábado concentra características particulares que a destacam de muitas outras:

 

- é uma luta política, apartidária e sem qualquer apoio recorrente dos partidos políticos (se obviarmos Os Verdes);

- é uma luta pelo direito à mobilidade ferroviária que vai contra a tradição política que tem privilegiado os transportes e os acessos rodoviários;

- é uma luta que sublinha que os problemas de uma região (desertificação e interioridade) estão a ser mal geridos e até fomentados pelo centralismo político lisboeta;

- é uma luta contra o logro dos governantes, pela saúde do debate público e pela adesão aos factos;

- é uma luta que representa a distância entre os problemas reais das populações do interior e a consciencialização para esses problemas por parte dos políticos e da população do litoral

- é uma luta que pela dimensão mediática que tem (quase nula) e a que deveria ter aponta para o divórcio que existe entre duas portugalidades: a urbana/litoral e a rural/interior;

 

Trata-se de uma causa sobre um problema concreto - o hipotético desaparecimento de um meio de transporte ferroviário - para o qual poucas pessoas estão sensibilizadas. Atribuo isso à localização geográfica do problema: o interior português. Lá há pouca massa crítica, logo a partidirização e a mediatização desse problema não são tão relevantes e eficazes; o paradoxal é que a geografia, por vezes, não parece assim tão relevante: a recente ameaça de morte por lapidação de uma iraniana concentrou várias centenas de pessoas. Não estou a comparar a dimensão moral de uma morte por arremesso de pedras ao desaparecimento de uma linha de comboio, mas apenas a apontar que a indiferença ou a mobilização a uma causa parecem por vezes ultrapassar as distâncias geográficas.

 

A pergunta que fica é: porque é que existe essa indiferença para com a linha do Tua e para o interior em geral? Se a constituição portuguesa abrange todas as geografias, como é que se instalou no debate público uma afectividade próxima às causas de minorias discriminadas (pela classe, cor, raça, sexo) mas ao mesmo tempo os problemas das populações do interior não são parte dessa lista? Porquê tanto silêncio?

 

 



publicado por TMC às 13:57
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Sábado, 14 de Junho de 2008
O que o país precisa é de mais auto-estradas paralelas

O Governo lançou há dias mais uma auto-estrada, desta vez trata-se da conversão do IP4 de Amarante a Bragança em auto-estrada (a laranja no mapa, no seguimento da A4). Segundo o primeiro-ministro «estamos a dar a dar às pessoas de Trás-os-Montes as mesmas condições e as mesmas oportunidades que todo o território nacional que já tem auto-estradas», tratando-se por isso de «um acto de justiça e solidariedade».

O que Sócrates parece não saber é que Trás-os-Montes já tem duas auto-estradas! Uma (A7) que liga a região ao Grande Porto, Braga e Minho, e outra (A24) que a liga ao Centro e a Lisboa! Parece não saber que Chaves e Vila Real já estão "servidas" de auto-estradas, e que Mirandela, Macedo e Bragança são "servidas" pelo IP4, uma via-rápida sem cruzamentos de nível e com duas faixas em vários pontos.

A primeira fase, Amarante-Vila Real, implica a construção de um túnel (o maior túnel rodoviário da península, nisto somos sempre muita bons) que vai trazer mais trânsito para a Serra do Marão, uma zona verde frágil que deveria ser protegida. Trata-se aliás de construir, ao bom estilo português,  mais uma auto-estrada paralela a outra, neste caso à A7 que está a pouco mais de 20km a Norte. A brincadeira vai custar-nos 850 000 000 de euros mas, como sabemos, dinheiro para investimentos dignos desse nome, é coisa que não falta ao país.

 

A cereja no topo do bolo vem do Mário Lino que orgulhosamente refere "que desde 2005 foram lançados 1200 km de novas estradas, enquanto nos três anos anteriores foram apenas 360, o que significa que temos três vezes e meia mais".

 

Como sempre convido o primeiro-ministro a ir explicar aos irlandeses que eles, apesar de terem passado de país pobre ao um dos mais ricos do mundo, andam a tomar as decisões erradas em termos de desenvolvimento. Em vez de auto-estradas paralelas como nós, nem uma auto-estrada têm entre as duas maiores cidades...



publicado por MC às 16:35
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