Terça-feira, 12 de Janeiro de 2010
Mais demagogia

A diferença no afã de investimento público deste govern para os anteriores é a verborreia justificativa. Compreende-se, uma vez que mais auto-estradas e acessos tornam-se cada vez mais suspeitos num país habituado a projectos tão visionários.  De resto, todos os governos têm partilhado a mesma paixão pelo asfalto e a ilusão sinonímica entre "desenvolvimento" e "acessos". Falta-nos imaginação.

 

Começa-se a ler ingenuamente uma notícia com esperanças de uma visão nova para o interior e a sua desertificação e saem-nos pérolas destas:

 

[...]] toda a vida ter visto a região do Pinhal ser esquecida, fazer esta adjudicação significa que a minha vida política não foi em vão.

 

Parece portanto que o principal problema do Pinhal Interior é não ter acessos e ter sido, por isso, esquecido. A receita para o interior está dada: alarguem os IPs para auto-estradas e levem-nos  até às cidades do interior e para várias aldeias que o desenvolvimento chegará num ápice. Claro que isto também é uma coincidência e põe-me logo a pensar no que seria Portugal daqui a uns anos se um certo ministro das obras públicas tivesse ido para uma empresa como a CP ou a REFER em vez de ter aterrado numa empresa especializada em estradas e pontes. As nossas ligações ferroviárias definham, e claro que nem são consideradas como soluções.

 

É a fragilidade óbvia desta "solução" para o interior e a facilidade com que ela vinga que me assusta. Fico com a impressão que a sociedade portuguesa não é capaz de questionar estas escolhas de desenvolvimento para o seu território apesar delas cheirarem cada vez pior e serem cada vez mais mal desculpadas.

 


É um círculo vicioso: convidam, através do mercado imobiliário e acesso gratuitos, as pessoas a saírem de uma Lisboa cada vez mais desagradável; a circulação automóvel desenvolve-se e vem na sua maioria de concelhos límitrofes e aos poucos deixa de haver alguém para defender, enquanto afectado, a qualidade de vida de um certo bairro: boas iniciativas como esta vão voltar a esbarrar no que substituiu os habitantes de Lisboa.

 


A votação para o Orçamento Participativo da cidade de Lisboa acaba dia 15 e notou-se muita revolta contra o protagonismo do automóvel. Pessoalmente, fiz algumas propostas em torno da defesa do peão (o ano passado ganharam as bicicletas) e não queria por isso deixar de apelar ao voto numa delas e noutras que considero muito pertinentes:

 

1) Pedonalização da Rua Garret

2) Alargamento dos passeios da Rua do Arsenal

3) Descongestionamento da circulação pedonal no Chiado e Camões

 

Só há um voto. A escolha é vossa mas votem!

 

 



publicado por TMC às 20:49
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Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009
Só mais um carro

Continuando a ideia de identificação da posse de automóvel com a riqueza do comprador, eis que nos chega mais uma imagem "pensada" por alguém algures num certo departamento de marketing da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

Porque é a publicidade é importante? Decertp não é pelas cores ou pela sua contribuição para a economia (afinal nós precisamos mesmo de comprar tudo aquilo que ela nos recomenda, apesar de não o sabermos) mas porque assinala todas aquelas premissas e tendências não questionadas presentes na sociedade, que de tão tácitas correm sem qualquer crítica.

 

Ora, eu já noto uma mudança ligeira quanto ao uso do carro, pelo menos a nível dos discursos. A questão da extrema necessidade de ter um carro em meio urbano parece-me mais ou menos descontruída, ou em vias disso.

 

Bom, o irónico é a dita cuja estar num transporte público. Ei-la:

 

 

Como diz e bem o Miguel Cabeça, autor da foto:

 

Uma publicidade aos jogos da Santa Casa da Misericórdia em que aparece a palavra AUTOCARRO, e em cima do AUTO um bilhete da lotaria, deixando o resultado: CARRO :-) Mais um perpetuar da ideia de que os autocarros, bem como os transportes públicos são para adolescentes, velhos e pobres, e que o que é óptimo é ganhar a lotaria para poder comprar o carro e deixar de andar nestes transportes "degradantes". Eu até percebo a ideia de aproveitar o meio para adaptar a publicidade, como também sei que a publicidade não é da Carris, mas é nos autocarros da Carris que estão afixados. Tiro no pé?

 


A ver: o programa bioesfera centrou-se na qualidade do ambiente urbano. No começo do programa dá-se um grande destaque aos efeitos perniciosos do uso generalizado do automóvel nas cidades. Se há reconhecimento académico dos seus efeitos nocivos, porquê ainda o presente estado de coisas?

 


A FPCUB, em parceria com a Carris (a empresa que permite publicidade enganosa a automóveis enquanto adoptando o programa Menos Um Carro) desenvolveu uma proposta para acalmar o tráfego da capital. Daí resultou a Carta Ciclável de Lisboa. Podem sacá-la daqui.



publicado por TMC às 15:31
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
A poluição sonora automóvel mata

Esta notícia não merece ser atirada para o rodapé.


A recent Swedish study of 30,000 people in the province of Skåne has confirmed what many other studies have suggested. That the noise generated by traffic causes higher blood pressure and increases the risk of heart disease, strokes and blood clots.

"We have determined that at noise levels over 60 decibels there is a connection between high blood pressure in the young and the middle-aged and that it's an important risk factor in relation to heart disease and strokes"
, says Theo Bodin from the University Hospital in Lund.

 

Quem já passou por Amesterdão e Copenhaga, sabe bem como uma cidade pode ser tão diferente de Lisboa, Porto, Braga, etc. As cidades podem exister sem ruído.

 


Num documento da FPCUB como o Nuno Xavier - um leitor do Menos Um Carro - largou totalmente o automóvel e se tornou num ciclista urbano 100% convencido, via Vou de Bicicleta.



publicado por MC às 03:40
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Domingo, 8 de Março de 2009
Custo do ruído

O Tiago subestimou aqui a mania dos economistas de quantificarem tudo em termos de custos monetários.

O ruído automóvel, por exemplo, leva a inúmeros problemas de saúde física e psíquica (stress, dificuldade de concentração, insónias) etc. E pura e simplesmente diminui a nossa qualidade de vida, dentro e fora de casa.

Disto tudo que acabei de referir, eu sabia que havia vários estudos sobre o último de todos, a qualidade de vida dentro de casa. No estudo Modelling Environmental Influences on Property Prices in an Urban Environment da Univ de East Anglia e Univ College of London, foi quantificado quanto é que uma casa vale a menos devido ao ruído do trânsito, na zona de Glasgow. Concluiu-se que por cada 1dB de ruído a mais, que uma casa valia menos 1.07%.

Para ter uma ideia do que isto significa, 40dB é o ruído num bairro à noite, 50dB um escritório calmo, 60dB uma conversa, 70dB um automóvel a passar e 80 dB é trânsito intenso. Uma casa que custe 200 mil euros, mas que esteja numa zona onde o ruído é 20dB acima do normal, valerá menos 38 mil euros. O importante não é saber se o vendedor ou o comprador ficam a ganhar ou a perder dinheiro, o que interessa aqui é que quem vai comprar uma casa estaria disposto a pagar mais 38 mil euros pela mesmíssima casa, se ela não estivesse numa zona  ruidosa. E isto sim dá uma excelente ideia da qualidade de vida que perdemos por causa do trânsito automóvel. E estou a falar apenas de um único custo do ruído, como disse no início.

 


Cartoon sobre o greenwashing to Andy Singer roubado aqui:



publicado por MC às 20:27
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Segunda-feira, 26 de Maio de 2008
A Janela da Vizinha

Viver numa rua movimentada é estar condenado a sermos constantemente, 24h sobre 24h, a ser incomodados em casa sem o pedirmos. Um forte zumbido constante apimentado com agradáveis e frequentes buzinadelas (proibidas mas nunca penalizadas) e para os mais sortudos com uma buzinadela contínua de 5 minutos, quando alguém estacionou em segunda fila. É termos que aturar um barulho tremendo que não nos deixa descansar, ver a televisão sossegados e que causa em muitos problemas de concentração e ansiedade. A minha vizinha de baixo não se quis sujeitar a isto e teve que pagar 1400 euros para isolar minimamente o som com janelas duplas... apenas 3 salários mínimos. Agora multipliquem isto por todas as casas em todas as ruas movimentadas do país.

Estamos perante um caso em que a vítima é claramente quem acarreta com todas as consequências de um acto provocado por um anónimo, que passa totalmente incólume. É como ser obrigado a insonorizar a casa porque o vizinho organiza concertos às 3 da manhã, pagar o arranjo do  nosso carro quando estávamos parados e levámos com um outro em cima.

 

E aqui fica mais uma razão para portagens urbanas e parquímetros. Porque convidam a não usar o carro na cidade e permitem ao mesmo tempo que quem sofre seja indirectamente compensada, porque a câmara pode baixar outros impostos.

 


Notícia recomendada: a UE quer forçar a publicidade automóvel a ser mais explícita na informação sobre o consumo e as emissões de cada automóvel, e a usar slogans menos agressivos. Os Friends of the Earth alertam que desde 1999 que há uma directiva europeia que obriga a que esta informação esteja bem explícita (uma recomendação de 2007 aponta para 20% do espaço do anúncio), mas a indústria automóvel  voltou a desrespeitar mais esta norma. Esta associação tem uma campanha para denunciar este incumprimento (tendo já conseguido uma condenação na Bélgica), apelando a todos europeus que lhes enviem anúncios onde isto aconteça.

 



publicado por MC às 19:16
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Terça-feira, 4 de Março de 2008
Pequenos "efeitos colaterais" da ditadura do automóvel X
Noise from rail and road transport is linked to 50,000 fatal heart attacks every year and 200,000 cases of cardio-vascular disease in the EU, de acordo com um estudo da European Federation for Transport & Environment.
Uns 135 mortos por dia apenas devido ao ruído dos transportes!

The study estimates that the full costs to society, including costs to health services, of traffic noise pollution are at least EUR 40 billion per year.

Children exposed to high levels of traffic noise have been shown to suffer from difficulty concentrating; difficulty sustaining attention; difficulty remembering complex issues and poorer reading and general school performance. Costs to business include sick days and lower productivity of staff.

Outros posts sobre Pequenos "efeitos colaterais" da ditadura do automóvel


publicado por MC às 19:18
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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
Pequenos "efeitos colaterais" da ditadura do automóvel IV
Por que razão as pessoas que moram perto de uma rua, uma avenida, uma estrada, uma via-rápida ou uma auto-estrada movimentada - que devem ser muitas mesmo - não têm direito a dormir a partir das 7h00 da manhã, nem a descansar ao fim da tarde?

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publicado por MC às 20:41
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Quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007
Buzinão
Proibido buzinarUma das primeiras coisas que se nota mal se regressa a Portugal é a enorme barulheira das cidades. Não apenas pela quantidade de trânsito mas também pelo motor das motas alterado para assinalar a sua presença com 5 quarteirões de antecedência e principalmente pelo buzinar por-dá-cá-aquela-palha.
Em Portugal apita-se por tudo e por nada. Desde o "está verde há 1 segundo e ainda não te mexeste" ao mais simpático "passe, passe", passando pelo prolongado "estacionaste em 2ª fila e agora não consigo sair". O meu favorito vai para o automobilista numa interminável fila de trânsito, onde tudo está parado, que desata a buzinar incessantemente... até hoje ainda não percebi porquê.
Para lá do incómodo, stress e ansiedade causado a quem trabalha, estuda, dorme, descansa, circula etc... nessa rua que deveriam ser suficientes para pôr a mão na consciência - sou um sonhador! - dos condutores, buzinar também é proibido. Talvez seja óbvio mas duvido que as autoridades o saibam. Alguma vez viram um automobilista a ser autuado? Para que não fiquem dúvidas, cá fica a citação do código da estrada:

                                 Artigo 21.º
1 Os sinais sonoros devem ser breves.
2 Só é permitida a utilização de sinais sonoros:
  a)     Em caso de perigo iminente;
  b)     Fora das localidades, para prevenir um condutor da intenção de o
          ultrapassar e, bem assim, nas curvas, cruzamentos, entroncamentos e
          lombas de visibilidade reduzida.
7 Quem infringir o disposto nos n.ºs 1 e 2 é sancionado com coima de 60 a 300
  euros.



publicado por MC às 16:10
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