Apesar das últimas notícias falarem num aumento de 17,8% no programa de troca de veículos (alguém conhece outro bem de consumo onde o estado ajude a pagar por um novo?), o sector está chateado.
O governo vai alterar a fiscalidade automóvel para acabar com a dupla tributação, acabando com um imposto mas subindo outro na mesma proporção de modo a compensar (o próprio ACP diz que fica igual). O sector está chateado porque o governo não aproveitou a ocasião para baixar os impostos do sector e agora diz que "isso vai impedir a recuperação do sector". Mais uma vez, qual será o sector que não recuperaria se lhe cortassem impostos?
Adenda: a capa de hoje do DN diz em grande que o "orçamento agrava impostos sobre a compra de carros". Quando se lê o artigo, fica-se a saber que o tal aumento do ISV é de uns incríveis 1,7%, e isto nem são valores oficiais, mas de cálculos do sector automóvel. O lóbi não está só mal habituado como sabe fazer manchetes quando lhe dá jeito.
Segundo o Público, o aumento do ISV dá-se apenas nos dois piores escalões ambientais. Há ainda os incentivos fiscais para comprar carros eléctricos - aqueles incentivos que não se aplicam a veículos realmente ecológicos, como a bicicleta.
O NYTimes tem um artigo sobre Vauban, um bairro quase sem carros na Alemanha, sobre o qual o A Nossa Terrinha também já falou.
Pressionado há 10 anos pela UE devido aos elevadíssimos graus de poluição dentro das cidades portuguesas, foram finalmente publidados os planos de melhoria de qualidade do ar para Lisboa e Porto. Apesar de apenas 20% da poluição não vir do sector dos transportes, muitas das medidas não vão para os transportes mas para a indústria e habitação. Fala-se ainda em faixas bus, ciclovias, etc.mas aquilo que a imprensa mais destacou foi a criação de faixas específicas para carros com mais de 2 ou mais de 3 ocupantes nas entradas da cidade (a decisão está por tomar mas espero que não se caia no ridículo de considerar um carro com 2 ocupantes como um carro bastante ocupado!).
Acho que esta medida é positiva por ser um incentivo à diminuição do número de automóveis. Os impactes ambientais e mais importante ainda os não-ambientais do automóvel são obviamente menores se em vez de 1,4 pessoas por carro houver 3 por carro. Não chegará ao nível de um autocarro, mas já é algo.
Têm sido sugeridos com alguma insistência incentivos financeiros (além deste incentivo "espacial") para o carpooling em alguns comentários do blogue, pela própria Quercus, por essa blogoesfera fora e não só, nomeadamente ao nível de portagens actuais e nas futuras possíveis portagens urbanas. Quanto a isto... (vem aí sarcasmo) eu acho que deveria haver um incentivo proporcional ao número de pessoas no carro. Com duas pessoas, a portagem seria metade, com 3 um terço, com 4 um quarto, etc. Mas, isto já acontece! Quando a portagem é 5€ uma pessoa isolada num carro paga 5€, mas uma pessoa num carro cheio paga 1€. Quando um dos principais problemas nos transportes é o desfasamento entre o custo pago pelo automobilista e o custo real para a sociedade do uso do automóvel, não percebo como se pode sugerir que este desfasamento seja ainda maior do que já é.
E porque há algum tempo que não roubava fotos ao Passeio Livre, aqui ficam duas da Rua Brancaamp, bem no centro de Lisboa. Como é possível que isto seja aceite numa sociedade?


Queres andar a pé. Anda.
Queres andar de bicicleta? Compra e anda.
Queres andar de transportes públicos? O Estado paga uns euritos ao mês do teu passe e vais com sorte.
Queres andar de popó? Depois de descontos no IRS, ISP, 100% de desconto no IAutomóvel e IÚnico de Circulação, apoio à sua produção, incentivos extra no abatimento do carro anterior e IRC, o governo vai dar 5000€ a quem comprar um popó eléctrico! Eu e todos os outros que apenas usam as três primeiras opções, vão estar a oferecer uma batolada de dinheiro ao pessoal para andar de popó.
Que mentalidade saloia. Apoiar uma solução de mobilidade que poucas vantagens traz quando as soluções que já provaram resultados por essa Europa fora são abandonadas.
A ler: 101 atropelamentos nas passadeiras em Lisboa em apenas 4 meses no Observatório da Baixa. Será que a culpa é dos peões? Será que se fossem popós eléctricos não haveria atropelamentos?
A propósito da visita do primeiro ministro às obras dos IC16 e IC30 (mais duas auto-estradas para a região de Lisboa), temos umas declarações no mínimo engraçadas.
1. A propósito das críticas à construção de mais auto-estradas numa região que já é campeã em densidade de auto-estradas a nível europeu (e campeã a muitos pontos da segunda), o primeiro-ministro disse que as obras "nada têm de megalómano ou de faraónico".
2. DN: Segundo o Governo, a A16 vai permitir "a redução de emissões poluentes..."
3. A "Comissão para a Mobilidade Sustentável no Concelho de Sintra" (aquela que muda de nome conforme o vento, e cujos membros são todos do mesmo partido), diz "quanto mais rápido [acabarem a construção das auto-estradas] melhor". Queixa-se contudo das portagens, porque assim vai continuar a ser impossível andar na bisga na auto-estrada paralela, o IC19.
Não sei qual a mais parva. Triste ainda é ver os milhões que estão a ser enterrados ali.
A propósito de greenwash: um estudo técnico alemão torce o nariz aos benefícios ambientais dos carros eléctricos. (resumos em alemão e inglês, via)
1. O governo aumentou ontem a contribuição que todos nós oferecemos a quem já esteja farto do seu popó antigo e queira comprar um novo. Agora pode chegar ao 1800€.
Como já escrevi, defender isto sob o manto da protecção ambiental é gozar com a inteligência das pessoas. Notei agora mais duas incoerências: se a ideia é promover a compra de veículos menos poluidores (o que deveria ser feito por penalização dos mais poluidores, não por descontos pagos por todos) porque é que quem compra um carro pela primeira vez não tem direito a este benefício? Se a ideia é reduzir o consumo de combustível, porque é que o mesmo benefício não é dado à compra de carros em segunda mãos menos poluidores, mas apenas aos novos?
Veja-se isto por onde se veja, este programa do governo (que é coordenado pela UE mas decidido a nível local) é pura e simplesmente um enorme e inexplicável subsídio à indústria e ao comércio automóvel.
Sinceramente estou farto do meu portátil (isso sim, um instrumento de trabalho) e sinto-me discriminado pelo Estado não me ajudar a comprar um novo. Alguém percebe isto?
2. Há dias um representante do sector do comércio dizia que o sector estava mal porque não havia incentivos ao consumo! Mas haverá algum sector que não estivesse melhor se houvessem "incentivos ao consumo"?! Isto só prova que estão habituados a ter um tratamento especial.
3. Como antecipei na primeira posta, e já referi numa nota, a crise no sector automóvel já vinha de trás. A actual crise económica serviu apenas para atirar areia para os olhos das pessoas, quando se canalizam verbas públicas na Europa e EUA para a indústria automóvel.
4. A compra de automóveis segue um padrão de aquilo que em economia se chama procura elástica. Ao contrário da comida, onde o consumo é mais ou menos estável em bons e maus períodos económicos, as compras de automóveis variam muito com a conjuntura.
Isto é um fenómeno que a humanidade conhece há milénios. Os celeiros existem para armazenar cereais, já que a sua colheita varia muito de ano para ano. O mesmo se pode dizer de muitos sectores económicos que aprenderam a viver com essa flutuação (turismo, artigos de luxo, etc.). Muitos mas não todos, o sector automóvel, que também sabia que a coisa viria abaixo, é neste momento o único a contar com um celeiro chamado dinheiro dos contribuintes.
A ler: Mania das grandezas por José Saramago. Acho as conclusões do artigo a que ele se refere um bocado parvas (porquê 9 e não 5 ou 20?), mas isso não é o essencial.
Contra todos os discursos ambientais bonitos, contra a eficiência energética, contra a eficiência de mobilidade, contra a tendência mundial, Portugal investiu o ano passado 18 vezes mais em rodovia do que em ferrovia, noticia hoje o Público.
A parte mais divertida da notícia é quando nos apercebemos que parte do ridículo investimento em ferrovia é na realidade para passagens de nível! Ou seja para facilitar a rodovia e não a ferrovia. Só a própria ideia de serem os carris desviarem-se do alcatrão - e não o contrário - já é em si, ridícula. Mas é à REFER e não às Estradas de Portugal que cabe essa tarefa.
(O destaque do Público contem ainda um pequeno comentário sobre o facto da ferrovia ser constantemente questionada, mas o rodovia não, em que todo ele parece ser feito a partir de posts aqui do blogue... pessoalmente até ficaria contente se foi o caso).
Outra notícia a ler: a estação principal de comboios em Coimbra vai ser afastada (ainda) mais 500m do centro da cidade, para garantir que Portugal continua a ser uma aberração destacada em termos europeus em termos de afastar as gares das populações.
O José Sousa do Futuro Comprometido deixou aqui um link interessante sobre os supostos benefícios ambientais do apoio ao abate de automóveis antigos (no primeiro post mencionei que estes benefícios seriam ridículos mas sem os quantificar). Claro que estas contas são muito complicadas de fazer, mas as contas em cima do joelho dão sempre uma noção da grandeza do que está em causa:
Cars manufactured this year will put out an average of around 160g/km(7), which means a saving of 48g/km. This translates - with a mean annual driving distance of 16,500km(8) - into a cut of 792kg/car/year. Assuming that drivers are each paid £2000, that’s a cost of £2525 for every tonne of CO2 avoided, divided by the average age of the cars on the road - 4.9 years.
The management consultants McKinsey have calculated the costs of saving CO2 by other means(9). We could do it for £3.50 a tonne by investing in geothermal energy (...) switching from incandescent light bulbs to light-emitting diodes, for example, saves £80 for every tonne of CO2 you cut.
Repare-se no custo estupidamente alto do "benefício ambiental" no primeiro caso. E estas contas deixam de parte duas coisas importantes (que eu já tinha mencionado): os enormes custos ambientais do desmantelamento do carro antigo e da produção do novo, e o aumento de kms percorridos devido ao menor preço por km do carro novo. O próprio artigo diz à frente que 15% a 20% das emissões de automóvel advêm da sua produção! E o impacto ambiental da produção não se fica pelo CO2...
O meu conselho para os governos europeus apoiando esta patranha, chamem os bois pelo nome. Estes programas são pura e simplesmente uma gigantesca esmola de todos nós para quem já não gosta do seu carro antigo e para a indústria automóvel.
Petição a assinar aqui, pelo aumento da frequência dos comboios na linha de Sintra. Como todos sabemos a frequência é uma questão fulcral, especialmente para quem tem que fazer um transbordo. Mais informação e o anúncio de um debate sobre a mobilidade no concelho de Sintra no próximo sábado aqui.
Não sendo apoiante de nenhum dos dois partidos em causa, não posso deixar de notar a diferença de estilos. Enquanto este (BE) fala em mais comboios, uma suposta organização pela "mobilidade sustentável" no mesmo concelho apelava a mais estradas... para que os autocarros pudessem andar mais rápido. Pois.. talvez convençam alguém no programa de abate de veículos velhos.
Fui dar uma olhada às fotos de satélite da zona que tinha mencionado neste post antigo, e finalmente temos uma foto actualizada. Uma foto que nos encherá de orgulho por este mundo fora, duas bonitas alcatifas de alcatrão a ligar Porto a Lisboa, a menos de 500m uma da outra.
E porque nestas coisas da alcatifa quanto mais houver melhor (como sabemos a alcatifa é ao preço da uva mijona, não tem qualquer efeito secundário ambiental, nem promove mobilidades economica e energeticamente ineficientes), está aceso o debate sobre a localização da terceira alcatifa Lisboa-Porto. Apenas a 5km a sul do local da foto, há quem prefira colocar a terceira a 2km a oeste da primeira alcatifa, mas o governo está mais inclinado para os 3km.
Caros leitores, o que acham que fica mais agradável à vista?
Post recomendado no Bike-Sharing Blog: São Francisco (aquela cidade aos altos e baixos e das ruas inclinadas, que aparece nos filmes) vai lançar um programa experimental de bicicletas partilhadas. Já deveriam saber que as bicicletas só têm alguma utilidade em cidades totalmente planas.
Qual foi o país da UE qual foi ele, onde houve o maior aumento da rede de auto-estradas na década de 90?
Portugal!
Qual foi o país da UE qual foi ele, onde houve o maior diminuição da rede de ferrovia na década de 90?
Portugal!
Notícia recomendada: ainda insatisfeitos com o facto de Lisboa ser a região da UE com maior densidade de auto-estradas, o nosso Grande Líder e o seu ajudante Lino vão trazer uma nova dádiva ao povo sedente de alcatrão. Mais 70km de vias-rápidas vão chegar à zona da Margem Sul, trazendo "melhoria da qualidade de vida" e "dinamização económica". É desta que a península se vai desenvolver espectacularmente! Eu acredito.
Hip hip hurra!
Hip hip hurra!
A coisa andava aí a pairar, e hoje somos brindados com dois favorzecos das nossas autoridades para a indústria automóvel.
1. No meio de uma crise internacional - onde todos os sectores estão a passar por dificuldades - a indústria consegue mexer os cordelinhos nas altas esferas do poder, conseguindo milhões de ajuda para se safar da crise. O governo português (que não está só nesta questão) avança com um apoio de 900 000 000* de euros para a indústria, o equivalente a 5 ou 6 vezes o custo de um novo hospitaldistrital! Outra comparação, baixar o IVA de 21% para 20% custou apenas 600 milhões.
Se há razões económicas especiais para os governos apoiarem o sector bancário em tempos de crise (onde é fundamental que haja crédito e liquidez disponíveis) - e note-se que estes valores não se aproximam nem de perto nem de longe ao dinheiro gasto no apoio à banca - não há absolutamente razão nenhuma para apoiar a indústrta automóvel em detrimentos de outros sectores. Aliás, apoiar uma indústria que está na base de vários problemas mundiais actuais (crise energética, aquecimento global, guerras), parece-me um absurdo. A única razão que encontro para esta ajuda, é aquilo a em economia se designa tecnicamente por uma "ganda cunha".
P.S. Ainda bem que o Ministro Pinho afirma que a crise no sector automóvel português não é tão grave como no resto da Europa. Nem quero imaginar o que o governo teria feito se fosse da mesma gravidade... (obrigado Tiago)
*Com notícias que vieram entretanto a público, ficou-se a perceber que parte deste montante, mais exactamente 200 milhões, fazem parte de uma linha de crédito - logo não são "dados" à indústria. Apenas emprestados em condições especiais. É importante sublinhar a diferença, porque no caso da banca houve muito sensacionalismo na imprensa para empolar os gastos públicos.
2. Claro que dinheiro não chega. Os governos da UE voltaram a afrouxar as exigências ambientais à indústria automóvel. O limite dos 130g/km de CO2 que deveria ser cumprido em 2012, foi novamente chutado para 2015. Para enquadrar bem a questão, noto três coisas:
- a mesma indústria convenceu em 1998 as autoridades europeias que não seria necessária qualquer regulação ambiental, tendo-se na altura comprometido a baixar as emissões para 140g/km em 2008. O valor médio em 2005 era contudo de 159g/km! Como diz a BUND, organização ambientalista alemã, o "cumprido não é devido".
- em 2006 esteve para ser aprovada legislação a obrigar a indústria aos 120g/km em 2012, mas os cordelinhos de última hora conseguiram facilitar a coisa para os 130.
- esta semana, a Agência Ambiental Europeia veio dizer que a Europa não vai cumprir os limites estabelecidos na directiva de limites de emissões (estamos a falar de 4 poluentes diferentes!) devido... ao transporte rodoviário!
Uma boa notícia em Lisboa para compensar, o programa de bicicletas públicas/partilhadas que tinha sido chumbado pela maioria PSD na AML, foi hoje aprovada em reunião de vereadores - depois de algumas alterações ao seu financiamento.
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