Sábado, 23 de Julho de 2011
Comissão Europeia volta ao greenwash dos biocombustíveis

A Comissão Europeia, que quer que em 2020 os combustíveis tenham uma incorporação mínima de 10% de biocombustíveis (combustível produzidos a partir plantas), acedeu a algumas críticas que eram feitas a esta política, tendo redifinido o que considera ser um biocombustível

Uma das críticas prendia-se com o aumento da procura de cereais, que levou várias empresas agrícolas a ocupar florestas tropicais e terrenos ecologicamente sensíveis na América do Sul e na Ásia. Para evitar este problema, a CE exige agora que os cereais para os biocombustíveis provenham de terrenos que já eram agrícolas. Isto contudo não muda em nada o essencial: os biocombustíveis fazem concorrência aos alimentos na luta pelos recursos. Mesmo que as florestas não sejam destruídas para os combustíveis, sê-lo-ão para alimentação devido ao aumento de procura de espaços aráveis.

De qualquer modo, qualquer alteração legislativa nada faz para contornar os dois principais problemas desta aposta:

1. Os biocombustíveis chocam com a necessidade de recursos (terreno, mão-de-obra, água, etc.) para o cultivo de alimentos. O aumento do preço dos alimentos básicos que se tem observado nos últimos tempos, e que muitos têm atribuido ao crescimento dos biocombustíveis, não será mitigado pelas novas regras.

2. Os biocombustíveis servem para prolongar o modelo vigente de mobilidade. Uma mobilidade sustentável precisa de mais transportes públicos e menos de automóveis.

 

.........................................................

A Agência Europeia do Ambiente é muito clara num dos seus últimos relatórios: se a UE não vai cumprir os limites de emissões de óxidos de azoto (dos piores poluentes automóveis) e a culpa é dos automóveis. O relatório diz que o sector rodoviário não teve o comportamento que era esperado.



publicado por MC às 20:00
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Segunda-feira, 27 de Junho de 2011
Trabalho de casa

O NY Times tem um artigo dedicado à onda de políticas limitadoras de tráfego na Europa e a sua comparação com a realidade homóloga nos Estados Unidos da América. Os sublinhados são meus:

 

 

Europe Stifles Drivers in Favor of Alternatives

 

 

“In the United States, there has been much more of a tendency to adapt cities to accommodate driving,” said Peder Jensen, head of the Energy and Transport Group at the European Environment Agency. “Here there has been more movement to make cities more livable for people, to get cities relatively free of cars.

 

 

Europe’s cities generally have stronger incentives to act. Built for the most part before the advent of cars, their narrow roads are poor at handling heavy traffic. Public transportation is generally better in Europe than in the United States, and gas often costs over $8 a gallon, contributing to driving costs that are two to three times greater per mile than in the United States, Dr. Schipper said.

 

 

Michael Kodransky, global research manager at the Institute for Transportation and Development Policy in New York, which works with cities to reduce transport emissions, said that Europe was previously “on the same trajectory as the United States, with more people wanting to own more cars.” But in the past decade, there had been “a conscious shift in thinking, and firm policy,” he said. And it is having an effect.

 

 

Today 91 percent of the delegates to the Swiss Parliament take the tram to work.

 

 

European cities also realized they could not meet increasingly strict World Health Organization guidelines for fine-particulate air pollution if cars continued to reign.

 

 

“Parking is everywhere in the United States, but it’s disappearing from the urban space in Europe,” said Mr. Kodransky, whose recent report “Europe’s Parking U-Turn” surveys the shift. While Mayor Michael R. Bloomberg has generated controversy in New York by “pedestrianizing” a few areas like Times Square, many European cities have already closed vast areas to car traffic. Store owners in Zurich had worried that the closings would mean a drop in business, but that fear has proved unfounded, Mr. Fellmann said, because pedestrian traffic increased 30 to 40 percent where cars were banned.


 

 

Portugal está na Europa; a infra-estrutura das suas cidades foi construída antes do aparecimento do carro. Poderemos dizer por isso que em termos de tais políticas, Portugal segue a Europa e não os E.U.A. no destaque concedido ao carro nas suas cidades? Terão elas aceitação entre a população?

 

Ar poluído por ozono em três concelhos do distrito do Porto

Níveis de ozono em Lisboa ultrapassam limites mas as autoridades não emitiram nenhum alerta

 



publicado por TMC às 10:35
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Quarta-feira, 2 de Junho de 2010
Carros, as vacas sagradas das alterações climáticas

 

Fonte: AEA
A União Europeia há vários anos que tem política ativas na redução da emissão de gases do efeito de estufa. Foi a principal defensora do protocolo de Kyoto, onde se comprometeu (na altura a 15) a reduzir as suas emissões de 2008-2012 em 8% face a 1990. Como se vê na parte de cima do gráfico, a Europa reduziu 11% das suas emissões em 2008 face a 1990. Esta redução teve obviamente um custo, nova legislação, nova tecnologia, indústrias que tiveram de ser convertidas, novos hábitos, etc. De lembrar que a economia cresceu mais de 40% neste período, de modo que a redução de 11% é realmente um sucesso.
O transporte rodoviário é no meio disto tudo uma vaca sagrada na Europa. Este setor aumentou as suas emissões em 26%. Em 1990 era responsável por 12,8% do total, em 2008 por 18,2%. A UE ficou-se por meros objectivos de melhoria de eficiência (e mesmo estes foram sendo retirados por enorme pressão da indústria), nunca tendo havido a intenção de reduzir o transporte rodoviário. Bem pelo contrário, o apoio a construção de infra-estruturas rodoviárias continua a merecer milhões em apoios comunitários todos os dias.

 

 

E não, o carro eléctrico (mesmo com electrões provenientes somente! da energia eólica) não é uma solução para isto.

 

 


 

A comprar esta semana em Lisboa, a Time Out dedicada à bicicleta na cidade.



publicado por MC às 13:14
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Segunda-feira, 8 de Março de 2010
Boas notícias de Bruxelas

A Comissão Europeia está a considerar a um imposto sobre as emissões de carbono a nível dos 27.

Um dos problemas da implementação de impostos ambientais num país é a desvantagem económica que trazem em comparação com os países vizinhos. Uma fábrica situada na Finlândia, Suécia ou Dinamarca (os países que já têm impostos sobre o carbono) está em desvantagem com uma na Alemanha. Se este imposto for criado a nível comunitário, essas dificuldades desaparecem.

E porquê este imposto? Ele vai penalizar as pessoas/empresas que poluem mais beneficiando as que poluem menos (com a baixa de outros impostos). E não é só uma questão de justiça, mas de incentivo a um uso energético menos intensivo em carbono. Por exemplo, o transporte de mercadorias por ferrovia poderá passar a ser mais vantajoso em vários casos em comparação à rodovia.


Bruxelas pediu aos países europeus para acabar com os incentivos à troca de automóvel.

Vários países europeus, pressionados pelo lóbi automóvel, estiveram nos últimos tempos a pagar centenas de euros a quem quisesse trocar de carro. Esta medida travestida de medida verde (um greenwash estatal que o lóbi agradece) deverá acabar este ano, tal como outras medidas excecionais que apenas duraram nos anos mais duros da crise financeira.

 


E mais uma boa notícia. A Nicola (marca de café) colocou várias frases nos pacotinhos de açucar sobre o tema "Hoje é o dia".  Uma das escolhidas diz "um dia começo a ir para o trabalho de bicicleta". Todos os dias há milhares de pessoas a ler esta frasesinha enquanto bebe café. Para elas, espero que amanhã seja o dia.



publicado por MC às 23:49
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Terça-feira, 14 de Abril de 2009
Um americano sobre as cidades europeias

People still stroll in Europe. The older people often walk with their hands behind their backs, with one hand clasping the opposite wrist, in The European Dream, Jeremy Rifkin

 

As pessoas ainda passeiam a pé na Europa. Os idosos caminham muitas vezes com as mãos atrás das costas, com uma mão agarrando o pulso oposto.


Não há nada de especial em passear a pé, mas exactamente por isso é que sorri ao ler um americano a fazer este comentário sobre as nossas cidades. Nos EUA as  cidades são parques de estacionamento. Não há praças com velhotes a jogar à sueca, nem ruas pedonais com comércio local. É possível andar a pé sem nunca nos cruzarmos com outro peão.

Mais recentemente soube de empresas nos EUA que têm guarda-costas especialmente contratados para acompanhar os cidadãos estrangeiros a trabalhar lá temporariamente, quando eles têm o estranho hábito de ir dar uma volta a pé até a um supermercado, ao centro ou seja o que for. 


E como todo o mundo é composto de mudança, em Nova Iorque, umas das poucas "cidades europeias" nos EUA, o espaço urbano começa a ser devolvido às pessoas. Tenho que admitir que a esplanada não parece minimamente agradável para um europeu, mas a mudança é importante pelo próprio simbolismo da devolução. Falo de mais uma reportagem da StreetFilms.

 

Boa notícia em Lisboa, bem a propósito: o Largo de Camões volta a ter, mais de um século depois,  um quiosque com bebida e comida. Claro que é das zonas mais humanas da cidade, mas é sempre bom ver uma praça a ganhar ainda mais vida.



publicado por MC às 01:12
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
Alergia ao comboio II

O Manuel Margarido Tão mencionava aqui (segundo comentário) uma coisa simples mas curiosa, que eu nunca tinha pensado. O argumento mais banal contra a (re)construção de ferrovia para cidades e regiões mais "periféricas" em Portugal é a suposta falta de procura que o comboio teria. Mas quando o assunto é auto-estrada (já nem falo de simples IPs!!), por artes mágicas, este argumento já não se aplica. Bragança, ou outra qualquer cidade, passa de repente de aldeia perdida para uma metrópole ávida de alcatrão para crescer.

Há uns tempos dei-me ao trabalho de mostrar que, descontando a Bélgica, todos os países da Europa tinham cidades sem auto-estrada maiores que Beja ou Bragança. Ou seja, Portugal é um caso patológico ao estar alcatifado com auto-estradas.

Fazer o mesmo para o comboio dava muito trabalho, mas rapidamente se pode verificar quais as cidades dessa lista que têm comboio. Infelizmente, o resultado não me surpreendeu. Descontando duas (Stadskanaal e Ioannina) todas têm ferrovia. Mais uma vez, Portugal é um caso patológico: ao contrário da Europa é frequente as cidades terem auto-estrada mas não terem linha férrea.

 

E o mais grave é que ambas as patologias têm tendência a agravar-se, enterrando o país sempre mais e mais dinheiro no meio de transporte mais ineficiente em termos de espaço, sinistralidade, custo, ambiente e energia.

 


A ler no CarFree France: La crise automobile est structurelle, a defender uma ideia que eu tinha levantado neste post e na discussão sobre ele. Os problemas da indústria automóvel não são causados pela actual crise económica, mas já vêm de trás. Há portanto largos milhões do nosso bolso que estão a ser usados para remediar um problema que é inerente à indústria.



publicado por MC às 19:37
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Terça-feira, 15 de Abril de 2008
Mais carros e mais carros e mais carros
Um novo estudo da Cetelem apresenta estatísticas sobre a carro-dependência europeia. Infelizmente o estudo não está online, e só arranjei dados de uma notícia do Público.

Em 2012, Portugal deverá ter mais automóveis por habitante do que o Japão (...) Portugal terá 583 carros por cada mil habitantes, enquanto o Japão registará 525. Uma proporção que estava invertida em 2006, quando Portugal contava 516 e o Japão 521 (...) Portugal terá também, em 2012, mais (...) do que a Inglaterra e Irlanda do Norte, que, segundo as previsões, passarão de 556 para 555 unidades. Dentro de quatro anos, o nosso país terá ainda mais carros do que a Bélgica (547), mas os seus 583 exemplares por mil habitantes estão abaixo do calculado para outras nações que entraram neste estudo, como a Alemanha (590), Luxemburgo (690), Espanha (622), França (598) ou Itália (658).
(...)
Em média, as viaturas portuguesas foram das que mais circularam em 2006 (15.000 km), juntamente com as do Reino Unido (15.100 km) e as da Bélgica (14.950 km).

Os dados não coincidem com os do Eurostat, mas mais uma vez há duas conclusões a tirar:

Somos dos países europeus com mais automóveis por habitante (repare-se que a comparação acima é feita apenas com alguns dos mais ricos da Europa)
Somos dos países que mais usamos o automóvel


publicado por MC às 22:06
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Quarta-feira, 9 de Abril de 2008
Parabéns! Temos das melhores redes de auto-estradas na Europa!... mas para quê?
aqui tinha começado a fazer o exercício de verificar qual o país com melhor cobertura de auto-estradas. O que fiz foi procurar a maior cidade em cada país sem auto-estrada. Se todas as cidades com mais de 50 mil habitantes tiverem auto-estrada num país, e noutro só a partir dos 100 mil habitantes, acho que é razoável dizer que no primeiro a cobertura é melhor.

O resultado era o de esperar, Portugal é esta no Top! Para que não fiquem dúvidas:

Portugal: Beja é a maior sem auto-estrada e tem 28 mil habitantes
Espanha: Ciudad Real  não tem auto-estrada e tem 70 mil
França: Rodez 65
Itália: Siracusa 124
Escócia: Inverness 67
Inglaterra: Grimbsy 88
País de Gales: Wrexham 43
Alemanha: Coburg 42
Holanda: Stadskanaal 34
Suíça: Schaffhausen 34
Áustria: Steyr 39
Dinamarca: Holstebro 34
Suécia: Vaxjo 56
Grécia: Ioannina 70
Noruega, Irlanda e Finlândia nem uma rede de auto-estradas digna desse nome têm! Só na Bélgica - que têm a mesma população mas por ser pequena tem menos kms que nós - é que não arranjei nada. (Achei que nem valia a pena ver os países de leste).

O que é que a gente ganha com esta obsessão (além do record no Guiness?)
Como é que um país relativamente pobre gastou tantos milhões em alcatrão, quando há tanta coisa mais importante por fazer?
Onde é que está o tal "desenvolvimento" que as auto-estradas iriam trazer? Não há ponte ou auto-estradeca neste país que não "vá trazer desenvolvimento à região"... Alguém o viu?
Porque é que ao mesmo tempo que temos as melhores auto-estradas, temos a pior ferrovia que é bem mais eficaz, barata, verde, etc...? Porque é que o Estado promove descaradamente o meio de transporte mais ineficaz, perigoso e poluente?
Porque é tendo nós o problema de importarmos bem mais do que exportamos, insistimos em gastar mais e mais em petróleo que vem do exterior? E porque não poupamos esse dinheiro para coisas mais importantes?
Porque é que gastamos em alcatrão quando a tendência é a de deixar de apostar no automóvel há décadas nos outros países? Aliás tenho muitas dúvidas que algum país, que tivesse partido da nossa situação no início dos anos 80, alguma vez tivesse gasto tanto em auto-estrada, o que nos teria feito ganhar o campeonato das auto-estradas a 10 jornadas do fim.

Que venham mais pontes, viadutos, túneis! Ponte para as Berlengas, para as "desenvolver"! Um viaduto até à Torre na Serra da Estrela, que aquelas curvas são chatas! Auto-estrada para Canas de Senhorim, já!

Isto é uma patologia psiquiátrica colectiva, é o que é.


publicado por MC às 21:43
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007
Campeões do alcatrão
Quando escrevi este post, fiquei na dúvida sobre o melhor modo de comparar o número de quilómetros de vias-rápidas e auto-estradas entre países. Entretanto ocorreu-me comparar os quilómetros de ferrovia com os de rodovia em auto-estradas.
Infelizmente não me enganei nas expectativas, e lá estamos nós no pódio europeu.

Netherlands 1.11
Spain 1.4
Portugal 1.41
Luxembourg 1.87
Belgium 2.04
Denmark 2.21
Italy 2.51
Slovenia 2.58
France 2.82
Germany 2.99
Austria 3.39
Lithuania 4.25
Turkey 4.7
United Kingdom 4.72
Croatia 4.92
Greece 5.75
Sweden 6.21
Finland 8.96
Estonia 9.99
Ireland 10.9
Slovakia 11.68
Bulgaria 13.16
Hungary 14.67
Czech Republic 18.56
Poland 49.14
Romania 100.57
Número de quilómetros de comboio por cada quilómetro de auto-estrada/vias rápidas
(Islândia, Liechtenstein, Malta e Chipre não têm auto-estradas e/ou comboio
por razões óbvias, e não há dados para a Letónia)


Porque que raio é que estamos sempre no pódio nestes rankings?! (Não tenho resposta). Outros exemplos:
Carro-dependência
Posse de automóveis



publicado por MC às 23:39
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Quarta-feira, 11 de Julho de 2007
Menos Carros = Menos Pessoas? I
Este é para mim um post fundamental, por estar relacionado com o modo como queremos organizar as nossas cidades, e a nossa vida urbana. Quero também tentar contrariar uma ideia, que eu classifico de mito urbano, que tem sido badalado dia-sim, dia-sim, na comunicação social.

Em Portugal, especialmente agora com as eleições em Lisboa, sempre que se menciona alguma medida que possa restringir de algum modo a circulação automóvel no centro das cidades, sejam parquímetros, diminuição do estacionamento, faixas bus, sentidos proibidos, lombas ou até portagens urbanas, há logo alguém que alerta para os perigos desta alteração. Diz-se que lesa o comércio tradicional, afasta a classe media/alta da cidade, leva à saída das firmas e dos empregos para  a periferia, etc... Ainda anteontem no debate sobre Lisboa, foi dito várias vezes que não era verdade que a cidade precisasse de menos automóveis. A argumentação é simples: dificultando o acesso, as pessoas e as identidades a pouco e pouco optam por se deslocar para locais onde esse acesso não esteja dificultado.

Bom eu poderia desde já argumentar, que menos trânsito torna uma zona mais agradável, atraindo por isso moradores e peões, e por consequência comércio.

Mas em vez de discutir em abstracto temos a sorte de poder comparar o que acontece na realidade, o sonho de qualquer cientista social, que ao contrário da maioria dos cientistas naturais, não pode realizar experiências. Podemos comparar o que acontece nos EUA e na Europa.

(Bem sei que há diferenças culturais, históricas, geográficas, etc... mas acho que isto não explica a diferença).

Nos EUA as avenidas são larguíssimas, há enormes parques de estacionamento em todos os recantos das cidades. Na Europa há enormes áreas de ruas fechadas ao trânsito, outras só para transportes públicos, as ruas são mais estreitas, há pouco estacionamento, o uso do automóvel é desincentivado, há portagens para entrar em cidades, há lombas nas ruas, não há um único local nos centros sem parquímetros, etc...  Nos EUA menos de 10% da população urbana usa o transporte público, enquanto na Europa 40% a 50% a isso é forçada.

Todos concordarão que a diferença é abismal. Mais, esta diferença não é de hoje, mas de há décadas. Tratatam-se portanto de modos opostos de pensar as cidades.

Quanto às consequências. Na Europa os centros das cidades são animadíssimos, com comércio tradicional em todos os recantos (ao contrário dos EUA onde predomina o comércio em grandes superfícies fora da cidade), há muitos peões (nos EUA há por vezes ruas sem passeio e sem peões mesmo nas cidades), as casas no centro da cidade são muito caras sendo por isso habitadas pela classe média/alta enquanto os subúrbios servem para os menos abastados (nos EUA viver nos subúrbios significa ser rico - basta a ver a conotação de suburban nas séries americanas).

Temos portanto umas 100 grandes cidades no mundo ocidental rico que podemos usar na nossa análise, e quase todas (ou todas) mostram exactamente o contrário das acusações feitas em cima à restrição da circulação automóvel, seja em termos de comércio/ empregos/ firmas, seja em termos da classe média/alta serem expulsos das cidades.


publicado por MC às 11:35
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