O NY Times tem um artigo dedicado à onda de políticas limitadoras de tráfego na Europa e a sua comparação com a realidade homóloga nos Estados Unidos da América. Os sublinhados são meus:
Europe Stifles Drivers in Favor of Alternatives
“In the United States, there has been much more of a tendency to adapt cities to accommodate driving,” said Peder Jensen, head of the Energy and Transport Group at the European Environment Agency. “Here there has been more movement to make cities more livable for people, to get cities relatively free of cars.”
Europe’s cities generally have stronger incentives to act. Built for the most part before the advent of cars, their narrow roads are poor at handling heavy traffic. Public transportation is generally better in Europe than in the United States, and gas often costs over $8 a gallon, contributing to driving costs that are two to three times greater per mile than in the United States, Dr. Schipper said.
Michael Kodransky, global research manager at the Institute for Transportation and Development Policy in New York, which works with cities to reduce transport emissions, said that Europe was previously “on the same trajectory as the United States, with more people wanting to own more cars.” But in the past decade, there had been “a conscious shift in thinking, and firm policy,” he said. And it is having an effect.
Today 91 percent of the delegates to the Swiss Parliament take the tram to work.
European cities also realized they could not meet increasingly strict World Health Organization guidelines for fine-particulate air pollution if cars continued to reign.
“Parking is everywhere in the United States, but it’s disappearing from the urban space in Europe,” said Mr. Kodransky, whose recent report “Europe’s Parking U-Turn” surveys the shift. While Mayor Michael R. Bloomberg has generated controversy in New York by “pedestrianizing” a few areas like Times Square, many European cities have already closed vast areas to car traffic. Store owners in Zurich had worried that the closings would mean a drop in business, but that fear has proved unfounded, Mr. Fellmann said, because pedestrian traffic increased 30 to 40 percent where cars were banned.
Portugal está na Europa; a infra-estrutura das suas cidades foi construída antes do aparecimento do carro. Poderemos dizer por isso que em termos de tais políticas, Portugal segue a Europa e não os E.U.A. no destaque concedido ao carro nas suas cidades? Terão elas aceitação entre a população?
Qualquer produto que exista no mercado está sempre sujeito às seguintes fases do ciclo de vida do produto. Desde a fase de desenvolvimento à fase de declínio o percurso passa sempre por estas 4 fases representadas na figura.

Obviamente que o tempo correspondente a cada uma destas fases varia de produto para produto sendo que o maior exemplo para a fase de maturidade mais curta seguindo uma fase de grande crescimento é o Tamagotchi . Mas de resto essa foi uma excepção que quase ninguém se recorda. Um produto que vendeu imenso e numa questão de meses saíu do mercado, podendo apenas ser agora uma raridade escondida numa qualquer loja de artigos chineses para os mais saudosistas.
Numa aula de empreendorismo e inovação em 2008, falava-se deste ciclo dos produtos e um professor, referiu que uma excepção a este ciclo seria o da Indústria automóvel, porque uma vez atingida a fase de maturidade, esta se iria prolongar indefinidamente e não era prevísível a entrada na fase de declínio.
Na altura comentei que se o andar a pé ou transporte público de qualidade em massa viesse a ser visto como fonte de bem estar pelas pessoas então o automóvel também teria o seu declínio como qualquer outro produto.
Ora que nos chegam agora notícias, que na maior sociedade automobilizada do mundo, apenas num ano o parque automóvel diminuiu em 4 milhões de unidades.

Este valor representa apenas 1,6% de diminuição do parque automóvel, mas mesmo assim mostra que foram enviados para abate 14 milhões de automóveis e "apenas" foram comprados 10 milhões.
Podemos estar assim a assistir ao declínio do produto que o tal professor afirmava ter uma fase de maturidade contínua e prolongada no tempo. É óbvio que se podem atribuir estes valores à crise internacional que se viveu em 2009, mas será também interessante perceber se a Indústria terá capacidade para criar um novo ciclo, nomeadamente com a implementação dos carros eléctricos. Carros estes, que para já, do ponto de vista funcional não terão tantas "supostas" vantagens como os veículos a combustão.
Ou seja, estarão os consumidores prontos para gastar dinheiro num produto que tem uma cápsula igual, mas que não lhes garante, nem o status, nem a utilidade dos carros de outrora?
Esperemos que estes indicadores sejam o indício de uma tendência e que mais notícias como esta de aposta em transportes colectivos nos cheguem do outro lado do atlântico.
Por fim, agradeço ao nosso leitor e amigo CM que nos enviou estes links e me inspirou para este artigo.
People still stroll in Europe. The older people often walk with their hands behind their backs, with one hand clasping the opposite wrist, in The European Dream, Jeremy Rifkin
As pessoas ainda passeiam a pé na Europa. Os idosos caminham muitas vezes com as mãos atrás das costas, com uma mão agarrando o pulso oposto.
Não há nada de especial em passear a pé, mas exactamente por isso é que sorri ao ler um americano a fazer este comentário sobre as nossas cidades. Nos EUA as cidades são parques de estacionamento. Não há praças com velhotes a jogar à sueca, nem ruas pedonais com comércio local. É possível andar a pé sem nunca nos cruzarmos com outro peão.
Mais recentemente soube de empresas nos EUA que têm guarda-costas especialmente contratados para acompanhar os cidadãos estrangeiros a trabalhar lá temporariamente, quando eles têm o estranho hábito de ir dar uma volta a pé até a um supermercado, ao centro ou seja o que for.
E como todo o mundo é composto de mudança, em Nova Iorque, umas das poucas "cidades europeias" nos EUA, o espaço urbano começa a ser devolvido às pessoas. Tenho que admitir que a esplanada não parece minimamente agradável para um europeu, mas a mudança é importante pelo próprio simbolismo da devolução. Falo de mais uma reportagem da StreetFilms.
Boa notícia em Lisboa, bem a propósito: o Largo de Camões volta a ter, mais de um século depois, um quiosque com bebida e comida. Claro que é das zonas mais humanas da cidade, mas é sempre bom ver uma praça a ganhar ainda mais vida.
No dia de mais um record no preço do crude, fiquei a saber de mais algumas boas notícias causada por este aumento.
1. Diz a SIC que a Carris sente mais passageiros desde o ano passado... Até ver uma boa análise dos números, eu desconfio sempre, mas diria que é verdade.
2. Leio no Carfree Times 50 - jornal online que recomendo muito - que o preços das casas nos subúrbios americanos têm caído a pique chegando aos 18%, especialmente nas zonas sem transportes públicos. Isto quer dizer que os americanos preferem agora arranjar casas mais centrais e casas com fácil acesso a transportes devido ao aumento do combustível, que por lá é bem maior. Ou seja começaram a tomar atitudes mais racionais morando mais perto do trabalho em detrimento dos arredores, andando mais de transportes do que anteriormente. Assim reduz-se o congestionamento, o stress, a sinistralidade, a poluição, a "necessidade" de fazer mais e mais auto-estradas, aumenta-se o número de pessoas nos transportes o que permite baixar os seus preços, etc...
Peço desculpa por me repetir, mas é exactamente por isto que defendo portagens, parquímetros e afins. Quando alguém toma uma decisão tem que ter noção dos custos reais dela. Os americanos que dantes queriam morar longe, já têm essa noção.
Antes:

e depois:

A Central Freeway de São Francisco antes

e depois:

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