Esta ideia que a mobilidade a eletricidade é algo do futuro choca com esta importante infeméride: foi há 110 anos que circulou o primeiro elétrico em Lisboa.
Uma ideia que era do futuro, e ainda é hoje, é ter a mobilidade urbana baseada em transportes públicos.
Infelizmente, hoje e contrariando a Europa mais desenvolvida, é visto entre nós como algo do passado.
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E para nos lembrar que o carro é um meio de transporte ineficiente na cidade onde o espaço é limitado, há sempre estes belos parques de bicicletas para mostrar o exagerado espaço que o carro ocupa:

Fica o facto: os jovens portugueses são os que compram mais carros novos entre os congéneres europeus. De acordo com as palavras da comentadora, há contudo duas questões que me parecem equivocadas:
1- os jovens portugueses não aderem mais ao carro apenas porque não existe uma rede mais densa e eficiente de transportes. Faltam mais restrições à procura, como maiores taxas de fiscalização do estacionamento. Que nenhum condutor se queixe disto: se meteram voluntariamente o pescoço na corda sujeitaram-se aos apetites do verdugo. Comprar um carro é ficar com menos liberdade.
2- associar carros híbridos e eléctricos à ecologia e à protecção da natureza é uma frase várias vezes repetida mas sem fundamento. Funciona para quaisquer duas fontes de poluição distintas: uma será sempre preferível à outra porque polui menos, mas não se torna verde apenas porque não polui tanto como a outra. A discussão mais relevante é acerca da necessidade de se continuar a manter na sociedade qualquer uma das fontes de poluição, não deve ser acerca da obrigatoriedade de escolher entre ambas.
O nosso texto "O comércio e a rua" foi nomeada para os "Green Blogger Awards". É ir votar :) Se ganharmos prometemos investir na biblioteca de mobilidade sustentável para continuarmos a tentar apresentar textos de qualidade. Como o blogue A Nossa Terrinha.
O Economist tem um artigo sobre um perigo escondido das lâmpadas mais eficientes, que é resumido no subtítulo: Tornar a iluminação mais eficiente pode aumentar o uso de energia, em vez de diminuir. O próprio título declara com um trocadilho Uma ideia não tão brilhante.
A história em causa, atestada por um artigo científico, é simples. Quanto mais barato for um produto, mais consumimos dele. E ter uma lâmpada economizadora é equivalente a pagar menos pela eletricidade. Ora se por um lado cada lâmpada gasta menos, por outro ao termos eletricidade mais barata vamos usar mais lâmpadas e por mais tempo. Esta segunda consequência, este tiro pela culatra, é chamado rebound effect e pode até ser maior que o primeiro efeito, o da poupança. O artigo em causa diz que esse deverá ser infelizmente o caso com as lâmpadas economizadoras, ou seja lâmpadas mais eficientes levam paradoxalmente a mais consumo no total.
Os carros elétricos não são diferentes. As contas rápidas que fiz aqui apontam no mesmo sentido, o carro elétrico (cujo o uso é mais barato que o convencional) poderá causar um aumento das emissões de CO2. E nem me vou referir às externalidades não-ambientais como congestionamento, sinistralidade, etc. porque o aumento dessas está garantido.
Se a ideia de mais eficiência equivaler a mais consumo parecer estranha, imagine-se o contrário: o que aconteceria se os carros gastassem 1000 l/km, ou seja fossem altamente ineficientes? Ninguém andaria de carro! Conclusão menos eficiência=menos consumo.
Pior, os carros elétricos têm duas agravantes em relação à lâmpada.
Primeiro, o que se passa com o carro é pior que um rebound effect. A lâmpada economizadora torna-se mais barata porque é mais eficiente, utiliza menos recursos para o mesmo efeito. Mas o carro elétrico torna-se mais barato não só por ser mais eficiente em termos de recursos, mas principalmente por passar de um combustível fiscalmente muito penalizado para outro que é subsidiado. Para quem anda de carro, os ganhos ao km em euros, serão bem maiores que os ganho em eficiência. Os efeitos poderão ser bem piores que o efeito da lâmpada.
Há ainda outro efeito menor, através do chamado efeito rendimento. Como os combustíveis levam uma parte significativa dos orçamentos familiares, ter combustíveis baratos não só leva a mais consumo pelo preço baixo, mas leva também as famílias a terem um orçamento mais desafogado, logo a consumir mais de tudo - inclusivé viagens de automóvel.
Tendo o tema da dívida pública como pano de fundo, aconselho a leitura de uma série de postas no A Nossa Terrinha sobre os nossos gastos megalómanos em alcatrão:
Os campeões das auto-estradas (1)
Os campeões das auto-estradas (2)
Os campeões das auto-estradas (3)
Os campeões das auto-estradas (4)
Os campeões das auto-estradas (5)
Este vídeo da Euronews é mais um doirar da pílula ao carro elétrico.
1. Primeiro, um comentário mais geral às reportagens sobre carros elétricos. Por que raio é que associam estes carros às energias renováveis e vice-versa?! Por que não associamos outros objectos elétricos à energia eólica e solar, tal como os elétricos e os trolleys das nossas cidades (esses sim, amigos do ambiente), o ar condicionado, a lâmpada incandescente, o frigorífico ou a televisão em stand-by, deixando assim os combustíveis fósseis para o carro elétrico?
2. A reportagem aborda um sistema que torna a rede elétrica interativa, onde o preço varie durante o dia, e cada utente possa programar o seu carro eléctrico para ser carregado num período mais barato. Sendo que a produção e o consumo de eletricidade são muito irregulares, este é um processo imporante para aproveitar a eletricidade nos momentos onde há excesso de produção (e ela é vendida mais barata).
Esta é uma ideia boa, mas que mais uma vez já existe (com horário fixo em Portugal, e até com horário irregular em alguns países - mas de um modo pouco otimizado) e não se percebe porque vem associado ao automóvel. Termoacumuladores (para aquecer a casa ou a água), máquinas de lavar roupa ou loiça, bombagem de água, etc. são tudo aparelhos que também podem ser ligados a horas irregulares, mas não aparecem na televisão associados a projectos "verdes".
3. A reportagem diz ainda que o carro também pode ser utilizado para revender eletricidade à rede. Carregar e descarregar baterias é um processo muito ineficiente, mas a certa hora a procura da eletricidade pode ser tanta, que pode ser vantajoso ter o carro a devolver eletricidade à rede elétrica. Se a ideia é tão extraordinária, não se percebe por que é que então isto não é já feito pelas empresas elétricas e por quem faz micro-geração. Tendo baterias especialmente construídas para esta tarefa, seria muito mais eficientes e rentável.
Esta é a imagem que a autarquia de Lisboa tem afixado em vários pontos da cidade, assinalando a semana de mobilidade. Não quero discutir a ideia de que a semana da mobilidade serve como uma semana de excepção ou de propaganda que posteriormente a própria autarquia não cumpre.
Haverá alguma coisa de errado na imagem?
Talvez a figura do transporte de crianças devesse ser um transporte público. Mas nem é por aí. Sem querer ser mais papista que o papa, a questão da imagem poder transmitir uma mensagem errada do que deve ser a aposta na mobilidade nas cidades relaciona-se com a presença do carro eléctrico na imagem (identificável através de uma enorme tomada). Substituir 10% do parque automóvel comum de Lisboa por automóveis eléctricos resolveria alguns problemas de mobilidade, mas não todos. Isto, por exemplo, continuaria a acontecer. Porque a mobilidade não é só uma questão de racionalizar o uso para a melhoria do ambiente; é também uma racionalização do espaço, e nisso o automóvel eléctrico continuará a ser tão desajeitado como o automóvel com motor de combustão. Confundir que a mobilidade sustentável é apenas ambiente poderá inclusivé levar a um sobrestímulo da compra de automóveis eléctricos que tornaria a mobilidade em Lisboa pior do que antes. Pode gerar-se uma febre que ponha em risco a aposta na mudança modal para transportes públicos e modos suaves.
O Liberation levanta várias dúvidas sobre os benefícios do carro elétrico, a propósito do Salão Automóvel de Francoforte. As emissões de CO2 são semelhantes ao carro com motor de combustão (dado o mix energético europeu), as baterias são muito caras, e há falta de matéria prima para as produzir.
Na Suiça, onde as multas de trânsito dependem da riqueza de cada um, há quem corra o risco de pagar 800 mil euros por excesso de velocidade.
O Ma Fyn Bach apanhou um artigo científico de saúde pública, onde se defende que as desvantagens do uso do capacete na bicicleta são 20 vezes piores que os benefícios. A ideia já a mencionei, obrigar ao uso do capacete passa a ideia que a bicicleta é perigosa, desincentivando fortemente o seu uso e os seus benefícios para a saúde pública.
O Greg Mankiw recomenda um artigo de Holman Jenkins onde se explica porque é que o aumento dos combustíveis é uma medida mais sensata e eficaz do que regulamentar a eficiência ambiental do automóvel.
Petição a assinar: Aumento de corredores BUS em Lisboa
A propósito da discussão sobre o uso de electricidade de fonte renovável há uma falácia que é irritantemente repetida.
Quando se diz que 40% da energia usada por um automóvel eléctrico é de fonte renovável, está implícito que esses 40% não têm impacto ambiental (admitindo por momentos que as renováveis não têm impacto ambiental, não sendo por isso indesejáveis). Este raciocínio só faz sentido quando é impossível evitar o uso desta electricidade. Na realidade é necessário pensar naquilo que em economia se chama o custo de oportunidade, ou seja é necessário comparar com as alternativas. Se a deslocação de automóvel nem fosse feita ou fosse feita de modos energeticamente mais eficientes, esses 40% de poderiam ser usados para reduzir a produção a partir de fontes não-renováveis. Quando um carro eléctrico consome 1 kWh, esse kWh vem assim a 100% de energias não-renováveis (90% dele se pensarmos que a deslocação seria feita de transporte público).
Por exemplo, se todos formos de Lisboa ao Porto de carro eléctrico cada um consume 100 de electricidade, 60 virão da carvão/petróleo e 40 virão de hídricas/eólicas. Dito deste modo, parece que apenas os 60 são negativos ambientalmente. Na realidade se fóssemos de comboio apenas teríamos gasto 10 de electricidade, menos 90 do que com o carro. A produção eléctrica nacional poderia ser baixada em 90. E onde iríamos baixar? Não nas renováveis, mas nas poluentes. Ao optarmos pelo comboio e não pelo carro, estaríamos a poupar 90 de electricidade não-renovável e não apenas 60.
Cartoon apanhado na mailing-list da World Carfree Network:
A Agência Ambiental Europeia publicou uma análise a vários estudos sobre automóveis eléctricos (resumo aqui). Dados importantes:
Entre 1990 e 2006 o sector dos transportes na UE aumentou as suas emissões de Gases de Efeito de Estufa em 35,8%, enquanto todos os outros sectores desceram -13,4% em média. 61% do aumento deveu-se à rodovia.
Para o mix energético europeu, o carro eléctrico representa uma poupança de 50% a 65% nas emissões de CO2 por km, havendo mais previsões para o lado dos 50%. É sempre importante lembrar que com preços mais baixos por km haverá um aumento da distância percorrida, e logo a poupança será menor.
O documento é muito interessante para quem tiver paciência, eu voltarei a ele nos próximos posts.
A ler no Velo Mondial: a introdução de Zonas 30 na Inglaterra levou a uma redução de 41,9% no número de vítimas de acidentes rodoviários.
A propósito do último Post do MC e porque uma imagem pode valer mais que muitas palavras deixo este simples Cartoon que mostra como os Carros Eléctricos não são movidos a energia Limpa!

Já aqui alertei para o perigo dos carros eléctricos poderem provocar um aumento das emissões de CO2 devido ao paradoxo de Jevons. Este paradoxo diz-nos que quando temos um ganho de eficiência na utilização de um recurso - neste caso quantidade de energia por cada km - podemos ter uma situação onde gastamos mais desse recurso do que inicialmente. Ou seja, tendo um carro mais eficiente e mais barato por km, acabaremos por o utilizar mais., e isto pode anular totalmente os ganhos iniciais.
Lembrei-me desta tema porque esta semana surgiram notícias a alertar para o perigo dos carros eléctricos estarem sujeitos a menos regulamentação ambiental, o que poderia também levar a um aumento das emissões do CO2.
Mas voltando ao Jevons, façamos umas contas. Segundo a Visão da semana passada, um km num eléctrico é 10 vezes mais barato que num convencial, mas eu vou tomar esta estimativa mais conservadora, 3 vezes. A elasticidade do consumo de combustíveis em relação ao preço é no longo prazo de -0,9, logo esta diferença de preço implica 2,7 vezes mais km percorridos. Segundo esta estimativa a poupança de CO2 por km anda nos 30%, e por isso a mudança de um carro convencional para um eléctrico mantendo-se a situação fiscal actual, causaria um aumento das emissões de CO2 na ordem dos 90%!
Claro que são contas feitas em cima do joelho* mas elas mostram o perigo de introduzir um paradigma - que é à partida melhor - sem penalizarmos devidamente o seu uso em termos de preço.
Adenda: Kenneth Small e Erik Verhoef no The Economics of Urban Transportation fazem notar que a maior parte da variação de longo prazo do consumo de combustível advem da troca de veículos (mais eficientes se a gasolina sobe, mais SUVs se a gasolina desce), e não tanto da distância percorrida. A elasticidade face ao custo por km (mais apropriada neste caso, já que já estamos a tomar em conta com a mudança do automóvel) é geralmente de -0,3. Com este valor, a distância percorrida aumentaria 40% devido ao preço menor do carro eléctrico. Estes 40% ainda estão acima da poupança em CO2, logo ainda temos um aumento das emissões.
* Assumir uma elasticidade constante é um pouco abusivo - embora continue a haver um aumento das emissões se usarmos as estimativas mais conservadoras para a elasticidade de longo prazo. Outra questão que ignorei: o combustível não é o único custo por km mas por acaso a maioria dos automobilistas comportam-se como se fosse).
Uma excelente posta a não perder no Passeio Livre, centros históricos turísticos com ou sem carros. Quantas receitas do turismo não estaremos a perder por as nossas aldeias históricas serem assim

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