Sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

A mobilidade sustentável na reforma da fiscalidade verde (actualizado)

Depois de uma primeira proposta, de contributos públicos, chega agora a proposta final para a reforma da fiscalidade verde. Passar da teoria à prática dependerá do governo e do parlamento, mas analisemos o que há para já.

 

1. Criação de vales de transportes públicos colectivos

A ideia é igual aos vales de refeição que são comuns em muitas empresas. É um pagamento extra que a empresa pode escolher dar aos trabalhadores, mas que não é consideranto rendimento, logo não é taxado em sede de IRS. Outro propósito destes vales é permitir que uma deslocação de trabalho feita em transportes públicos, também possa descontada no IRC. (Na realidade, estas duas isenções já existem para passes sociais - mas há imensas deslocações feitas sem ser com passes sociais.)

Esta é uma excelente medida, que vai corrigir alguma penalização que havia ao transporte público.

Adenda: Foi tudo por água abaixo... os vales foram cancelados.

 

2. Componente sobre emissões no Imposto sobre Veículos sobe 3%

O imposto pago na compra de um automóvel já dependia há uns anos do seu nível de emissões. Mas como as tabelas já eram antigas, hoje em dia 92% dos carros vendidos estava nos escalões mais baixo,os valores a pagar deverão subir 3%.

Uma boa medida.

 

3. Isenções várias para carros eléctricos, híbridos, GPL e gás natural.

Seja isenções na compra, na reparação, há uma lista grande de descontos fiscais para este tipo de automóveis.

Um automóvel tem muitos impactos negativos para lá das suas emissões (e estes automóveis também poluem bastante), de modo que estas medidas vão na linha do nosso namoro habitual com o automóvel. Inventamos "carros verdes" para achar que estamos a fazer algo, mas estamos a fazer muito pouco.

 

4.  Incentivo ao abate de carros antigos

Como já tinha referido, vem aí de novo um apoio financeiro para quem quer comprar carro. Continuo a discordar da medida, mas parece que a comissão leu o meu post e decidiu seguir o exemplo de Bruxelas: quem abater o seu automóvel, em vez de receber apoio para um carro novo, pode receber 2000€ nos vales de transporte público. É um passo na direção correcta, mas é ainda errado. Quem optar por ir de boleia, ir de bicicleta, ir a pé, quem morar em zonas sem transportes públicos, quem mudar de casa para mais perto do emprego, etc. continua a ser prejudicado em comparação com quem quer um carro novo.

Curiosamente, a comissão ainda tem a lata de afirmar que este programa não tem custos, e até pode trazer mais receita ao Estado! Então dar descontos até 3500€ nos impostos pode aumentar a receita?

Adenda: O que apareceu na imprensa era contraditório. Afinal, o incentivo ao abate será apenas para quem comprar carros eléctricos e híbridos plug-in, sendo que ambos têm quotas irrisórias no mercado nacional.

 

5. Compra de bicicletas por empresas para uso do pessoal passa a estar isenta de impostos

Uma medida simbólica, provavelmente com pouco impacto, mas positiva.

 

6. Reparação de bicicletas com IVA reduzido

Como a própria comissão diz, não se pode ir mais longe, por exemplo baixando o IVA da venda, porque segundo a lei comunitária a venda não pode ter uma IVA reduzido. Pouco impacto, mas positiva por ser simbólica.

 

7. Incentivos fiscais para recurso a serviços de car-sharing por empresas

Pouco impacto, mas positiva por ser simbólica.

 

 

A comissão faz ainda algumas recomendações generalistas ao governo. Ou seja são medidas para o governo pensar, mas que dificilmente serão concretizadas no imediato.

 

1. Criação de uma taxa de congestionamento e qualidade do ar nas grandes cidades e aprofundamento da tributação do sistema rodoviário com base na quilometragem percorrida

Mais uma referência às portagens urbanas. Como escrevi no Facebook estas referências são importantes, porque água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Fala-se ainda numa ideia, já discutida na Holanda e Finlândia, de taxar o uso do automóvel ao km. Isso permitiria fazer portagens mais justas, tratando de maneira diferente quem faz apenas 2km na cidade, de quem faz 100km.

 

2. Oferecer estacionamento aos empregados deve ser tratado como rendimento

A proposta que mais gostei de ler, por ser invulgar falar nela. Tal como escrevi há dois anos, o estacionamento "grátis" dado pelas empresas/lojas aos seus empregadores/consumidores que chegam de automóvel, é tudo menos grátis porque há sempre um custo. Na prática trata-se de um subsídio pago por quem vai de transportes/bicicleta/pé a quem anda de carro. Se as empresas/lojas deixassem de o fazer gratuitamente, poderiam subir os salários a todos os funcionários/baixar os preços a todos os consumidores! Quem fica a perder na actual situação é que não usa o carro. Por isso, um lugar de estacionamento, deve ser considerado e taxado como um rendimento extra.

 

3. Acabar com tratamento especial ao gasóleo

Historicamente o gasóleo tem sido muito beneficiado em relação à gasolina em Portugal. Há outros exemplos, mas o mais óbvio é o facto do ISP do gasóleo ser mais baixo. Isso faz com que, enquanto a gasolina é 1 cêntimo mais barata em Portugal do que na média europeia, o  gasóleo está 9 cêntimos abaixo!

O uso do gasóleo emite poluentes gravemente prejudiciais à saúde, que a gasolina não emite. Por isso, esta discriminação positiva deve acabar.

 

4. Criação de um subsídio, não tributado em IRS, às deslocações de trabalhadores por conta de outrem em velocípede

Pouco impacto, mas positiva por ser simbólica.

publicado por MC às 18:47
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2 comentários:
De André a 26 de Setembro de 2014 às 10:24
Concordo plenamente com o post, mas nas recomendações há uma proposta que deixa a desejar (não pela ideia, que é ótima, mas pelo seu potencial de concretização prático): a taxa de congestionamento no interior das cidades.
A ideia é excelente e tem todo o meu apoio, mas tem uma falha logística grave que este governo até agora não se mostrou interessado em resolver (apenas em agravar ainda mais): a baixa qualidade dos transportes públicos, aliada a uma possível privatização (que olhando para os casos das empresas privadas fornecedoras de serviços públicos na área metropolitana de Lisboa fará descer ainda mais a qualidade dos transportes).
Por exemplo no metro a situação é a seguinte, cada vez há um maior espaçamento entre metros (chegando aos nove minutos entre comboio, fora das horas de ponta), o que provoca situações cada vez mais frequentes de "sardinha em lata". Assim, as pessoas optam muitas vezes (por razões práticas) por andar de carro. Ao introduzirmos um novo imposto para os carros, sendo um bilhete de metro 1,40€ (com a fraca qualidade), muita gente continuará a optar pelo carro. A isto juntam-se todas as pessoas residentes fora de Lisboa que utilizam empresas privadas para chegar à cidade (o caso de quem vive em Mafra, que tem de pagar um passe de 150€ mensais. Com uma fraca qualidade tanto do metro como dos autocarros, as pessoas optarão sempre pelo conforto do veículo pessoal, mesmo que esse seja 100€ mais caro. A única forma de inverter essa situação é aumentar a frequência dos transportes públicos (o metro de cinco em cinco minutos, por exemplo) e mesmo autocarros mais frequentes e com horários mais alargados nas empresas privadas (que, no caso da Mafrense, terminam pouco antes da meia-noite, fazendo com que para se ir ao teatro se tenha de levar o carro, ou impedindo o acesso aos transportes públicos a quem trabalha por turnos, que por vezes até têm salários mais baixos). Claro que a resolução destas situações implicaria investimento por parte das autoridades centrais e assumir que os transportes públicos não podem ser geridos por privados, algo que nunca será assumido e fará que as portagens nas cidades, a serem aplicadas, sejam infrutíferas por serem apenas tentativas de soluções incompletas.
De João Pimentel Ferreira a 1 de Fevereiro de 2015 às 10:57
Para o ministério do ambiente é-se mais amigo do ambiente usar carro elétrico do que usar transportes públicos, o que é totalmente falso. Quero mesmo frisar que os transportes coletivos de passageiros, mesmo o autocarro convencional, são muito mais amigos do ambiente que qualquer carro elétrico.

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