Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Distrações

Hoje de manhã, ao atravessar uma rua, por muito pouco não fui atropelado por um automobilista. Eu ia a pé e tinha verde, ele que virava tinha um amarelo intermitente... mas "distraiu-se". Nem pediu desculpa. Eu já contava com a "distração", mas se não contasse poderia ter ido desta para melhor. Por "distração" do automobilista.
Na situação inversa, se um peão "distraído" atravessar quando está verde para o automobilista, também é o peão que vai desta para melhor.


Não querer perceber esta assimetria, e pôr em pé de igualdade as "distrações" de uns e outros, é criminoso.


Repito aqui uma imagem antiga.Um peão, que apesar de ter verde, pára, olha para verificar que não vem nenhum automóvel, e só depois avança. Basta passar uns segundos num cruzamento para ver peões a ter este comportamento. Poderíamos passar anos no mesmo cruzamento, e não veríamos um automobilista perante um verde a parar, verificar que não vêm peões, e a avançar depois. Apontar o dedo à "distração" dos peões como causa de atropelamentos é criminoso.



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Vídeo recomendado de hoje,um vídeo do Passeio Livre sobre O automóvel sagrado e o estacionamento ilegal.




publicado por MC às 10:54
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Terça-feira, 27 de Novembro de 2012

Auto-estradas? Somos os campeões em qualquer estatística

Portugal não tem só a região com mais auto-estradas da Europa, o maior aumento de km de auto-estradas na Europa, a rede de auto-estradas que mais cobre cidades pequenas em toda a Europa, auto-estradas paralelas tão próximas que dá para acenar aos automobilistas na auto-estrada ao lado, etc. há muita outra coisa da qual nos podemos orgulhar.

Talvez soubessem que a maior ponte rodoviária na Europa é em Portugal, a Ponte Vasco da Gama. Mas certamente não sabiam que a segunda maior na Europa, também é em Portugal, a ponte das Lezírias. O resto do TOP10 tem algumas pontes dinamarqueses, suecas e holandesas (países com muitas ilhas como é sabido) e mais uma portuguesa, a Ponte Salgueiro Maia.

 

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Para inspiração deixo (mais) um artigo do NYTimes sobre o famoso viaduto (e auto-estrada) de Cheonggyecheon no centro de Seul, que foi pura e simplesmente desmantelado há anos, e não consta que se tenham arrependido disso.

publicado por MC às 12:38
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Fietsstraten

Fietsstraat é, traduzido à letra, uma rua de bicicletas. O conceito é mais uma das engenhosas soluções anti-automóvel que os engenheiros de transportes holandeses têm brindado o mundo, que podem ser resumidas no seguinte sinal:

(carros como convidados)

 

Sendo que as nossas cidades são planeadas para o automóvel, por muito que se tente contrariar esta tendência, a verdade é que mesmo nas Holandas, Alemanhas e Dinamarcas, as ruas são do carro e as bicicletas são toleradas. A ideia fundamental das fietsstraten é dar a volta a isto, é ter uma rua desenhada para bicicletas, onde a circulação de carros é tolerada:

As diferenças são claras: tanto o material como a cor do piso é o de uma ciclovia (o efeito psicológico da cor é importante, por colocar o automobilista fora do contexto habitual); as faixas são extremamente estreitas, impedindo velocidades mais altas; os passeios são mais largos; as bermas têm o piso de uma rua para automóveis (e não o contrário). Mais fotos aqui.
A Fietsberaad (a irmã mais velha holandesa da nossa MUBi) noticia ainda que a cidade de Zwolle é a primeira com um plano a nível municipal para a criação de uma rede de fiestraten.
Na Holanda tive a oportunidade de circular em algumas, e os benefícios são claros: os automobilistas não se sentem senhores da estrada, não havendo aquela impaciência de chegar 3 segundos antes ao semáforo, que tantas vezes causa conflito nas ruas urbanas.
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A página recomendada de hoje não precisa de explicações: Hartos del coche!
publicado por MC às 15:31
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Domingo, 22 de Julho de 2012

Em Alfama, joga-se à bola na rua


A foto está com uma péssima qualidade, mas não engana: em Alfama os miúdos jogam à bola na rua. 

O que têm os miúdos de Alfama de diferente dos miúdos de outros bairros de Lisboa, ou de qualquer cidade portuguesa? Também têm televisão, facebooks, playstations, etc. Têm tudo o que supostamente faz com que os miúdos de hoje fiquem fechados sozinhos em casa, mas mesmo assim insistem em jogar à bola na rua com os amigos.

Têm uma coisa que os outros não têm. Tal como os de Veneza, moram num sítio onde o espaço público pertence às pessoas e não aos carros.

E isto explica por que os outros miúdos não brincam também. Não é uma consequência das novas tecnologias, foi porque os pais decidiram que o automóvel era mais importante.


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A ler: um artigo belga (via ASPO-Portugal) sobre outra estranha prioridade da ditadura do automóvel; pôr os combustíveis acima da alimentação. De acordo com o artigo, em 2020, se se cumprir as metas para o uso de bio-combustíveis, metade dos terrenos agrícolas belgas servirão o automóvel: Nourrir avant de fournir des carburants
publicado por MC às 19:28
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Adeus shoppings do subúrbio, olá cidades humanas

De entre os países desenvolvidos, Portugal e os Estados Unidos são daqueles onde o automóvel tem um maior peso na sociedade. As cidades e mesmo alguns bairros, estão cercados por mais e mais auto-estradas, o comércio local tem menos peso que os shoppings onde só se chega de carro, as cidades são parques de estacionamento e zonas de atravessamento de trânsito. há mais carros a passar do que pessoas, etc.

Mas há cada vez mais bons sinais de mudança nos dois países. Num artigo do NY Times (que já passou no nosso Facebook) mostra-se que nos últimos 15 anos, os americanos estão a procurar mais o centro da cidade para viver, e menos os subúrbios. Prova disso é o valor das casas, que subiu mais no centro.

De Portugal tem havido histórias de hipermercados a fechar e de falta de vontade em abrir mais shoppings. Esta poderia ser uma história da crise generalizada, mas hoje o Diário Económico conta que a procura de espaços comerciais no centro de Lisboa e Porto  (especial destaque para o Chiado) tem vindo a aumentar, apesar dos preços serem claramente altos.

Excelentes notícias!

 

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E da cidade mais europeia da América, mais uma notícia europeia: Nova Iorque também vai ter um sistema de bicicletas públicas partilhadas.

publicado por MC às 17:57
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Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

E se um automobilista incomoda muita gente, dois automobilistas incomodam muito mais

Já tenho repetido isto vezes sem conta: uma pessoa a deslocar-se de automóvel tem um impacto negativo sobre os outros muito maior do que quem se desloca de outros modos. Fica agora aqui a primeiríssima tabela que aparece no manual de planeamento de tráfego da autoridade de transportes de Londres, uma das mais prestigiadas instituições de investigação em transportes:

O Passenger Car Unit é uma medida do distúrbio no tráfego que cada tipo de veículo causa ou, em bom português, quanto é que atrapalham o trânsito. E quanto a isto a tabela não engana: no que toca a atrapalhar o trânsito, o automobilista é mais do que duas vezes pior que o motociclista, cinco vezes pior que o ciclista e dez vezes pior que o passageiro de autocarro (assumindo que este leva 20 pessoas).
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Notícia a ler: por reconhecer que a bicicleta não atrapalha o trânsito, a Bélgica foi agora mais longe e para lá de permitir que os ciclistas virem à direita mesmo com o semáforo vermelho (o que acontece em vários países), também permite que vão em frente com vermelho se não cruzarem o percurso de outros.
publicado por MC às 11:37
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Terça-feira, 27 de Março de 2012

Existe diferença entre um 'acidente' de viação e um homicídio por negligência?

A palavra acidente já é, por si, uma escolha de mau gosto. O dicionário diz que é um "acontecimento casual ou inesperado", um "acaso". Dá a ideia de algo fora do nosso controlo, exclui à partida a existência de culpa, quando na realidade transportar uma caixa metálica de 2 toneladas, a 20 metros por segundo, no meio de uma povoação, é por definição uma atividade de enorme perigo.

Na verdade,  atropelar mortalmente um peão é um homicídio por negligência tal como um disparo mal-direcionado de uma arma, como ter um médico a não tomar atenção a todos os sintomas de um paciente, um educador de infância que deixa uma criança cair de uma janela. A única diferença é o homicida ter um volante na mão. Tal como em tantas outras coisas, um cidadão com um volante na mão não é igual a um cidadão sem.

A Scotland Yard lançou o repto na Inglaterra: vamos tratar uma morte na estrada como um homicídio por negligência. Esperemos que o debate se alastre pela Europa.

 

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Via bananalogic, recomendo hoje úma história de automobilistas que julgam ter mais direitos que os peões.

publicado por MC às 15:43
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Segunda-feira, 12 de Março de 2012

A Roménia volta a salvar a nossa face na ditadura automóvel

Há tempos descobri que não estávamos assim tão isolados na Europa no que toca ao paradigma da gestão do espaço público. Não é só cá que o estacionamento automóvel é mais importante que a circulação dos peões, afinal na Roménia também há responsáveis autárquicos que defendem publicamente o estacionamento no passeio.

Ora, eu andava desconfiado de que Lisboa seria a única capital europeia onde as ruas chegam a ter quatro faixas de estacionamento legal, como é o caso nas Avenidas Novas, na própria Avenida de Liberdade, etc. Por essa Europa fora não se parte do pressuposto que cabe aos organismos públicos arranjar espaço para o estacionamento do veículo privado, de modo que habitualmente as ruas não têm sequer estacionamento, algumas uma fila, poucas têm duas.

Mas entretanto o Google Maps Street View chegou a Bucareste, e eu pude tirar os nabos da púcara. Depois de algum esforço descobri uma rua com quatro faixas de estacionamento:

 

Descobri ainda um bónus: por lá também é habitual ver carrinhos de bebé a circular no alcatrão, por os passeios estarem ocupados com... carros estacionados!

 

Vale a pena passear um pouco com o Street View por Bucareste para comparar. Em geral, os passeios acabam por ser mais largos lá do que cá.

De qualquer modo, hoje já me sinto mais europeu!

 

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E o link aconselhado de hoje, um vídeo da StreetFilms chamado Parking Reform.

publicado por MC às 15:42
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Caça à multa ou ao disparate? II

Quem já foi de carro a Espanha sabe bem que os carros de matrícula portuguesa têm um comportamento completamente diferente antes e depois da fronteira. Ao contrário do que se gosta de dizer, o comportamento ao volante depende muito da dissuasão, e não tanto da cultura. Temos dificuldade em lidar com multas, e daí convencemo-nos que elas não têm qualquer efeito dissuasor.

Há tempos já mostrei que a ideia que havia uma caça à multa permanente em Portugal, era um total disparate. O número de multas de velocidade passadas por mil condutores na Holanda é 40 vezes maior do que em Portugal. Hoje, a nossa imprensa puxa ao sensacionalismo, chocando-se com o valor das multas cobradas. O valor das multas cobradas em 2011 terá sido 85,3 milhões de euros, quando em 2010 foi de 47,7 milhões. Então e aqui ao lado? Em 2012, a câmara municipal de Madrid - estamos só a falar da câmara municipal de Madrid - espera cobrar 175,9 milhões de euros em multa, mais do dobro que Portugal inteiro!

E por pessoa? 85,3 milhões de euros, dá oito euritos e pouco a cada português. Na Itália, onde são cobrados 2 mil milhões de euros por ano, são 35 euros por cada italiano. E é melhor ficar pela Espanha e pela Itália, porque se formos mais para Norte...

 

Em Portugal, o carro ainda é um aristocrata intocável que passa ao lado das leis e do civismo.

 

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Como sugestão de leitura, repesco um post antigo do A Nossa Terrinha, sobre as honras que o Doutor Carro merece em Coimbra.

publicado por MC às 15:47
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012

Uma lição de coragem contra os automóveis para os autarcas portugueses, vinda de Milão

Milão é a única cidade do Sul da Europa com um sistema de portagens urbanas, isto é, obriga o carro a pagar a entrada na cidade, de modo a reduzir o seu número. Quando a medida foi lançada em 2008, eu teci algumas críticas porque distinguia os carros "verdes" (na realidade 60% do total), dos poluentes. Só os segundos pagavam portagem. Focar-se exclusivamente no aspecto ambiental, era esquecer todos os outros problemas que o automóvel cria na cidade.

Mas tal como fez Estocolmo, Milão quis ter um período experimental e depois perguntar à população o que achava. E tal como acontece em tantos casos de restrição ao automóvel, há uma enorme oposição antes, mas um enorme apoio depois da implementação. No Verão passado foi feito um referendo que perguntava a opinião sobre o alargamento a todos os automóveis das portagens, o incentivo ao meio de transporte público e a pedonalização do centro. Mais concretamente, propunha-se

a) duplicar a área pedonal

b) duplicar as zonas 30, e acalmia de tráfego

c) 300km de ciclovia

d) favorecimento ao transporte público, para aumentar a sua velocidade

e) serviço de autocarros de bairro

f) aumentar o bike sharing para 10000 bicicletas, e car sharing para 1000

g) alargar o horário do metro

...

k) alargamento da portagem a todos os carros (excepto residentes)

Os milaneses foram bem claros na resposta: 79%, ou seja 4 em cada 5, apoiaram as medidas de combate ao automóvel

A portagem de 5€ para todos, durante o dia, arrancou há um mês, e o Treehugger tem um artigo sobre isso. A entrada de automóveis reduziu-se em 37%, os poluentes entre 14% e 37%. Mas o resultado mais impressionante, e que o Treehugger não refere, vem de um relatório camarário: entre as 8h e as 9h da manhã, a velocidade média dos autocarros aumentou 7%, e na hora seguinte 17%, de uma semana para a outra! Como sublinho sempre, não podemos exigir bons transportes públicos, enquanto não lhes tirarmos os carros da frente.

 

Milão não é Roma ou Nápoles, mas não deixa de ser Itália, não é na Noruega ou na Holanda. Não deixa de ser uma cidade onde o automóvel tem status, e onde o automobilista é rei. Os nossos autarcas deveriam aprender com este exemplo, em vez de assumirem sempre que a população não apoia este tipo de medidas e que só querem mais e mais estacionamento.

 

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Para o fim, mais uma lição vinda de Itália. Até uma cidade no sopé de uma montanha como Génova, pode ser amiga das bicicletas:

publicado por MC às 18:14
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