Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Zonas 30km/h, lombas e radares em Portugal

O JN noticia hoje que a Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária defende a introdução em Portugal de zonas com velocidade máxima de 30km/h (o que já existe em quase todos os países da UE). O documento será ainda discutido com várias entidades, inclusive autarquias, mas isto é em si uma excelente notícia. Melhor ainda, defende que este limite seja posto em prática não apenas através da lei, mas de alterações nas vias (como lombas e semáforos). Uma das razões para avançar com esta política é, segundo a notícia, o facto de a sinistralidade dentro das cidades estar a descer bem mais lentamente que fora delas.
A mesma notícia avança que será instalado uma rede a nível nacional de radares de velocidade, que neste momento só existia em Lisboa e Porto e por iniciativa das câmaras.

Para ler mais:
Medidas "físicas" de acalmia no trânsito:
Acalmia no Trânsito I
Acalmia no Trânsito II
Acalmia no Trânsito III e IV
Acalmia no Trânsito V
(aparentemente acalmia de tráfego é a expressão técnica correcta)

Schritttempo na Alemanha
Obrigado Mário
publicado por MC às 10:58
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15 comentários:
De Strider a 9 de Janeiro de 2008 às 13:31
Gostei da notícia e da forma como foi exposta.
Pelo que vale, parabéns e espero que continue assim!
De Tárique a 9 de Janeiro de 2008 às 19:06
Hoje faleceu um senhor que salvou a vida a milhares, o Rei da acalmia do trânsito. Triste notícia. Basta ver o que as suas ideias fizeram por Paris e outros lugares (Holanda, principalmente).
De Mário a 10 de Janeiro de 2008 às 02:13
http://en.wikipedia.org/wiki/Hans_Monderman
http://azulebanana.com/anabananasplit/2008/01/09/morreu-um-engenheiro-de-trafego-revolucionario/

Ontem de manhã estive na rádio a debater com um juiz que, com a melhor das intenções, dizia que a melhor solução para dar segurança aos peões era afasta-los dos cruzamentos dez metros usando guarda-corpos (eufemismo de barreiras). Nos três minutos de resposta ainda pensei em falar do Hans. Mas a inversão do paradigma é enorme e senti que não iria ser compreendido. Disse que deviamos todos nos esforçarmos por uma cidade mais aberta e sem barreiras.

No entanto já no corredor, há saída, lá expliquei que “guarda-corpos” eram uma solução muito usada nos anos 70, mas que a tendência actual é abrir e minimizar …existe mesmo um homem no norte da Holanda…

Cheguei a casa e tinha a triste noticia na caixa de correio de um amigo comum. Fiquei muito, muito triste.

Conheci o Hans Monderman há muitos anos. Estive com ele há dois meses em Toronto e parecia-me bem. Falamos da velocidade, da “tragedy of the commons”, e das vantagens ou desvantagens de “go dutch” numa conta de restaurante. Dizia-lhe eu que tal como uma conta de restaurante pode aumentar em espiral quando é a dividir por todos - porque um acabará por pedir um whisky de doze anos e outro um charuto cubano e por aí fora. Também numa praça pública poderá haver a tendência de cada um aumentar a velocidade em beneficio próprio porque o custo é a dividir por todos. Era uma conversa que tínhamos com frequência - acabávamos sempre comigo a perguntar - Mas será mesmo possível chamar negociação quando uns têm 70 kg e outros 1,500 kg? E ele respondeu-me com paciência - no fim, a pergunta fundamental é se acreditamos nos outros ou não. Já sabia que ele estava muito doente e senti que eu é que podia estar a ser demasiado cínico com a natureza humana.

Quando o Robert Stussi me mostrou uma entrevista espontânea que tinha feito em Groningen, disse-lhe que me lembrava a essência do Hans Monderman - lá no Norte, ventoso da Holanda durante décadas podia trabalhar de forma criativa à vontade sem cínicos para lhe dizer que não iria funcionar.
Fiz a montagem do filme que está aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=VQASVz4xun8

Sobre o Monderman escrevi aqui:
http://www.artecapital.net/arq_des.php?ref=13


Nos últimos anos, primeiro nas províncias do norte da Holanda e depois no resto da Europa, começaram a experimentar-se sistemas curiosos de desenho urbano, de coexistência entre os carros, peões e bicicletas. No fundo não são mais que um retorno às origens: quanto menos ordenamento e sectorização funcional do tráfego, mais seguro e humano é o espaço público. Optando por uma estratégia de partilha do espaço público, os primeiros projectos da autoria de Hans Monderman rejeitaram a separação entre modos e toda a panóplia de sinalética e regulamentação viária que ainda hoje é normal em projectos com a presença de automóveis e peões. Através do uso de materiais que desconstroem a tradicional separação entre a via, passeios e ciclovias cria-se uma flexibilidade e fluidez em que todos os participantes interagem de olhos nos olhos. A ausência de conflitos é conseguida através de uma negociação baseada no princípio de que a prioridade é sempre do mais vulnerável.

Ao retirar toda e qualquer marcação no pavimento e sinalização de trânsito, Monderman conseguiu que os motoristas começassem a sentir-se como actores sociais da praça ou cruzamento, e a comportar-se como peões. Retirando-se passadeiras e dando-do prioridade aos peões, o espaço torna-se num ballet de interacção com o corpo e o olhar, onde todos os modos convivem e as funções de estadia, deslocação e jogo se misturam. Desenhando o espaço com prioridade para as pessoas e não para os carros, podemos desburocratizá-lo e reduzir a velocidade para níveis onde é novamente possível a deriva e a socialização [6]. Podemos celebrar finalmente a importância da atenção e da descoberta de Guy Debord — ou como disse um dos projectistas, quanto mais perigoso for um espaço, mais seguro ele é. È o desenho para a incerteza e o intrigante que nos predispõe a retomar a conversa com quem cruzamos. A troca de olhares de que falava Breton.

De Osvaldo Lucas a 10 de Janeiro de 2008 às 12:19
Interessante a ideia de remover passadeiras (evidentemente onde não houver sinalização semafórica).
De MC a 10 de Janeiro de 2008 às 20:55
Nunca tinha pensado em associar a "tragedy of the commons" (tão cara para a ciência económica) com o shared space.

O shared space há muito muito tempo que merecia uma referência aqui no blogue.. tanto eu como o António já tínhamos pensado nisso. Da minha parte acho que sempre pensei que mereceria sempre mais do que aquilo que eu saberia escrever.
De iGreen a 10 de Janeiro de 2008 às 12:05
Qd tive conhecimento, ontém, esta noticia agradou-me bastante. No entanto hoje de manhã, já ouvi os invevitáveis comentários jocosos de alguns animadores de rádio a ridicularizar a possivel entrada em vigor desta medida. É pena que a vontade de "ser engraçado" se sobreponha tantas vezes à necessidade de "ser responsável". À pala do "ridiculo" os aceleras irresponsáveis lá arranjam uma desculpa para as suas atitudes.
De Osvaldo Lucas a 10 de Janeiro de 2008 às 12:22
Limites de 30 km por hora é uma não notícia.
Não creio que haja qualquer impedimento de uma dada autarquia colocar os limites de velocidade que quiser onde quiser (excepto talvez se forem limites superiores aos definidos no código da estrada.
Na prática as autarquias não usam limites muito baixos mas sim limitadores muito altos. Passar a mais de 30 por cima destes é muito perigoso para a suspensão automóvel.
De MC a 10 de Janeiro de 2008 às 20:58
Eu não quis soar pessimista no post (mas fui-lo noutro blog), mas de facto não é a primeira vez que se fala nisto. Nem julgo haver - como diz - qualquer impedimento legal para isto não ter sido aplicado antes...
A CM da Amadora falou nisto há um ano, não sei se chegou a ser aplicado...
De Strider a 10 de Janeiro de 2008 às 12:25
Uma notícia que se calhar vos interesse analisar:

"http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/7180396.stm"
De MC a 10 de Janeiro de 2008 às 21:37
Obrigado.
Já a tinha lido noutro lado. É claramente uma má notícia saber que o acesso ao automóvel vá ser tão facilitado... se bem que na Europa o factor económico não é propriamente impeditivo de comprar um automóvel.
De Miguel Andrade a 5 de Outubro de 2008 às 02:17
"acalmia de tráfego". Esta é sem dúvida uma expressão inovadora em relação a um problema tão sério como as lombas. Deve ter sido retirado de um qualquer folheto que acompanhava medicação para prevenção de problemas gástricos.
De MC a 7 de Outubro de 2008 às 19:48
Parece que é a expressão que aquela gente que se dedica a estudar o tráfego usa... acho que são os engenheiros, mas talvez o Miguel saiba melhor
De Miguel Andrade a 5 de Outubro de 2008 às 02:42
Deixo uma sugestão aos defensores destas lombas.
Façam uma pequena pesquisa na Internet.
Essas lombas não são tão boas como parece.
De MC a 7 de Outubro de 2008 às 19:50
Eu faria uma sugestão.. contacte os engenheiros de tráfego (lá está, não sei bem se é esse o nome das pessoas que sabem do assunto) da europa do norte (também são países pouco desenvolvidos, coitaditos) porque eles insistem a usar estas lombas a torto e a direito. De 60m em 60m nas ruas secundárias holandesas, por exemplo... (deve ser da droga que fumam).

O Miguel Andrade ajudá-los-á, estou certo.
De Miguel Andrade a 8 de Outubro de 2008 às 01:16
Caro MC lá porque se é engenheiro não quer dizer que se seja competente e isto não diz respeito só a essa classe profissional. Não me deixo impressionar por titulos. Essa das lombas a cada 60 metros é uma novidade interessante e dá-me razão, um arrotinho de 60 em 60 metros alivia certamente canalizações (gastro-intestinais) entupidas.
Eu não preciso de falar com engenheiro nenhum ,quero é que eles instalem essas lombas à porta da casa deles.
Como foi tão benevolente na forma como se me dirigiu ofereço-lhe este link; http://radares50-80.blogspot.com/
Para o perceber não são necessários charros.
Miguel Andrade

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