Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Uma espécie de manifesto

 

Os manifestos costumavam ser redigidos quando havia algo de tão implacável e indubitavelmente prejudicial à vida das pessoas que a passividade de modo algum podia constituir uma opção. Declamavam-se ideais, prometiam-se amanhãs e uniam-se pessoas e vontades contra uma realidade injusta. Algumas linhas procuravam delinear o que está errado, o que se deve fazer para corrigi-lo e o que se obteria caso as prédicas fossem seguidas. As pessoas identificavam-se com algumas frases e palavras, sentiam-se protegidas por elas e dedicavam-se de corpo e alma aos seus propósitos.

 

Hoje, não há manifestos. Há tédio. Indolência. Apatia, hedonismo. Já não se protesta, aceita-se; quem não concordar com esta tese, sofre de imaturidade. Os manifestos são vistos como perigosos, não tanto por apontarem algo de incoerente, mas porque as suas linhas, afirmam os críticos, se revestem de verdades transitórias, subjectivas e que poderão ser vistas como permanentes e absolutas; ora, tal como mostrou o século passado, tal é verdadeiramente indesejável. As ideias são perigosas. No entanto, se elas surgirem, há maneiras de se evitar um confronto. Primeiro, desconfie-se de qualquer grupo de pessoas que se una por uma causa. Examine-se. Depois, disseque-se. De seguida, desmistificam-se os seus propósitos, classificando-os de absurdos. Não se valoriza a iniciativa, a acção, a mudança; faz-se da crítica uma arte literária, seduzindo a opinião pública com os atávicos valores da ordem e da estabilidade e conservando o actual estado das coisas. E continuamos a queixarmo-nos dessa dor que nos mói, devagarinho, o nosso caro fado português.

 

Sempre vivi em Lisboa e há de ser sempre a minha cidade. Não se escolhe onde se nasce, tal como a família. O que hoje se passa na capital é apenas e só, espúrio. Presenciar a violação contínua do património arquitectónico, do espaço público, das ruas, do rio e das vistas, por gerações de políticos e pelos cidadãos é um convivo diário com o nojo. A cidade não é dos lisboetas, é de uma coisa anónima e omnipresente que a tem vindo a engolir. Derruba, embarga, edifica, constrói, proíbe, cancela, separa, mutila, fere, estropia. A cidade, o seu centro, está a fenecer. O símbolo deste tétrico banquete em que a cidade tem sido servida à modernidade, com pompa e circunstância, é o automóvel. O trânsito é caótico e desnecessário, estacionar a viatura tornou-se numa arte e o património vai sendo preterido para mais estradas, mais acessos viários ou mais parques de estacionamento.

 

Se as principais vantagens de um automóvel são o conforto, a segurança e a rapidez, expliquem-me os seguintes paradoxos: quem se sente confortável numa fila de trânsito, fechado num caixão metalizado? Um hino à liberdade, afirmam uns. Como pode haver liberdade num carro se é necessário obedecer aos semáforos e a demais sinalizações? Se é necessário conviver com o excessivo número de veículos, fumos, stress, buzinas? Quanto à segurança, até Agosto de 2007 morreram mais pessoas nas estradas portuguesas do que as mesmas em 2006. Rapidez? O carro não aproxima pessoas. O uso abusivo do veículo particular tem levado à segregação da população para os subúrbios; ao empobrecimento das ruas; à marginalização dos peões; à qualidade do ar atmosférico; à falta de vitalidade do comércio tradicional. É um nojo e tanto mais por ser tão flagrante. Uma comunicação social incipiente rotula medidas contra os automóveis de ridículas. Andar de bicicleta é um absurdo. Fechar ruas ao trânsito é um atentado à liberdade. Mais quejandos levariam ao vómito e à repulsa honesta.

 

Desencorajar o uso do automóvel enquanto se promovem outras medidas de urbanismo destinadas ao usufruto correcto das ruas, das praças e dos demais espaços públicos não é uma panaceia universal, mas são medidas urgentes para Lisboa. A falta de clarividência nesta matéria dos sucessivos executivos autárquicos, compactuados com alguns comentadores e jornalistas, é tão só e apenas um sintoma. Um sintoma da irracionalidade dos dias de hoje.

publicado por TMC às 14:52
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2 comentários:
De MC a 6 de Setembro de 2007 às 19:48
Bem-vindo Tiago!
Obrigado pela lufada de ar fresco no meio dos meus textos tecnocráticos!
De Mário a 7 de Setembro de 2007 às 22:47
Boa Tiago!

Serei teu leitor assíduo. Dois excelentes post!

O resto vai por email!

Abraços,
Mário

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