Terça-feira, 5 de Junho de 2007

Custos do automóvel na cidade

S. Proost and K. van Dender da Universidade de Leuven publicaram em 2001 um estudo na revista Regional Science and Urban Economics sobre o impacto de um automóvel a circular em Bruxelas em hora de ponta. Os custos que são causados nos outros (ou seja a quem não está dentro de esse automóvel) em termos de poluição, congestionamento, acidentes e ruído - as chamadas externalides - é de cerca de 1,895 euros por quilómetro! O valor é ainda ligeiramente maior para automóveis a diesel, devido à emissão de partículas. Para contrabalançar cada automóvel paga apenas 0,12 euros por quilómetro de imposto.
Fazendo uma continhas... dando de barato que o número está sobreavaliado e tomando metade dele para Lisboa, assumindo que cada automóvel faz um percurso diário de 10+10km (a média deve ser bem mais alta), isto dá cerca de 19 euros por automóvel por dia de danos que cada automobilista inflige ao resto da sociedade, pagando apenas 2,4 euros em troca!
Temos que meter de um vez por todas na cabeça que o automóvel na cidade é um enorme custo para todos (e um custo estúpido porque há alternativas). Há que interiorizar a ideia de que não são os transporte públicos mas sim os automóveis particulares que estão a ser barbaramente financiados por todos.
Por uma questão de ambiente, de qualidade de vida, de bom planeamento mas principalmente de justiça social, este valor tem que ser pago por quem deve. Seja por portagens urbanas, parquímetros, taxas de circulação, seja o que for.
publicado por MC às 11:59
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9 comentários:
De osvaldolucas a 6 de Junho de 2007 às 14:47
Não dou de barato nem 1,895 nem metade desse valor.
As externalidades têm de ser contabilizadas mas não consegui encontrar o artigo (em Inglês! mas apenas em holandês http://www.belspo.be/belspo/home/publ/pub_ostc/mobil/rapp10_nl.pdf) para poder aferir minimamente do aceitável da respectiva valorização.
É que se forem verdade os valores apontados, basta permitir que apenas os transportes de mercadorias e outros entrem na cidade e temos o "défice" resolvido....
Ou então temos de considerar as internalidades e externalidades de NÃO ANDAR um km em hora de ponta e comparar com os 1,895 euros...
De MC a 6 de Junho de 2007 às 16:21
O acesso à revista online é pago.. Para quem tem acesso ao ScienceDirect o artigo está aqui .
Os autores pertencem a um grupo de investigação chamado Energy, Transport and Environment que tem alguns artigos online gratuitos
aqui . Haverá lá outros com análises semelhantes (a avaliar pelo título).

De qualquer maneira há uma coisa que eu não escrevi no post, por ser um pouco técnica. É que estes valores são os custos MARGINAIS das externalidades de cada carro, ou seja o custo do "último" carro que entra na cidade. Se por exemplo houver metade dos automóveis a circular, o custo marginal será certamente muito mais baixo, menos de metade certamente.

Isto quer dizer que não faz sentido pegar neste número e multiplicar pelo número de carros em circulação para termos uma noção do custo total (o número seria demasiado alto), mas dá a noção de quanto se "ganharia" pelos primeiros carros que se retiraria de circulação. Que isto fico claro: o custo agregado de todos os automóveis é muito menos do que 1.895*quilómetros*número de automóveis.

Fico sem perceber a frase "Não dou de barato nem 1,895 nem metade desse valor"... o valor é muito alto ou muito baixo?
Eu não sei como o estudo foi feito, mas até é de admitir que os dados para Lisboa sejam mais altos porque o congestionamento é maior que em Bruxelas (e o custo marginal da externalidade aumenta de certeza com o número de carros, basta pensar que o primeiro carro tem custo zero).

Há obviamente benefícios (ou externalidades positivas) em jogo: se ninguém se mexesse em Lisboa não haveria pura e simplesmente economia e empregos. Mas não se pode comparar com essa situação. Deve-se comparar com uma situação em que a grande maioria das deslocações fosse feita de transporte público. Se de facto houvesse vantagens relativas (o que me custa a crer), o valor dessa vantagem deveria obviamente ser descontando na portagem/parquímetro a pagar por cada automóvel. ou seja dever-se-ia internalizar os custos e os benefícios.

De Ricardo Amaro a 6 de Junho de 2007 às 15:02
Nem portagens, nem parquimetros, nem taxas... ou é residente e tem um carro que emita menos de 150g CO2 /km ou simplesmente NÃO ENTRA!
De MC a 6 de Junho de 2007 às 16:25
Caramba! Nem eu vou tão longe... :)

Há uma coisa que não escrevi, é que a maioria deste custo (estamos a falar de trânsito em CIDADE e em HORA DE PONTA) deve-se ao congestionamento, e não há poluição, ao ruído e aos acidentes.
Por isso os 150g/km nem estão muito em jogo neste caso.
De Miguel a 6 de Novembro de 2009 às 22:30
Peço desculpa por vir pra aqui desenterrar os comentários a este tópico, mas só os vi hoje no post dos 3 anos...
Este tema do custo para a economia é muito interessante, principalmente quando exclui a componente ambiental porque mostra às pessoas que «muito bem estávamos» se os custos do automóvel fossem apenas os ambientais (se apenas fosse esses o que ganhávamos na economia chegava e sobrava para compensar os custos ambientais). Por exemplo no meio académico da área dos transportes pouca gente ouço a falar em ambiente (principalmente os mais velhos, nos mais novos a questão já está mais enraizada), mas economistas a dizer que por vontade deles os carros eram a coisa que mais impostos deviam pagar em Portugal isso já ouvi algumas vezes...
Eu por exemplo lembro-me de ver no freakonomics (penso eu) um artigo da Univ. do Texas sobre o custos do automóvel no Texas e o valor exorbitante a que eles chegavam (da ordem dos muitos milhões de dólares anuais) era 80% devido ao congestionamento e diminuição da produtividade, 15 % devido aos acidentes e consequentes custos de saúde e 5% de componente ambiental.
É por isso também que acho um erro o que a comunicação social faz, que é focar sempre na questão ambiental quando falam nos carros (isso e nos coitadinhos cuja única opção é andar de carro, mas isso é outra história).
De MC a 10 de Novembro de 2009 às 22:54
Exactamente!
De Anónimo a 11 de Junho de 2007 às 00:34
A propósito de carros na cidade, sugiro que vá a www.engelma.com.
Há alguma originalidade e um realismo que me parece de aplaudir.
JA
De José M. Sousa a 2 de Setembro de 2007 às 10:53
Exactamente. Ao contrário do que é senso comum, os automóveis particulares são os principais beneficiários de subsidiação, por via indirecta. Na realidade, os transportes públicos estão muito sub-financiados.
De fylespq a 9 de Setembro de 2011 às 02:03
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