Quinta-feira, 18 de Abril de 2013

Para que serve um semáforo vermelho?

1. A sério, pensem um pouco, quais são os propósitos dos semáforos?

Eles servem para regular o trânsito (ora passam estes, ora passam aqueles, para que um cruzamento não fique entupido), e para garantir a segurança (quando está verde, sei que posso atravessar sem perigo). Os propósitos são claros e o seu cumprimento está bem definido na lei.

Pense-se então nestes dois propósitos, aplicados a uma bicicleta. Uma bicicleta a atravessar um vermelho. Um ciclista nunca atravessaria um vermelho numa situação em que atrapalhe o trânsito, porque se arriscaria a apanhar com um carro em cima. Um ciclista também nunca atravessaria o vermelho numa situação que coloque os outros em perigo, porque ele é o elemento mais fraco no trânsito, ele é que se colocaria em perigo.

2. Um estudo académico australiano, contabilizou o número de ciclistas que passam vermelhos em Melbourne. Ao contrário da ideia de um incumprimento generalizado, concluí-se que em apenas 7% das ocasiões o vermelho era desrespeitado. Não é preciso nenhum estudo académico para saber que o número de automobilistas a circular em excesso de velocidade (algo que coloca bem mais perigo aos outros) em qualquer cidade do mundo, é mais de 7%.

 

Não quero com isto dizer que os ciclistas devem passar o vermelho a torto e direito, nem que o incumprimento de uns justifica o dos outros. Estou apenas a querer pôr as coisas em contexto. Não percebo porque um comportamento tão insignificante levanta tanta discussão, se não for por um apego cego acrítico à letra da lei.

Deveríamos olhar para isto, como se pensa em quem fuma em casa. Faz sentido proibir o fumo em locais públicos fechados, porque o fumador afecta os outros - em casa ou na rua não. É isso que se faz na Holanda, tanto explicitamente (abrindo excepções explícitas para os ciclistas) ou implicitamente (com um enorme tolerância por parte das autoridades a este comportamento).

 

.................................................................................

E para ficarmos no paraíso das bicicletas, a sugestão de hoje é um catálogo de fotos e situações curiosas em Amesterdão.

publicado por MC às 22:56
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20 comentários:
De Sérgio a 19 de Abril de 2013 às 09:14
Em Lisboa deve ser ao contrário: só uns 7% é que cumprem. Se há casos em que o fazem de uma forma cuidadosa, também já tenho visto casos em que o fazem de maneira bastante perigosa obrigando os veículos que vêm com verde a parar...
De MC a 19 de Abril de 2013 às 11:50
Sérgio,
para que não fiquemos só pelas bocas, está disposto a apostar 500€ sobre esse número? Eu estou.
Arranjamos uma pessoa conhecida de ambos, e até deixo que seja um local à sua escolha. Vai-se lá, e conta-se 20 ciclistas. Se 19 ou 20 desrespeitar (95%), eu pago-lhe 500€. Você paga-me dos 18 (90%) para baixo. Aliás, até lhe dou um de avanço. Pago-lhe 500€ se for 18, 19 ou 20.
Está combinado?
De Sergio Rocha a 19 de Abril de 2013 às 14:32
Vou ter que recusar a oferta generosa por falta de vagar. E também não sei de certeza se são 5%, 10 ou 20% que cumprem em Lisboa. Com base na minha observação pessoal, são certamente a grande maioria. Não sei por outro lado se as suas conclusões se baseiam também somente na observação pessoal ou se conhece algum estudo credível efetuado na cidade cidade de Lisboa?
De MC a 19 de Abril de 2013 às 17:12
Não conheço nenhum estudo sobre Lisboa, mas ando sempre muito atento ao comportamento dos ciclistas.
E não se guie por uma ideia vaga que possa ter, porque há um efeito (attentional bias) muito estudado na psicologia que diz que as pessoas se lembram mais de coisas mais fortes. Por exemplo, se hoje atravessar a cidade, não lhe vai ficar na memória ter visto 10 ciclistas parados no vermelho, porque isso não chama a atenção. Mas não se vai esquecer daqueles 2 que não o passaram.

A oferta para a aposta continua de pé.
De Pyros a 19 de Abril de 2013 às 11:03
"Um ciclista nunca atravessaria um vermelho numa situação em que atrapalhe o trânsito, porque se arriscaria a apanhar com um carro em cima. Um ciclista também nunca atravessaria o vermelho numa situação que coloque os outros em perigo, porque ele é o elemento mais fraco no trânsito, ele é que se colocaria em perigo."

Não sei se é para rir ou para chorar. Então, segundo esta mesma teoria da perfeição da avaliação do ciclista, um peão jamais seria atropelado sem ter culpa, por ser o elemento que se coloca em perigo. Ahahaha.

Infelizmente a experiência não bate com essa teoria. Muitos dos atropelamentos - que em muitos casos têm consequências graves - são da culpa objectiva dos peões. E não é por não serem o elo mais fraco.

Os semáforos existem para regular o trânsito exactamente para que quem utilize a estrada não tenha de avaliar se pode - ou não - avançar. Esta retirada de capacidade de decisão individual ajuda a que haja menos erros. Se as pessoas - peões, automobilistas e ciclistas cumprirem terão menos acidentes.

Ou subitamente os ciclistas são uma espécie de seres perfeitos que não cometem erros de avaliação? É que mais ninguém é...

Não obstante o acima, existem situações em que virar à direita num sinal vermelho poderia ser permitido - quer para bicicletas, quer para automóveis, tal como o é nos EUA. Mas para tal suceder primeiro teria de haver uma significativa alteração na sinalética nacional, nomeadamente impedindo essa manobra em sítios em que tal não seja adequado.
De MC a 19 de Abril de 2013 às 12:20
Se calhar o texto ficou pouco claro, mas eu não quis dizer que o ciclista toma sempre decisões correctas - tal como o fumador não as toma, quem se encharca de queijo e presunto e depois tem um ataque de coração não as toma, etc.
As proibições servem para proteger os outros: se eu roubar, se eu fugir aos impostos, se vender comida envenenada, etc. estou a afectar os outros!
Nesse sentido - e tal como não proibimos o fumador de fumar em casa - não acho que se deva levar esta lei tanto a peito.
De Adriano a 19 de Abril de 2013 às 12:24
Boa tarde a todos.

Venho apenas para dizer que eu sou um ciclista que desrespeita o vermelho em algumas ocasiões:

1º O nosso arranque do vermelho dependendo da via pode ser mais lento ou não. Nos casos em que sei que vai ser lento e não apresento perigo a nenhum peão ou veiculo, desrespeito o vermelho.

2º Como já foi dito anteriormente, não desrespeito vermelhos quando me vai por em perigo a mim e a terceiros.

3º Quando sei que há perigo para mim ou terceiros, deixo-me estar no vermelho a espera que o mesmo passe a verde.

Acredita numa coisa, corro mais perigo ou apresento mais perigo a pessoas sem atenção, que atravessam fora do sinal ou que abrem a porta de um carro sem olhar para o espelho, ou que cometem uma infração sem olhar para lado nenhum, ou pessoas que vão a conduzir com uma mão no telemóvel, ou aquelas ultrapassagens de pessoas que nunca andaram de bicicleta na vida e que pensam que não podem atrapalhar o ciclista devido a mínima margem de espaço que dão para ultrapassagem.
De Pedro a 19 de Abril de 2013 às 19:06
Deviamos simular (por ex na prox massa critica) como funcionaria uma passadeira sem semafores com dezenas de ciclistas/peoes a passar.

Como as velocidades/pesos dos veiculos são baixas (e portanto o perigo) toda a gente ia estar confortável e tornar a coisa fluida

ps: nos 15 minutos de viagem costumo infringir 3 ou 4 vermelhos, em situações que obviamente não me colocam em risco, não quero ser atropelado

pps: há cerca de 2 meses que venho a pedalar pro trabalho diariamente, com fato :p


De Anónimo a 20 de Abril de 2013 às 03:12
este post é dos mais fraquinhos do blog. Os semáforos foram a solução que se arranjou, há várias dezenas de anos, para o cruzamento de vias. Outras soluções são rotundas, desnivelamentos, etc.

Há no texto uma percepção da infalibilidade do juízo do ciclista, tal como outros comentadores salientaram.

Tolerância por parte das autoridades é o que já temos em demasia. Quero é menos tolerância e mais cumprimentos das leis.
De Mário a 21 de Abril de 2013 às 15:53
Pyros: dos peões mortos em passagens assinaladas só 7% é que estavam em incumprimento da lei (dados de 2011 da ANSR). Portanto a sua avaliação empírica está errada. Em Londres, depois de investigar porque é que havia mais mulheres ciclistas mortas que homens, concluíram o seguinte: as mulheres obedeciam mais rigor os semáforos que os homens. Ao esperar pelo verde junto ao lancil, ao lado do semáforo, eram esmagadas, a maior parte das vezes por pesados em viragem. Os homens geralmente desobedeciam a lei e avançavam ilegalmente durante o vermelho, ficando assim mais visíveis e em segurança. Mais uma vez a realidade parece ser contraria ao que alguns comentadores aqui parecem pensar.
De José a 22 de Abril de 2013 às 15:26
Não duvido que os ciclistas desrespeitem os semáforos apenas sete por cento das vezes (se calhar, em Portugal, um pouco mais, dada a nossa mentalidade, talvez chegue aos nove por cento). Mas duvido muito daquilo que o autor diz neste texto:
"Não é preciso nenhum estudo académico para saber que o número de automobilistas a circular em excesso de velocidade (algo que coloca bem mais perigo aos outros) em qualquer cidade do mundo, é mais de 7%."
Talvez seja mais de sete por cento, mas em que áreas? Em muitas cidades não se pode sequer atingir velocidades perto do 50km/h, quanto mais o excesso de velocidade. Acho que o autor também devia apresentar dados estatísticos que comprovassem as suas observações empíricas.
De MC a 20 de Junho de 2013 às 19:02
Só conheço dados estatísticos sobre a velocidade média na auto-estradas nacionais, que estará nos 120km/h. Ou seja haverá muita gente acima dos 120km/h.

Nas cidades, em concreto em Lisboa, faço essa experiência sempre que ando de carro (é raro admito), conduzir a 50km/h certos e observar os restantes carros. O mais comum é ser ultrapassado por todos...

" Em muitas cidades não se pode sequer atingir velocidades perto do 50km/h" não sei se percebo esta frase. Em Lisboa, são pouquíssimas as ruas onde não é frequente ver alguém acima dos 50.
De Iletrado a 22 de Abril de 2013 às 18:19
Caro anónimo de 20 de Abril de 2013 às 03:12
Os semáforos foram uma das soluções encontradas para regular o trânsito devido aos automóveis. Em sítios sem automóveis não são necessários semáforos. São os carros que atrapalham os outros carros e demais utilizadores das vias, como salientou o MC noutro artigo.
O ciclista não é infalível. Apesar de tentar agir com cautela, falha, tal como qualquer tipo dentro do carro. A diferença é que quando o ciclista falha, morre o ciclista; quando o condutor falha, morre o ciclista. Resumindo, o ciclista tem mais consciência da necessidade de não fazer mer**.
"Tolerância por parte das autoridades é o que já temos em demasia. Quero é menos tolerância e mais cumprimentos das leis." Subscrevo esta tua afirmação. Quero que as autoridades façam cumprir as leis e que as latas desapareçam dos nossos passeios e das passadeiras. E que cumpram os limites de velocidade, em especial dentro das localidades. E que façam as aproximações às passadeiras como o fazem nas rotundas, i.e., com muita atenção e cautela. E que os enlatados se comportem dentro da lata como se comportam fora dela. Eu sei que é difícil, porque sempre que tenho de pegar na lata, os outros enlatados não percebem os motivos pelos quais eu respeito as pessoas que se deslocam a pé. Que modo estranho de conduzir, não achas?
Boas pedaladas.
De Miguel a 25 de Abril de 2013 às 14:37
Uma experiência no RU em que removeram os semáforos para aumentar a segurança dos peões: http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=gVW-YAQCSVs#!

Passaram todos foi a conduzir do lado errado da estrada, por isso parece-me um falhanço! :)
De MC a 29 de Abril de 2013 às 12:38
Video interessante! Vou colocar no Facebook.
Esse é um exemplo de "shared space", uma ideia nascida na Holanda, que já falámos no blogue noutras ocasiões:
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/search?q=shared&Submit=OK
De Ana a 13 de Setembro de 2013 às 13:23
OK. Quanto a vós devíamos acabar com os carros e andar só de bicicleta... Acho bem, mas eu demoraria mais de 1h a chegar ao trabalho de bicicleta... quando levo 40 min de transportes públicos e 15 de automóvel... isso é razoável???
De MC a 18 de Setembro de 2013 às 11:48
Ana, o blogue já vai fazer 7 anos. Nunca, nunca mesmo, dissemos que se deveria acabar com os carros e andar só de bicicleta. Nem o sequer demos a entender.

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