Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Conduzir o carro em Manhattan causa um atraso de mais de 3 horas para os outros

Todos sabemos que cada pessoa perde facilmente meia hora no trânsito se há congestionamento, mas não temos ideia do impacto que um simples carro a mais pode provocar. Um carro numa fila de trânsito vai atrasar o carro imediatamente atrás por uns segundos, que podia estar uns metros à frente. E ele atrasa o que vem atrás, etc. Num semáforo, o carro pode ser o último a passar antes do vermelho, fazendo com o que ficou atrás tenha de esperar mais 2 minutos. Imaginando que um único carro consegue atrapalhar uns 120 durante o seu percurso, atrasando cada um por um minuto, facilmente chegamos ao número incrível de duas horas.

Pelas contas do economista Charles Komanoff, em Manhattan o número exacto é 3 horas e 16 minutos em tempo perdido, graças a um único carro! Isto equivale a um custo de 160$, só em tempo perdido.

Escolher andar de carro em Manhattan é como ter uma fila de 20 pessoas numa caixa de hipermercado, e passar à frente delas e demorar 10 minutos a ser atendido! Por alguma razão estranha, o segundo comportamento é social inaceitável, mas a grande maioria das pessoas tem dificuldade em perceber porque é que o primeiro deve ser desincentivado.

É exactamente por isto que os economistas de transportes defendem que deve haver portagens à entrada das cidades: é fundamental que os automobilistas tenham noção dos custos das suas escolhas, devendo ser por isso desincentivados. A portagem tem a vantagem extra de angariar dinheiro para investir em transportes públicos.

 

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Recomendo hoje a leitura de uma entrevista com o economista chefe da Agência Internacional da Energia que critica a posição branda da UE sobre a eficiência do uso dos combustíveis.

publicado por MC às 16:27
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8 comentários:
De André a 24 de Março de 2013 às 07:50
Condordo plenamente consigo, na verdade até acho que em Lisboa, por exemplo, essas portagens deviam ser geridas por uma mega (mais ou menos) empresa de mobilidade, que incluisse as atuais Carris, metro, transtejo, soflusa e emel. Integrar a circulação e o estacionamento da cidade nos transportes públicos é a única forma de permitir uma melhoria de condições.
De Iletrado a 24 de Março de 2013 às 23:32
Caro MC
"Escolher andar de carro em Manhattan é como ter uma fila de 20 pessoas numa caixa de hipermercado, e passar à frente delas e demorar 10 minutos a ser atendido!" Não percebo o teu português. Devo ler que eu passo à frente de 20 pessoas e demoro 10 minutos a ser atendido, ou que passo à frente dessas pessoas e por esse motivo cada uma demora 10 minutos a ser atendido? Bom, seja como fôr, não me parece que seja uma comparação legítima. Qual é a relação entre a locomoção de várias centenas de pessoas num espaço exíguo, cada uma dentro da sua lata, e a "xico-espertice" de um cliente numa caixa de supermercado? Eu posso estar à espera numa bicha e todos respeitarem civilizadamente a ordem, sem sobressaltos ou tumultos e não creio que seja por isso que vou demorar menos tempo a ser atendido. Tudo vai depender de vários factores: o número e o tipo de artigos que cada um vai comprar e a forma de pagamento que vai utilizar. Essa comparação é um pouco pateta, na verdade - há sempre alguém que fica para trás, independentemente da velocidade, da densidade do tráfego ou do veículo utilizado. Também se pode utilizar esse argumento, por exemplo, para vilipendiar o esparguete crítico das Sextas-feiras: a "rolha" que aplicam para que o pessoal se mantenha junto acontece porque há sempre alguém que fica para trás, atrasado pelos ciclistas da frente e que por isso não consegue passar o semáforo, arriscando-se a perder os tais dois minutos.
Aliás, não percebo esse argumento dos dois minutos. Isso deve ser lá nos "states", certo? Não tenho ideia de um único semáforo em Portugal que fique vermelho mais que um minuto para os carros. Dois minutos vermelho para os peões, sim, conheço.
Quando subo a Avenida da Liberdade, outro exemplo, local onde lata alguma dificilmente me atrapalha directamente, tenho sempre de parar num ou outro semáforo. Quantos ciclistas me atrasaram, quantos eu atrasei? Zero. Curiosamente, continuo a subir essa Avenida sozinho, apesar de cada vez mais pessoas me garantirem que há mais utilizadores de bicicleta em Lisboa.
Verifico que continuas a defender a peregrina ideia das portagens à entrada das cidades. É possível que lá fora, na estranja endinheirada, essa medida desincentive as pessoas de utilizarem o carro. Mas em Portugal? Não te chega o exemplo do deserto da Margem Sul para perceberes que essa ideia não desincentiva as pessoas? A grande medida que desincentivaria o abuso do carro em Portugal seria a aplicação eficaz dos artigos 49.º e 50.º do C.E. Outras medidas devem ser tomadas, mas essa é a fundamental.
E quanto à esperança de que as portagens seriam utilizadas no melhoramento do transporte público... em Portugal, MC? Acreditas mesmo nisso?
Boas pedaladas.
De MC a 15 de Abril de 2013 às 16:47
1. Desculpa, a frase é pouco clara de facto. Resumidamente é como atrasar 10 minutos todas as pessoas na fila.

2. A comparação era apenas para mostrar que, apesar de os atrasos provocados serem semelhantes em termos de tempo perdido pelos outros, a sociedade tem comportamentos de aceitação diferentes.

3. Nunca percebi porque é que essa história da margem Sul prova que as portagens não funcionam... já ouvi várias vezes, mas nunca ninguém explica. Para dizer que não funciona é preciso comparar com um contra-factual, comparar com a situação da ponte sem portagens. Ora ninguém o quão pior estaria a situação se não houvesse portagens. Sem saber isso, não se prova absolutamente nada.
De Iletrado a 17 de Abril de 2013 às 17:30
Caro MC
3. Creio não ser necessário fazer tal comparação. Apesar de não existir portagem na ponte 25 de Abril durante o mês de Agosto, suspeito que não te chegue para comparação. Sendo assim, temos duas soluções: ou eliminamos a portagem durante um ano, para efeitos de comparação (creio não ser possível); ou pensamos um pouco. Pensemos no seguinte: precisas de te deslocar a um determinado local e decides ir de carro. Para lá chegar tens de pagar uma portagem. Mas sabes que encontras sempre sítio para estacionar a lata à borla, bastam 20 metros quadrados de passeio e o assunto está arrumado. Agora criemos outro cenário: precisas de te deslocar a um determinado local e pensas ir de carro. Para lá chegares não tens qualquer portagem. Mas sabes que estacionar lá é uma dôr-de-cabeça, pois os lugares para estacionar são escassos e os estacionamentos ilegais são severamente punidos. Talvez ponderes a necessidade de te deslocares de carro. Talvez chegues à conclusão que é mais barato e mais prático ir de transporte público ou de bicicleta...
Não creio estar a criar cenários irreais. Conheço pessoas que me afirmam preferir o transporte público para passear nas cidades estrangeiras que visitam, ao invés do carro, justamente porque "é um pesadelo circular e estacionar o carro" nessas localidades.
Só uma ressalva: não quero com isto afirmar que a portagem é inútil. Pode ser um complemento, mas não creio que seja a solução. Com a actual política de transportes, dificilmente as portagens servem de dissuassão. E não te esqueças que os governos olham para as portagens como fonte de receita e não como entraves à utilização do carro. Ora, se queres receitas, então não podes colocar entraves...
Boas pedaladas.
De MC a 17 de Abril de 2013 às 17:43
1. Agosto não serve de comparação, é um mês completamente diferente logo à partida.

2. Não é preciso fazer uma experiência de um ano para tirar a conclusão, existem imensos estudos sobre esse tipo de escolhas. Basta pensar no caso de Londres, onde a introdução e a posterior subida do preço tiveram fortes impactos.

3. Concordamos que o estacionamento pago é ainda mais importante que a portagem. Por isso mesmo, falo muito mais vezes no primeiro do que no segundo!
Repara ainda que há pessoas que não pagam estacionamento (garagem da empresa por exemplo), e essas não estão a ser penalizadas pelos 200 minutos de atraso que criam :)
De Miguel a 17 de Abril de 2013 às 18:39
Embora seja um mês atípico, a comparação com Agosto não é tão estúpida como parece à primeira vista: antes de haver portagens nesse mês (desde 2010 ou 2011 que as há), Agosto era o mês com mais tráfego médio diário na ponte! Num mês onde montes de gente está de férias.
Quem quiser pode ir ao INIR e ver a evolução do tráfego no mês de Agosto antes e após a introdução de portagens e comparar isso com a evolução do tráfego de ano para ano nos outros meses.
De MC a 17 de Abril de 2013 às 19:52
Comparar (Ago(sem portagem)-Resto do Ano(sem)) com (Ago(com )-Resto do Ano(com)) já é mais razoável, mas estaríamos na mesma apenas a analisar as escolhas dos automobilistas de Agosto - que fazem viagens atípicas: o universo em causa é diferente, o propósito da viagem é diferente, a partida e a chegada são diferentes, as alternativas disponíveis são diferentes, etc.
Dir-nos-ia muito pouco ou nada sobre as escolhas dos automobilistas que usam a ponte no dia-a-dia.
De André a 17 de Abril de 2013 às 18:59
Como já disse acima concordo com as portagens e acho que pode proporcionar uma mudança de comportamentos. No entanto, também acho que as portagens dentro das cidades podem ser prejudiciais para muitas pessoas. Quem tem de ir trabalhar de carro para o centro e vive na periferia muitas vezes tem de passar horas nos transportes públicos (falo com conhecimento de causa, junto do local onde vivo agora). Enquanto as pessoas tiverem de esperar vinte minutos por um metro fora da hora de ponta, com um bilhete bastante caro (para o bolso da maioria dos portugueses) quando de carro podemos fazer o percurso pretendido num quarto de hora (ou menos), porque não estamos a falar da hora de ponta, nunca será possível implementar uma política que leve as pessoas a usar verdadeiramente os transportes públicos, simplesmente porque as tarifas tornam qualquer relação qualidade preço insustentável.
Neste momento a melhor opção seria usar mesmo o dinheiro das portagens para pagar os transportes públicos, tornando-os mais rápidos e mais eficientes.
E se as pessoas deixarem de usar o carro pessoal? Duvido que isso aconteça. Depois desta crise, todas as pessoas que usavam os transportes públicos por serem mais baratos (apesar das perdas de tempo) vão voltar aos seus carros pessoais.

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