Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Psicologia do estacionamento abusivo ou em segunda fila

Como já escrevi diversas vezes, a bicicleta, entre outras vantagens, possui a inegável capacidade de revelar ao seu utilizador muitos mais pormenores da cidade do que outros modos de transporte.

 

Como ciclista, um dos fenómenos em que mais reparo, devido à sua ocorrência elevada, é a quantidade de carros estacionados em segunda fila com os piscas ligados. Reparo neles porque são obstáculos, e nunca sei se dentro deles estará um braço prestes a abrir uma quiçá mortífera porta. O que vou dizer pode contudo ser aplicado também ao estacionamento abusivo.

 

Os donos de tais carros em segunda fila justificam essa paragem momentânea com os "minutinhos" que levam a fazer umas comprinhas na farmácia, no supermercado, na tabacaria, no oculista, etc: "vou ali e já venho" é o mote, e por isso não consideram que valha a pena andarem uns minutos extra em busca de um lugar livre. Claro que os problemas de tráfego que geram por estarem na faixa de rodagem não entram na sua contabilidade ou consideração. É para mim frequente ver um autocarro encalhado ao pé de um carro a piscar; este álibi luminoso é suficiente para que o seu dono não tenha qualquer pejo em prejudicar quem anda de transportes públicos.

 

Para qualquer percurso, qualquer viajante traça um mapa mental com o trajecto entre o ponto em que se encontra e o ponto em que estará; este mapeamento mental vem contudo afectado por sermos, automaticamente, pessoas que andam, peões. A própria projecção desse mapa mental vem por isso enformada pelo facto de nos imaginarmos a falar frente a frente com uma pessoa atrás de um balcão, pedindo-lhe um serviço.

 

Só que o mapeamento do trajecto em automóvel não pode assentar numa simples ligação de pontos; devido ao espaço que ocupam, um trajecto no espaço feito em automóvel tem de assentar numa ligação de zonas, não de pontos. Enquanto pensar como um ser humano andante, como o peão que é, qualquer condutor vai querer ficar com um lugar escancarado a poucos metros do destino final. É esta ilusão que força a existência do estacionamento em segunda fila e do estacionamento abusivo. Este facto psicológico corre em paralelo à consideração do automóvel como algo que só tem vantagens; as desvantagens, como o tempo gasto em congestionamento ou na procura de um lugar livre, são ilusóriamente obliteradas, para prejuízo de todos.

 

A não ser que os políticos julguem ser mais fácil modificar o comportamento humano (as tragédias do séc. XX incorreram nessa tentativa de criar um novo homem), este facto psicológico deverá nortear o planeamento do estacionamento. Um condutor pensará sempre como um ciclista (e como um peão), querendo sair do seu assento a escassos metros do seu destino. A fiscalização autoritária e recorrente deverá constituir uma barreira dissuasora sem qualquer receio de ser criticada.

 

Dado o seu tamanho e flexibilidade de estacionamento, conclui-se que a bicicleta é o meio de transporte mais adequado ao modo como a mente humana planeia o seu percurso no espaço citadino. O uso de qualquer outro modo de transporte incorrerá em problemas na racionalização do uso do espaço.

publicado por TMC às 19:33
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1 comentário:
De Vinicius Martim a 24 de Junho de 2011 às 19:14
Aqui no Brasil temos esse mesmo problema.
Gostaria de sugerir algum dia para alguma autoridade corajosa o slogan "Ligar o pisca alerta não o torna invisível".
Como sou ciclista por aqui, vejo esse mesmo problema que você colocou. Os carrólotras acham que toda cidade tem de ser feita para eles, para eles pararem onde quiserem... e felizmente, para o bem da maioria, a cidade ainda é feita para pessoas. Espero que nunca vire um grande estacionamento, assim como os motoristas querem.

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