Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Mais estações de metro, NÃO.

O metropolitano de Lisboa, uma empresa pública com elevados montantes de dívida, anunciou que quer construir mais estações no "miolo" da cidade de Lisboa.

 

Não concordo. Isto não se deve só a sucessivas derrapagens orçamentais na gestão da empresa, ao incómodo causado nos cidadãos pela dimensão dos estaleiros das obras ou ao crónico prolongamento para além dos prazos estabelecidos do tempo de obras. Razões talvez mais do que suficientes em tempo de vacas magras e que traduzem a habitual voracidade de recursos públicos para empresas da capital portuguesa.

O metro é o modo de transporte público mais importante para a cidade de Lisboa; mas tudo é que é demais é em erro. Esta empresa quer provocar a crença na necessidade da sua nova oferta.

 

As estações anunciadas no miolo (são Bento, Santos, Alcântara, Estrela) não têm razão de ser. Por várias razões. O metro não tem de ser a única rede de transportes que pela sua elevada densidade proporcione a garantia de acessibilidade. Ele tem é de ser complementar a outras redes já existentes. É absurdo querer densificar-se tanto a rede de metro, porque a oferta de pontos de embarque não está só a cabo de uma modalidade de transporte público.

 

 

 

Nesta época cabe mais às empresas de transporte a tarefa de articular o que já se tem: metro, comboio, autocarros e eléctricos; escalavrar durante anos os subterrâneos da capital é uma aventura onerosa, exactamente daquelas que tem todas as condições para correr mal. Por custos mais baixos, a bilhética poderia ser simplicada e as estações de comboio urbanas da CP poderiam ser concertadas com o metro num passe e mapa únicos.

 

 

A lógica de densificação de estações de metro no miolo está também, quanto a mim, profundamente errada. O meu pressuposto é que a distância entre as futuras estações será talvez demasiado curta, obrigando a gastos desnecessários;  como no Rossio e na Baixa-Chiado ou nos Restauradores e Martim Moniz, quatro estações bem no centro da cidade e que poderiam ser praticamente todas reduzidas a uma. Esta lógica quer fazer das pessoas deficientes motoras, como se andar a pé durante dez minutos fosse uma condição a ser "melhorada" por mais tecnologia, ao invés de uma capacidade inata a ser estimulada.

 

Outro aspecto desta lógica é o prolongamento e salvaguarda do estatuto privilegiado do modo de transporte à superfície: o automóvel. O seu uso deveria ser o mais limitado possível precisamente no miolo. O metro não faz isso porque não entra numa competição directa com ele pelo mesmo recurso limitado: o espaço. O que deveria ser feito em termos de transportes públicos no miolo de Lisboa, além da já referida articulação, era a adopção de eléctricos de baixa capacidade mas de elevada frequência, como uma ligação entre as Amoreiras e Alcântara, por exemplo, através da Rua de São Bento. Ao entrarem em conflito directo com o automóvel obrigariam os decisores a escolher entre privilegiar apenas um dos dos dois. Claro que aqui já estamos no plano da utopia.

 


A cicloficina dos Anjos está com uma saúde incrível. De frequência semanal, tem tido uma elevada afluência e ajudado a dinamizar a comunidade de utilizadores de bicicleta de Lisboa. Como participante activo, recomendo uma visita ao respectivo blogue e facebook!

 

Não esquecer também que nesta sexta-feira há outra Massa Crítica, no Sábado o evento CycleChic repete-se e no Domingo temos a primeira World Naked Bike Parade em Portugal!

publicado por TMC às 19:00
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11 comentários:
De mlz a 23 de Junho de 2011 às 22:49
Comecei a ler este post com alguma relutância, devido ao titulo. No final tenho de concordar com algumas das observações. A frequência de estações de metro em alguns locais é ridícula. De tal forma que funciona contra os utilizadores e não a favor. Cada estação a mais significa mais tempo de percurso final para o Metro.

Sobre Alcântara, continuo a achar que havia uma solução muito simples e económica a desenvolver naquele local. A linha até já lá está portanto é uma pena os comboios que param em Alcântara Terra não sigam para Algés, por exemplo. (sugiro Algés por ser uma estação maior e onde param mais comboios). Este comboio é muito relevante: dá ligação ao comboio da ponte, cruza 4 linhas de metro uma das quais no Oriente, onde faz ligação/interface com a linha do Norte.
Naturalmente seriam necessárias algumas adaptações para melhorar a segurança do comboio a cruzar a estrada em Alcântara, mas parece-me um custo mínimo face a outras soluções (sim os carros iam ficar penalizados ali).
De TMC a 26 de Junho de 2011 às 12:47
Viva,

Em relação à ligação entre Alcântara-Terra e Algés, creio ser um prolongamento recheado de dificuldades técnicas devido à diferença entre as bitolas.

Eu sugeria que o mesmo bilhete de metro possibilitasse o o transbordo entre as estações de comboio urbanas, reduzindo, por exemplo, uma viagem entre o Oriente e Alcântara a 15m.
De mlz a 28 de Junho de 2011 às 10:18
Viva TMZ...
A questão das bitolas é informação de fonte segura ou é "diz que disse"?

Sobre o bilhete, a tua sugestão é muito pertinente.
Ainda não é o que pretendes, mas, dou os parabéns à CP por ter aderido ao "zapping". É verdadeiramente útil. Finalmente posso circular em quase todos os transportes com um cartão apenas (há ainda empresas que não aderiram).
De Anónimo a 24 de Junho de 2011 às 01:49
epá, discordo por completo.
De CAV a 24 de Junho de 2011 às 10:33
Discordo por completo tb. O metro é o meio mais rápido e flexível que existe e deve chegar ao máximo de locais possíveis. Veja-se o caso de Paris que vai expandir a sua rede apesar de já ser imensa.
De Miguel a 25 de Junho de 2011 às 22:07
"Veja-se o caso de Paris que vai expandir a sua rede apesar de já ser imensa."

Veja-se:
1. A densidade de Paris
2. O PIB per capita da região
3. O modo de financiamento dos TP na região (imposto extra sobre o trabalho para esse fim)
De TMC a 26 de Junho de 2011 às 12:52
O facto do metro ter características vantajosas não nos deve fazer esquecer que a sua implementação custa muito dinheiro. De outra forma, achamos que o ideal De ter a cidade toda coberta pelo metropolitano é algo possível e desejável.

Os recursos são escassos e existem outras alternativas de transporte. Preteri-las só em função de uma alternativa onerosa não faz sentido, ainda para mais numa empresa com um histórico de derrapagens e conservando a lógica de não mexer na eficiência de transporte de pessoas à superfície, i.e., conservando o estatuto privilegiado do carro e não investindo em autocarros e eléctricos.
De Joana a 24 de Junho de 2011 às 11:10
O metro é o melhor transporte público de Lisboa. Pela própria natureza deste tipo de transporte (a ausência de cruzamentos permite significativos ganhos de tempo), mas sobretudo por más razões: é o único cuja circulação não é perturbada pelo Senhor Automóvel. À superfície, um elétrico pode ficar muito tempo parado por causa de um chico esperto que deixou um carro mal estacionado e o autocarro andar a passo de caracol graças aos engarrafamentos provocados pelo Senhor Automóvel.

Eu prefiro mil vezes a solução do transporte público de superfície - incluindo o metro de superfície e o eléctrico. Debaixo de terra a cidade não se vê e não se sente. As pessoas andam muito mais carrancudas quando viajam assim, debaixo de terra.

Eu também lamento que a grande prioridade em matéria de transportes públicos em Lisboa continue a ser o metro (subterrâneo), que, aliás, como dizes, serve muito ao Senhor Automóvel.

E essa prioridade dada ao metro subterrâneo é ainda mais estranha num país à beira da bancarrota...
De Filipe a 3 de Julho de 2011 às 15:54
O ML é o pior transporte público de Lisboa e assim que li o título fiquei muito contente pela posição tomada.
A rede de ML básica, mais os muitos erros da companhia, está já construída, faltando alguns pequenos ajustes como o de ligar o Aeroporto ao Campo Grande na melhor oportunidade.

Tudo o resto é particularmente acessório e o dinheiro que daí se poupa é particularmente importante para o investimento na reformulação da rede de autocarros, particularmente da ligação Cais do Sodré-Amoreiras-Sete Rios e Santos-Marquês de Pombal-Praça do Chile, com autocarros multi-frequentes e com grande parte do trajecto em corredor dedicado (estilo Estrada de Benfica).
De Efcm a 12 de Julho de 2011 às 11:43
Não existe qualquer diferença na bitola entre a linha de Cascais e as outras Linhas portuguesas.

Os comboios da linha de cascais GEC foram construidas pela sorefame na Amadora e não foram a voar até a linha de Cascais...

Existe diferença sim mas no tipo e voltagem da corrente electrica usada na linha de Cascais
De Manuel a 26 de Outubro de 2011 às 10:03
Compreendo os argumentos financeiros, circunstanciais.
Mas o argumento que uma linha de metro subterrâneo sirva os interesses do "automóvel" é errado, ver por exemplo Londres. Se se quer limitar o carro, limita-se. E a existência de uma rede eficaz de transportes - seja ela de superfície ou subterrânea - é o melhor estímulo possível à não utilização do carro. Madrid, Paris, Londres, e por aí fora.

O problema é que já estamos no fim da questão e não no início: está tudo construído a bel prazer dos construtores, com a ajudinha das câmaras, e agora é difícil fazer túneis, bem como faixas para bicicletas e eléctricos de superfície. Quem fez mal as cidades, que pague agora (não, não foi só há 50 anos, é ver como foi construída a expo).

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