Sexta-feira, 11 de Março de 2011

O preço justo para o estacionamento

Por que é que não existem garagens privadas para estacionamento?

 

A comida do meu jantar, a minha roupa, o café que me foi servido, a electricidade para o meu computador e o meu computador, tudo isto são serviços e bens que são fornecidos por empresas privadas. Há poucos serviços (e bens duvido) que são fornecidos, e ainda bem,pelo Estado, como saúde, educação, segurança e pouco mais, e mesmo para estes o Estado está longe de ter um exclusivo. Há hospitais, escolas e seguranças privados que fazem os mesmo que todas as empresas fazem: cobram um preço um pouco acima do custo do serviço/bem.

Há contudo um serviço que desafia totalmente esta lógica, o estacionamento. Para poder ter um espaço para viver tenho que pagar, mas para ter um espaço para o automóvel ficar espera-se que seja gratuito. No caso do estacionamento à superfície, não colhe o argumento de ser espaço público, porque ele deixa der ser público a partir do momento que é ocupado com um automóvel. Esta ocupação deve ser paga, para desincentivar o seu abuso tal como acontece a todas as outras ocupações do espaço público, como andaimes, esplanadas, etc que pagam e bem.

Mas eu pensava mais no estacionamento em garagem. Apesar de muitos automobilistas e autarcas portugueses nos tentarem convencer que há espaço suficiente nas nossas cidades para estacionar à superfície, destruindo o nosso espaço urbano e matando as nossas cidades, é óbvio que não há. Muitos automobilistas esperam então que sejam as câmaras a pagar o estacionamento subterrâneo... elas de facto fazem-nos quase de borla em vários locais. Agora chego à pergunta do início? Descontando estacionamentos concessionados pelas câmaras, praticamente não existem empresas privadas a prestar este serviço nos nossos bairros. E porquê? Porque por alguma razão estranha aceitamos que o carro deve seguir uma lógica diferente de toda a sociedade, mesmo que isso implique ter cidades destruídas e transformadas em parques de estacionamento. Ao contrário da comida, da roupa, da habitação, etc. nós não estamos disponíveis para pagar o custo que acarreta estacionar um automóvel. Logo não há empresas a prestarem este serviço.

Nos Estados Unidos, há mais serviços prestados pelos privados do que por cá, o estacionamento é um deles. Numa das poucas cidades densas que existem, Nova Iorque, tirei esta foto à porta de uma garagem:

38 dólares para duas horas. Isto é o preço justo em Nova Iorque. Por cá seria menos (as rendas são mais baixas), mas não as ninharias que meia-dúzia paga.

 

....................................................................

O Reinventing Parking tem um post interessante sobre as tendências da gestão do estacionamento na Europa.

publicado por MC às 20:32
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11 comentários:
De Iletrado a 12 de Março de 2011 às 20:59
Caro MC
Excelente artigo!
Peço-te autorização para imprimir este teu texto e distribuir aqui pela minha zona, onde finalmente começo a observar alguma receptividade na mudança do paradigma automóvel. É possível que tal se deva à recente escalada de preços dos combustíveis, não sei, é pura especulação. Conforme já comentei anteriormente, não gosto de utilizar argumentos circunstanciais, mas se não aproveitar esta boa onda agora, não sei quando o poderei fazer.
No entanto, há um pequeno reparo que tenho de fazer ao teu texto. Lembra-te que o Estado fornece um bem: o pequeno Magalhães. :)
Boas pedaladas.
De MC a 15 de Março de 2011 às 18:22
Obrigado.
E por favor, não precisas de autorização para o divulgar!
De MC a 15 de Março de 2011 às 18:23
Ah, e sim, tens toda a razão! O Magalhães é de facto um exemplo ;)
De Pedro M. a 3 de Abril de 2011 às 18:55
Quem me dera que o Magalhães fosse uma bicicleta de montagem nacional, e acompanhada de um programa do tipo "de bicicleta para a escola".
De paulo a 13 de Março de 2011 às 22:55
Bom post como de resto o blogue existe alguns textos em que posso discordar abordagem mas no geral é Bom.
Um abraço e boas pedaladas.
De CAV a 14 de Março de 2011 às 13:28
Segundo a crença popular o carro é um bem indispensável e o estacionamento um direito (provavelmente até pensam que vem na constituição). E para a grande maioria uma prioridade, muitas vezes acima da educação e alimentação. Reclamam e fazem até manifestações devido ao aumento das portagens das SCUTS, mas comem e calam o aumento de impostos, saúde, alimentação, educação, etc...Por isso, acham mesmo que alguma coisa irá mudar?
De Helder a 14 de Março de 2011 às 16:20
Não percebi...

Concordo, claro, com o principio e custa ver uma cidade inteira tapada com automóveis e custa ainda mais ver habitações recentes em que ou não é acautelada a questão do estacionamento, garagens, ou as mesmas são insuficientes, exemplo claro o de Odivelas.
Mas, em relação ao estacionamente pago privado, tanto em Liboa, como por exemplo Viana do Castelo (neste caso não necessáriamente subterrâneo) os exemplos existem, parques pagos que não pertencem a autarquias.
De MC a 15 de Março de 2011 às 18:30
Eu disse "Descontando estacionamentos concessionados pelas câmaras" :)
Não conheço o caso de Viana, mas em Lisboa as empresas privadas que os gerem têm contratos de serviço com a câmara. Ou seja, não são exactamente privados.
Eu referia-me mesmo a haver empresas que comprassem edifícios ou terrenos para construirem parques de estacionamento - tal como fazem para supermercados, lojas, escritórios, etc. Em Nova Iorque há muitos exemplos assim, e em Lisboa há imensos espaços que poderiam ser usados para tal. Mas lá está ninguém o faz, porque nenhum automobilista estaria disposto a pagar o preço justo pela coisa.
De T. a 28 de Setembro de 2011 às 22:42
Gosto muito do seu blog e esotu a pensar comprar e usar uma bicicleta para o trajeto casa/trabalho/casa. Daí estar a ler o seu blog. No entanto devo referir que para eu estacionar o meu carro, já pago impostos (IUC), imposto para poluir (na gasolina) e EMEL.
De MC a 6 de Outubro de 2011 às 14:58
Viva,
o IUC e o ISP estão relacionados com o pagamento da circulação, nao do estacionamento! Por outras palavras, um carro que fique numa garagem privada, também pagam esses dois valores.

O pagamento simbólico à EMEL, é de facto um pagamento pelo estacionamento, mas não é por eu pagar IMI que eu tenho direito a ter casa. Tenho que pagar a renda e o IMI.

Aqui eu apenas defendo que o estacionamento seja tratado como a habitação (apesar da habitação ser socialmente mais importante): o preço a pagar deve ser o valor de mercado, que vem da oferta e da procura. É isso que acontece fora de Lisboa, como mostra a foto. Queres um espaço para viver, deves pagar por ele de acordo com um preço que depende do tamanho, da centralidade, da disponibilidade, etc. Um espaço para estacionar deve seguir a mesma lógica.
De João Pimentel Ferreira a 2 de Agosto de 2012 às 12:04
Muito bom posto
Parabéns, está excelente.
Encaramos estas coisas como dados adquiridos que às vezes já nem pensamos nelas. Realmente o carro paga muito menos por m^2 o espaço que ocupa na cidade, em comparação com uma esplanada por exemplo...

Excelente artigo

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