Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2011

Apologia dos pilaretes

Um carro estacionado no passeio, parcial ou totalmente, aponta, na ausência de lugares vagos, para uma escolha do condutor acerca de quem prefere ele incomodar; sendo o espaço disponível limitado, o condutor manifesta com esse comportamento que prefere invadir o espaço dos peões do que incomodar os colegas automobilistas, estacionando na própria rua onde circulava. Uma buzina e as típicas bocas dos enfurecidos do trânsito podem mais que os peões cabisbaixos e desgraçados que “andam por onde podem”.

 

Uma rua com estacionamento abusivo pode transformar-se numa rua com passeios agradáveis de duas maneiras. Através da dissuasão por acções fiscalizadoras das autoridades ou por pilaretes, por impossibilidade física. A Polícia Municipal de Lisboa, por exemplo, convive com situações crónicas de estacionamento abusivo em locais bem identificados; ou é incompetente, ou não tem agentes suficientes, ou pretende manter a situação favorável aos condutores. Esta última hipótesse é explicada por absurdo: se a Polícia Municipal tivesse uma acção profissional e banisse significativamente ou de vez o estacionamento abusivo, acabava-se o seu propósito e os seus efectivos teriam de ser reduzidos. Fiscalizando, multando e bloqueando esporadicamente, vai conseguindo injectar nos cofres da autarquia alguns milhares de euros. É do seu interesse manter o estacionamento abusivo. Só que não é do interesse dos peões que essa situação se mantenha, tal como não deve ser de qualquer autarquia ou freguesia.

 

Um Polícia Municipal da capital ganhará à volta de 900€ e fiscalizará o estacionamento de uma rua durante um mês; passado esse mês, a situação, aos poucos, voltará ao normal e os automobilistas continuarão a fazer o que sempre até aí tinham feito.

 

Um pedreiro ganha o ordenado mínimo mais o pagamento à hora e num dia consegue instalar 40 pilaretes (eu próprio perguntei). O preço de um pilarete varia muito, podendo ir desde os 30€ aos 150€, consoante a função e a estética pretendida. Num mês, um pedreiro conseguirá instalar mais ou menos 800 pilaretes; se a distância entre pilaretes for de 1,5m, um pedreiro conseguirá impedir permanentemente o acesso a cerca de 530m de passeio.

 

A EMEL de Lisboa é bastante mais eficiente que a PM e funciona na mesma lógica; a sua fonte de lucro são as infracções dos condutores, pelo que não lhe interessa acabar completamente com essas infracções. Só que a EMEL administra e gere também parques de estacionamento, frequentemente vazios, pelo que conseguiria justificar a sua existência se endurecesse a sua fiscalização.

 

Acabe-se com a Polícia Municipal e invista-se o dinheiro nas freguesias que deverão contratar empresas que instalem pilaretes. Os peões agradecem. Outra questão que ignoro é se será legal associações de moradores comprarem elas próprias os seus pilaretes e resolverem a invasão dos seus passeios de vez.

 

Os automobilistas continuarão com falta de espaço para estacionar, claro; só que com a solução pilaretes instalada só poderão estacionar na própriar estrada, ao contrário do que costumam fazer. E nesse caso serão os outros automobilistas em trânsito a sentirem o seu espaço invadido, tal como deveria ser. O problema gerado por condutores retorna ao respectivo domínio: deve ser resolvido pelos condutores, e não pelos peões.

 

Nota: não quis defender que os pilaretes são uma solução universal para todas as situações de estacionamento abusivo. Em ruas estreitas não fazem sentido absolutamente nenhum:

 

 

 

 


Ver a situação desoladora do estacionamento na cidade de Coimbra; já antes o blogue A Nossa Terrinha tinha retratado a situação na Universidade de Coimbra; de certeza que assim serão património mundial da humanidade.

publicado por TMC às 13:06
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