Terça-feira, 4 de Janeiro de 2011

Av. Brasil: manual da hegemonia automóvel no espaço público III

(primeira parte)

(segunda parte)

 

A Avenida do Brasil em Lisboa é um triste exemplo de como temos deixado o espaço das nossas cidades ser conquistado pelo automóvel. Esta avenida é particularmente interessante por ser uma avenida (1) moderna, (2) larga, (3) numa das áreas onde houve planeamento urbano digno desse nome, (4) central, (5) com metro a 300m, (6) servida por imensos autocarros, (7) foi abençoada pelo plano de ciclovias, resumindo, teria tudo para ser um bom exemplo.

 

7. Pilaretes

 

Existem ocasionalmente alguns pilaretes ao longo da Avenida, mas o seu propósito não é bem claro. Estes parecem garantir que ninguém estacione em frente a entradas de garagens. O estacionamento no resto do passeio é bem-vindo:

 

Estes dizem que há um bocadinho do passeio onde não se deve estacionar:

Os seguintes (que já mereceram um post) têm uma mensagem muito clara: estacionar no passeio não é problema, desde que não se tape a publicidade.

 

8. "Mas há falta de estacionamento"

 

Se cabe aos moradores arranjar um local para morar, e aos lojistas um local para venderem, não percebo porque haveria de caber à câmara arranjar espaço para estacionar... Mas enfim, talvez a razão pela qual os proprietários acham que há poucos lugares seja porque estes venderam os espaços que havia disponíveis para outros fins, com óbvio proveito próprio, como por exemplo para comércio:

 

9. "Ciclovia"

 

A "ciclovia" foi criada por gente com boas intenções que infelizmente se teve que submeter servilmente ao senhor feudal, o automóvel. Não se podendo roubar espaço ao automóvel, meteu-se a "ciclovia" no passeio.

E sejamos justos, não chega a ser uma ciclovia. São uns bocados de passeio pintados de vermelho,

sendo que nos bocados não pintados o ciclista é convidado a meter-se pelos espaço exíguo dos peões - nunca pelo meio do automóvel:

Nos cruzamentos seria complicado determinar o percurso da ciclovia, de modo que mais vale deixar o ciclista desenrascar-se. Neste caso parece-me que a ideia é que o cruzamento seja sobrevoado, já que não existe ciclovia de um ponto ao outro:

Sendo que se optou por uma ciclovia bi-direcional (a coisa mais perigosa que se pode fazer), também não há preocupação com a segurança nos cruzamentos. Os carros não são avisados que vão cruzar uma ciclovia quando viram à direita. Há ainda obstáculos colocados pela câmara (nunca vi pilaretes no meio da ciclovia noutros países)

e obstáculos tolerados pela câmara.

 

 

Quando tentei circular na ciclovia perdi a conta ao número de sinais de perda de prioridade que existem (como se vêem em algumas fotos acima). Uma via a direito com constantes perdas de prioridade, isso chega a ser uma via para circular?

 


Um artigo do TreeHugger a ler: o melhor método de diminuir a sinistralidade de ciclistas, é aumentar o número deles.

publicado por MC às 19:21
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3 comentários:
De Sergio a 4 de Janeiro de 2011 às 22:57
Não entendo como é que deixam alguém fazer uma 'ciclovia' destas... não tem ponta por onde se pegue... se acham que alguém começa a andar de bicicleta com anormalidades destas, não pescam mesmo nada disto :(
Quanto ao resto... enfim, vai demorar bastante tempo a mudar mentalidades :((
De Sergio a 5 de Janeiro de 2011 às 17:45
Nao é perfeita, mas para mim é bastante melhor do que a alternativa de circular na faixa de rodagem da Av Brasil. Como utilizador frequente devo dizer que os troços que desgosto mais sao de confluencia com as paragens de autocarro e a passagem para o passeio sul (existe uma descontinuidade e nao é corretamente assinalada qual a forma de atravessar a estrada. Quanto às outras situaçoes de perda de prioridade, apenas há a assinalar os locais onde há semafóros (e também existem semaforos na faixa de rodagem por isso nao ha ai desvantagem nenhuma da ciclovia), a maioria das outras descontinuidades sao situaçoes de estacionamentos (entrada Julio de Matos, LNEC, etc.) com pouco trânsito automóvel e em que este se processa a baixa velocidade.
Outro grande problema da ciclovia é a sua utilizaçao maciça por peoes que por motivos de conforto a preferem ao passeio.
Os pilaretes parecem-me bem, antes dos mesmos lá estarem toda aquela parte do estacionamento antes do cruzamento com o Campo Grande era o estacionamento privativo de uma escola de conduçao.
O meu modelo de ciclovia favorito é o da R. Fernando Namora em Telheiras, em que se retirou uma faixa de rodagem ao tráfego automóvel, ainda que também esteja longe de ser perfeita, uma vez que os sucessivos cruzamentos com vias automóveis também a tornam perigosa.
De Iletrado a 6 de Janeiro de 2011 às 18:08
Caro Sérgio
Conheces alguma AE, caminho exclusivo para veículos motorizados, com cruzamentos? Uma ciclovia, caminho exclusivo para bicicletas, tem de obedecer aos mesmos critérios. Se assim não é, como é o caso aqui apresentado, é só uma maneira de retirar potenciais ciclistas da estrada, ao mesmo tempo que se ufanam de pensar nos ciclistas e poderem afirmar que, se estes não andam mais de bicicleta, é porque não querem. Conseguem prejudicar os ciclistas e os peões ao mesmo tempo. É o chamado dois em um. E o pior é que a vítima não se queixa.
Nunca utilizo esse(s) caminho(s). Vou sempre na estrada. A estrada nunca me reserva surpresas, porque sou obrigado a ir sempre alerta. Já sei que tenho de partilhar a via com um milhão de bestas. Nessa pseudo-ciclovia, pensas pedalar em segurança e, quando dás por ela, "levas" com um carro. Como me aconteceu na única vez que tive a leviandade de pedalar na pseudo-ciclovia de Belém.
Boas pedaladas.

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