Domingo, 31 de Outubro de 2010

Dois países

O caderno "Cidades" do Público traz hoje uma série de artigos sobre a realidade da mobilidade no interior do país. Neste blogue abordamos com mais frequência as desvantagens da utilização massiva do automóvel em meio urbano e a série de políticas públicas que seguiram o seu paradigma, redundando na proliferação das auto-estradas e redução dos serviços prestados pelo transporte ferroviário.

 

O princípio chave que sustenta todas as sucessivas críticas é que o direito à mobilidade, consagrado na constituição portuguesa, seguiu a equivalência de um automóvel por cidadão; o pensamento é o seguinte: com um automóvel poderemos chegar a qualquer lado, desde que haja estradas e estacionamento. Ora, é uma solução redutora: além dos defeitos para que temos apontado de modo sistemático, esta solução pressupõe que todos os portugueses têm capacidade para o fazer (com ou sem recurso ao crédito) e que o devem fazer.

 

O automóvel é uma boa solução enquanto existirem certas condições que o satisfaçam: estradas, viagens semanais frequentes, estacionamento farto ou fiscalização reduzida e inexistência de impostos que internalizem todos os custos envolvidos no seu fabrico e uso generalizado. Se as últimas condições são políticas e financeiras, as primeiras coincidem com o ordenamento do território de meio urbano. Em meio rural, um automóvel como solução universal de mobilidade não pode vingar porque a sua compra não seria justificável, e assim o direito à mobilidade raramente é assegurado, pois qualquer rede de transportes públicos implica custos adicionais; carreiras vazias e com baixa frequência, já que as aldeias estão dispersas, fragmentadas, longes da capital de distrito onde existem os serviços de farmácias, as escolas, os hospitais. Nem falemos da cultura.

 

O que os artigos demonstram é precisamente a existência de dois países e de um paradoxo: o que pensamos ser um enorme problema no país de meio urbano dado o excesso de automóveis ou, posto por outras palavras, dado o excesso de democratização da viatura individual, é, no país do interior rural, um enorme problema dada a escassez dessa mesma democratização. Aconselha-se a leitura desta peça, que traça o panorama geral, (depressa porque estes artigos tendem a desaparecer) e a procura de soluções em Bragança, Beja e em Castela-Leão.

 

A mensagem é a seguinte: a mobilidade é um direito, tornando-se por isso uma questão social por excelência e o automóvel simplesmente não é capaz de suprir esse direito em todo o lado. O país urbano é prejudicado pelo excesso do seu uso e o país rural é prejudicado pela falta do seu uso. Enquanto eu, vivendo em Lisboa, não me sinto prejudicado (e não prejudicando ninguém) por não usar um carro no acesso aos serviços que melhoram a minha qualidade de vida, no interior teria de ter um carro para garantir esse mesmo acesso; a questão é que ninguém deve ser obrigado a ter carro, mas deve ter direito à mobilidade. São coisas diferentes.


A Câmara Municipal do Porto instalou um brinquedo inócuo que diz aos peões quanto tempo têm para não morrer atropelados. Aumentar o tempo de passagem nas passadeiras complica sempre as contas dos engenheiros de tráfego.


Perante o novo plano de austeridades, a Associação Académica da Universidade do Algarve bate-se pelos direitos dos seus alunos. Como? Mais estacionamento para os carros dos estudantes, ora pois. Ver aqui (foto tirada do Spectrum).

publicado por TMC às 12:52
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5 comentários:
De regressivo a 31 de Outubro de 2010 às 15:46
Sobre esta implementação do contador regressivo do Porto não me pronuncio. Aqueles que contam o tempo que falta para o sinal passar a verde (seja para peões como bicicletas) são muito úteis. Tiram o stress da espera, porque se sabe quanto tempo falta para o sinal passar a verde. Por outro lado permitem optar por caminhos alternativos caso se perceba que o sinal acabou de virar vermelho e/ou que a espera é longa. Estão por todo o lado em Amsterdão e parece-me prático.
De Nuno Milheiro a 1 de Novembro de 2010 às 01:34
o cantador regressivo é porreiro. Como pedestre acho-o bastante útil, para saber se devo esticar o passo para chegar a tempo à passadeira, ou se já é tade demais. Podia ser útil uma versão para avisar quanto tempo falta para abrir também para poder esperar mais pacientemente.
O único senão, o que eu mudava no sistma é que fazia com que a primeira fila de carros parados no semáforo não os pudesse observar, pois encoraja os automobilistas a acelerar ainda antes do sinal abrir.
Bom bom era semáforos como os que vi na Itália, em que o botão destinado aos pedestres faz regularmente passar o sinal para laranja instântaneamente. Aqui em Portugal estou convencido que esses botões não estão ligados a coisa nenhuma
De regessivo a 1 de Novembro de 2010 às 10:42
lol. Tenho exactamente a mesma sensação em realação aos butões. Têm um papel decorativo!
E já que falamos de semáforos li algures há uns tempos (não sei se é verdade!!) que os autocarros (e serviços de emergência como ambulâncias) em Lisboa iriam ter um sistema que, quando aproximando de um sinal vermelho o fariam ficar verde mais depressa (para beneficiar os transportes publicos). Nunca vi tal coisa acontecer!!
De anarquista duval a 1 de Novembro de 2010 às 20:32
Relativamente ao pedido da Associação Académica da Universidade do Algarve, é verdade que pedem mais estacionamento, mas também melhores acessibilidades de transportes públicos e a construção de uma ciclovia. Não conheço a zona, mas creio que os acessos não devem ser assim muito "bike friendly"...
De Luís Ramos a 2 de Novembro de 2010 às 17:23
O caricato é que os cidadãos do interior sustentam através dos seus impostos as empresas estatais de transportes públicos de Lisboa e do Porto. Subsidiam ainda o passe social. Há situações no interior do país em que para ir ao hospital mais próximo se tem que ir de carro e pagar 30Km de auto-estrada (a partir de 15 de Abril). No interior fecharam as escolas, os centros de saúde, as maternidades, os serviços nos hospitais, os postos dos Correiros, a farmácia e o mini-mercado. Entregaram ao transporte público a privados que só querem saber da rede expressos. Para se conseguir trabalhar tem que se ter viatura privada. Solução? Lisboa ou a Europa…

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