Segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Uma ideia não tão brilhante - por que é que eficiência pode ser má

O Economist tem um artigo sobre um perigo escondido das lâmpadas mais eficientes, que é resumido no subtítulo: Tornar a iluminação mais eficiente pode aumentar o uso de energia, em vez de diminuir. O próprio título declara com um trocadilho Uma ideia não tão brilhante.

A história em causa, atestada por um artigo científico, é simples. Quanto mais barato for um produto, mais consumimos dele. E ter uma lâmpada economizadora é equivalente a pagar menos pela eletricidade. Ora se por um lado cada lâmpada gasta menos, por outro ao termos eletricidade mais barata vamos usar mais lâmpadas e por mais tempo. Esta segunda consequência, este tiro pela culatra, é chamado rebound effect e pode até ser maior que o primeiro efeito, o da poupança. O artigo em causa diz que esse deverá ser infelizmente o caso com as lâmpadas economizadoras, ou seja lâmpadas mais eficientes levam paradoxalmente a mais consumo no total.

Os carros elétricos não são diferentes. As contas rápidas que fiz aqui apontam no mesmo sentido, o carro elétrico (cujo o uso é mais barato que o convencional) poderá causar um aumento das emissões de CO2. E nem me vou referir às externalidades não-ambientais como congestionamento, sinistralidade, etc. porque o aumento dessas está garantido.

Se a ideia de mais eficiência equivaler a mais consumo parecer estranha, imagine-se o contrário: o que aconteceria se os carros gastassem 1000 l/km, ou seja fossem altamente ineficientes? Ninguém andaria de carro! Conclusão menos eficiência=menos consumo.

 

Pior, os carros elétricos têm duas agravantes em relação à lâmpada.

Primeiro, o que se passa com o carro é pior que um rebound effect. A lâmpada economizadora torna-se mais barata porque é mais eficiente, utiliza menos recursos para o mesmo efeito. Mas o carro elétrico torna-se mais barato não só por ser mais eficiente em termos de recursos, mas principalmente por passar de um combustível fiscalmente muito penalizado para outro que é subsidiado. Para quem anda de carro, os ganhos ao km em euros, serão bem maiores que os ganho em eficiência. Os efeitos poderão ser bem piores que o efeito da lâmpada.

Há ainda outro efeito menor, através do chamado efeito rendimento. Como os combustíveis levam uma parte significativa dos orçamentos familiares, ter combustíveis baratos não só leva a mais consumo pelo preço baixo, mas leva também as famílias a terem um orçamento mais desafogado, logo a consumir mais de tudo - inclusivé viagens de automóvel.

 

 


 

Tendo o tema da dívida pública como pano de fundo, aconselho a leitura de uma série de postas no A Nossa Terrinha sobre os nossos gastos megalómanos em alcatrão:

Os campeões das auto-estradas (1)
Os campeões das auto-estradas (2)
Os campeões das auto-estradas (3)
Os campeões das auto-estradas (4)
Os campeões das auto-estradas (5)

publicado por MC às 16:52
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6 comentários:
De Pedro M. a 18 de Outubro de 2010 às 19:11
Interessante, é algo análogo ao chamado Paradoxo de Jevons:

http://en.wikipedia.org/wiki/Jevons_paradox

Na minha opinião julgo que se estão a misturar duas coisas diferentes: a capacidade da tecnologia em poupar (ou não poupar) e a capacidade das pessoas em usarem eficientemente essa tecnologia.

Neste caso não penso que os comportamentos despesistas em relação a lâmpadas ou às (hipotéticas) poupanças dos carros eléctricos enfraqueçam por si a tecnologia. É no fundo um problema de educação.
De TMC a 18 de Outubro de 2010 às 20:07
O ponto é esse: é SEMPRE um problema de educação ou, se quisermos, de consumo responsável, consciente. A posta, a meu ver, só alerta para as optimistas panaceias universais com que os governos e empresas baptizam qualquer inovação tecnológica que permita, individualmente, melhorias de eficiência energética. De outro modo, estaremos sempre à espera da próxima invenção tecnológica que "resolverá" a presente situação; mas olhe-se à nossa volta: quantos dos nossos frigoríficos, computadores e carros não são mais eficientes do que aqueles de há 20 anos? Nenhum.
De peak oil a 18 de Outubro de 2010 às 23:27
Caro amigo,

Por quanto tempo achas vamos ter electricidade barata?

http://www.energybulletin.net/stories/2010-09-29/peak-oil-energy-sept-29
De MC a 18 de Outubro de 2010 às 23:52
Já tinha lido esse artigo, apanhado na newsletter da ASPO.
Mas isso em nada altera o que eu escrevi. Aliás, até acentua, porque os combustíveis subiram mais que a eletricidade.
De mlz a 19 de Outubro de 2010 às 13:26
Meus caros,

Creio que não vamos ter que nos preocupar com isso. Pensem no imposto que o estado recolhe com os produtos petrolíferos. Mesmo que não estivessemos em crise seria uma séria talhada no orçamento geral.
Não tenho grandes duvidas que outro imposto será criado sobre a mobilidade eléctrica para compensar a presumível diminuição do imposto sobre produtos petrolíferos. Infelizmente para nós que temos tido governos desgovernados e nunca sabemos bem como é evaporada a riqueza que geramos. Felizmente para nós porque, se o imposto for aplicado ao Km, terá um efeito regulador.
De Mario a 21 de Outubro de 2010 às 23:45
Duas observações, apesar de perceber que não se dê importância às externalidades nesta posta por razões de foco no argumento, elas até são muito importantes neste contexto. De facto, se o rebound for menor que 1 (isto é, menor que a poupança) em casos de consumos com poucas externalidades ainda valerá a pena a eficiência por si mesmo. No caso dos transportes em que as externalidades são enormes, basta um rebound muito pequeno para que o aumento de todas as externalidades que aumentam com as distancias percorridas tenha facilmente ter um efeito global negativo.

Só há de facto duas formas e evitar isto: fé na educação e na consequente adopção de consumos responsáveis ou aumento dos impostos de forma a
"rapar" todos os ganhos de eficiência da tecnologia. E já agora transferi-los depois para investimento em formas de transportes verdadeiramente sustentáveis.

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