Quarta-feira, 12 de Maio de 2010

Porquê andar a pé?

Qual é a principal diferença entre o andar a pé e andar de automóvel? Curiosamente, um automóvel deveria ser qualquer coisa que fosse capaz de auto-mover-se, mas parece que só classificamos os carros como os únicos objectos capazes de se automoverem.

 

É claro que a resposta depende do objectivo da deslocação. Se o meu objectivo for transportar móveis para uma mudança de casa não faz sentido carregá-los à mão pelas ruas durante todo o trajecto. Neste sentido, o andar a pé não pode competir com o automóvel. Porquê?

 

Nas cidades, o andar a pé é preterido com frequência pelo automóvel porque com este se consegue percorrer maiores distâncias em menos tempo. Quem está entre 10 a 20 minutos do emprego por automóvel demoraria talvez 40 minutos a pé até ao mesmo destino. Portanto, o argumento é de que com o automóvel poupa-se tempo na viagem para que se possa gastá-lo noutras actividades.

 

É comum dizer-se que o automóvel e outros meios de transporte vieram anular as distâncias. É aqui que reside um efeito pernicioso do automóvel. Enclausurados por metal e vidros, somos subtraídos ao ambiente exterior e através da velocidade estabelecemos uma relação com o espaço percorrido de passagem. A velocidade, tão prezada por nos poupar tempo (para quê?), resume a viagem apenas à chegada ao ponto de destino.

 

Ora, o andar a pé, ou melhor, o deambular, não é decerto uma solução para todas as deslocações, porque elas prestam-se a diferentes objectivos. Mas é aí que reside a sua importância. Mesmo que eu demore 15 minutos a pé até casa da Joana, o objectivo, apesar de ser ir visitá-la, acaba por ficar suspenso, porque vou percorrendo as ruas sem outro objectivo senão o de percorrê-las. Esta observação, aparentemente inócua, é precisamente o que o andar a pé e também de bicicleta facultam: uma maior atenção e sensibilidade ao espaço público, às redondezas, aos pormenores urbanos. O tempo demora, já não corre.

 

Se alguém duvida da importância do deambular como marca de uma maior consciencialização para a cidadania e para a natureza, basta verificar quais são os lugares em que de imediato notamos uma mudança no espaço: precisamente no local de emprego ou no local de residência, porque é aí que ainda fazemos uns minutos a pé entre o estacionamento do carro e a porta de casa.

 

Em resumo: só andando a pé é que nos ligamos ao mundo e em meio urbano ao que resta da cidade.

 


Alguns próximos oasseios pedestres na natureza e em meio urbano;

 

- "À descoberta do espírito do Douro", no dia 15 de Maio, organizado pela Oficina da Natureza;

- "Dias de Sicó" - passeio pedestre no Zambujal, no dia 16 de Maio, organizado pela Terras de Sicó;

-  Percurso pedestre em Paderne, também no dia 16 de Maio, organizado pela Almargem;

- O colectivo de arquitectos paisagistas Bound também organiza passeios regulares por Lisboa. É espreitar.

publicado por TMC às 12:51
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3 comentários:
De André a 13 de Maio de 2010 às 01:30
Belo texto.

Olha eu deambulo praticamente todos os dias de uma ponta à outra de Barcelos (centro da cidade)...belos 15/20 minutos do dia.
De Francesco a 16 de Maio de 2010 às 21:44
A pé, nas cidades diurnas, vejo a clareza dos dias, com pessoas montadas no corpo que têm. Esqueletos, uns, outros aflitos com o peso e poucos sabem saborear os caminhos acompanhados nesta viagem. Os carros, tomados pela pressa, lá vão eles para chegar ao destino. Rabugentos, desgastados pelo avanço, param a reclamar. Alguns saem e atravessam a cidade só para contemplar a falta de organização.
Mas quantos voltam mais tarde ao mesmo local.
De MC a 3 de Junho de 2010 às 12:20
(um pouco fora do contexto)
Nem é verdade que o automóvel tenha anulado as distâncias. É claro (e há estudos que o comprovam) que a sociedade do automóvel aumentou as distâncias a percorrer.
Há 50 anos tínhamos o pão trazido a casa, ou na esquina do bairro, hoje há quem compre o pão a 20 ou 30km de casa. Muita da vida da cidade foi atirada para os subúrbios onde há espaço para estacionar.

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