Segunda-feira, 3 de Maio de 2010

Tiro ao lado (2)

Por sugestão do leitor PJ, aqui seguem os gráficos das questões abordadas em baixo, seguidas de breves comentários. As fontes são, principalmente, a DGEG, via o Balanço Energético Anual, mas também o INE.

 

Parecia também estar mal explicado a diferença entre a fonte de um dado tipo de energia e o tipo de utilização final. Assim, por exemplo, a energia eléctrica que usamos pode derivar da queima de combustíveis fósseis (carvão, gás...) via centrais termoeléctricas mas também vir de barragens, ventoinhas ou até de biomassa. Assim, o petróleo que importamos e que é usado principalmente nos tranportes e na indústria, até ser convertido em combustíveis como a gasolina ou o gasóleo, tem de ser refinado e transportado. À energia disponível em bruto e ainda necessariamente sujeita a processos de transformação e transporte chamamos-lhe energia primária; à energia pronta a ser usada pelo utilizador sem estes custos chamamos-lhe energia final. É óbvio que esta tem de ser sempre inferior àquela.

 

O gráfico seguinte permite responder à dúvida do mesmo leitor:

 

 

Esta é a evolução dos consumos de energia final, em mega toneladas de petróleo equivalente; quando digo que o consumo de energia de petróleo é de 52,8% é de petróleo, não significa que o resto seja de energia eléctrica; de facto, há mais fontes de energia final, como o gás natural e a biomassa.

 

Os outros valores e relações de que falei estão nos gráficos seguintes. Espero que desta vez tornem tudo o que disse mais intelígivel:

 

 

1) repara-se na distância entre a linha verde e a linha vermelha! O debate actual sobre energia apenas respeita à altura da linha a verde.

2) veja-se a insistência, quanto a mim exagerada, na produção de electricidade de energias renováveis (linha a roxo) e da sua relativa insignificância quanto ao total

3) compare-se a semelhança de valores de energia eléctrica importada (linha azul) e de energia eléctrica produzida em Portugal a partir de fontes renováveis

 

 

1) parece haver uma contradição: porque é que até 2000 importávamos tanto petróleo (linha verde) (mais do que o total da energia final) e agora só importamos cerca de 90%? Bom, a razão não é que  nos tornámos mais parcimoniosos no consumo, embora a introdução de tecnologia tenha permitido mais eficiência em cada indústria. No caso dos transportes, o parque automóvel continuou sempre a crescer, embora cada veíclulo, por ser novo, exija menos combustível por km percorrido. Mas a razão principal deve-se à entrada do gás natural como substituição do petróleo nas termoeléctricas.

2) a roxo está a nossa dependência energética em termos de transportes rodoviários, em mercadorias e transportes de passageiros. Quase 40% e continua a aumentar!

3) a vermelho está a partição que é actualmente discutida no debate sobre energia na comunicação social apesar de...

4) ...a quantidade de energia eléctrica produzida domesticamente se ter mantido quase constante (linha azul escura)...

5) ...e a importação de energia eléctrica ter aumentado (linha azul clara)!

 

Tudo porque o consumo de energia eléctrica (linha vermelha) está a aumentar mais depressa do que a nossa capacidade de instalação de energias renováveis!

 

 

É por este gráfico que defendo que não vamos lá sem alterações de comportamento. Insistir em exclusivo nas soluções tecnológicas é fanatismo.

 

Comparados com os nívels de 1990, todos os consumos subiram. Todos menos o da produção de energia eléctrica, dadas as dificuldades de armazenamento e distribuição. Este aumento é previsível porque foi a partir de 1990 que, como todos sabemos, se deu o crescimento mais económico mais recente. Só que há vários tipos de aumento de consumo. Há uns que não são sustentáveis e que até são prejudiciais. É o caso. Produzíamos mais riqueza com a mesma quantidade de energia em 1990 do que agora. As linhas a azul (consumo de energia eléctrica) e a verde (procura de petróleo rodoviário) apenas assinalam a mudança estrutural que ocorreu. Temos agora uma economia de serviços, com muito mais urbanizações e que são exigentes em termos de energia eléctrica e em que a deslocação em automóvel particular é o paradigma.

publicado por TMC às 11:09
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1 comentário:
De PJ a 4 de Maio de 2010 às 01:43
caro TMC, antes de mais agradeço tão pronta disponibilidade em esclarecer as dúvidas! qem nos dera a todos q os gestores e políticos fossem tão solícitos!

de facto a conclusão a tirar é q existe uma enorme confusão entre EFICIÊNCIA, digamos, o rendimento de uma dado sistema tecnológico, e EFICÁCIA, conceito mais associado à atitude e sensibilidade das pessoas.

os sistemas tecnológicos têm aumentado progressivamente a sua eficiência, e lâmpadas de baixo consumo, certificações energéticas, motores de automóveis com maior rendimento ou então motores eléctricos, baterias de lítio, são a continuação dessa evolução apontadas no futuro próximo; no entanto, estes gráficos mostram q essa evolução na eficiência não é suficientemente forte para levar à diminuição de consumo energético e os resultados práticos são quase marginais.

não é q queria estar a repetir o q o TMC disse, mas de facto os gráficos demonstram simultaneamente que a mudança de hábitos/ configuração das cidades/ estilos de vida, têm evoluído desde os '90 em direcção a uma menor eficiência (digamos por isso q o nosso presente estilo de vida é de menor eficácia), pois muito sinceramente não vejo que outras razões senão estas poderão justificar essa evolução medida nos gráficos.

já agora, fica aqui um estudo público muito interessante, capaz de suportar a correlação entre configuração de cidade/ estilo de vida com o consumo de energia em particular em transportes:

http://www.statcan.gc.ca/pub/11-008-x/2008001/article/10503-eng.htm

cumps,
PJ

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