Quinta-feira, 22 de Abril de 2010

Curiosidades

Elaborei os seguintes gráficos com dados disponíveis no sítio do INE, Instituto Nacional de Estatística.

 

Não existem dados mais recentes, pelo menos do meu conhecimento.

 

O primeiro mostra a partição dos gastos familiares em 2006. É possível verificar que a partição gasta em habitação e alimentação, bens essenciais, são respectivamente de 14% e 15%, respectivamente. Os gastos em transportes ascendem a 14% e a roxo, com 1%, estão os gastos em ensino.

 

Gastos familiares médios em 2006

 

 

 

Terá a situação mudado em 15 anos? De todo. Algumas oscilações mas os índices de partilha mantêm-se mais ou menos os mesmos. Não tenho valores para outros países europeus; na ausência de dados são possíveis muitas leituras.

 

Uma delas: o parque automóvel aumentou imenso nos últimos anos: de 3301000 automóveis ligeiros em 1995 passámos para 5474000 automóveis ligeiros em 2006. Este enorme aumento traduz também o crescimento económico, reflectindo-se nas opções das famílias terem mais do que uma viatura. Se o índice se manteve mais ou menos na ordem dos 14% do orçamento familiar, então só poderemos dizer que também o mercado automóvel, em média, acompanhou essa procura, reflectindo-se no crescente preço final de um automóvel. Esta sedimentação do automóvel como meio de transporte preferencial acompanhou e até influenciou a edificação para lá dos núcleos urbanos e consequente fragmentação habitacional, levando a que, na ausência de transportes públicos - os novos edificados não os tinham sequer em conta - as famílias quase fossem obrigadas a usar o automóvel.

 

 

Tendências dos gastos familiares desde 1995

 

 

Uma política de planeamento urbano que resumisse a ocupação das cidades ao edificado já existente, não a expandindo, tornaria a opção automóvel secundária face a outras, simplesmente porque a deslocação casa - trabalho - casa seria feita em distâncias mais curtas. Claro que nesta política o preço da compra de uma casa ou da sua renda tem muita influência: é sabido que nos subúrbios as casas e as rendas são muito mais baratas. Se houver então uma auto-estrada que conduza à cidade sem custos adicionais, a opção está praticamente tomada. E os custos gastos em transportes não se reflectem nos custos para a sociedade.

 

Esta é, como disse, uma leitura possível, uma análise que não pretende ser factual. Por isso proponho o seguinte exercício aos leitores: façam umas contas de algibeira e vejam quanto pagam em transportes, habitação e ensino (se for o caso) de alguém do vosso agregado familiar. Poderão ver se estão abaixo ou acima da média das famílias portuguesas.

 

O meu caso em 2007:

 

- Transportes: < 1% (um ano a andar de bicicleta mais transportes casuais, para fora de Lisboa e viagens avulsas;

- Habitação: 24% (casa barata arrendada no centro da cidade de Lisboa)

- Ensino: <1% (proprinas do mestrado e bibliografia)

 

É verdade que vivia com mais duas pessoas mas penso que o orçamento não sofreria muitas mudanças. Também é verdade que não tínhamos filhos, e assim o ensino e os transportes estão muito abaixo do que poderá ser a maioria dos casos em Portugal.

 

E o leitor?

publicado por TMC às 11:49
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6 comentários:
De Nuno a 22 de Abril de 2010 às 12:56
Olá, excelente exercício + gráfico:

Gasto 50% em habitação e relacionados, 30% em alimentação e o restante em roupa/saúde e lazer.
Tenho um rendimento bastante modesto, como é óbvio e não é possível poupar ou ter luxos como viajar.

Antes usava o carro quase diariamente e ao fim de um ano apercebi-me que todas as despesas do mesmo sem a mensalidade do pagamento (portagens, gasolina, estacionamento, seguro, revisão) ultrapassavam facilmente as despesas correntes da casa! Isto num objecto que desvaloriza cada ano que passa.

Como o ordenado médio nacional é de 840 euros (deve ser á volta de 600 para a esmagadora maioria de população, como eu) escapa-me completamente como é possível que tanta gente ande tanto de carro quando este não é fundamental.

Mudar-me para o centro de uma cidade onde estou a 15 minutos a pé do trabalho eliminou imensos gastos e perdas de tempo.

Há quem meça a sua qualidade de vida pelo ordenado mas agora aparece cada vez mais o chamado "ordenado relativo" que tem em conta os gastos de tempo (atribui-se um valor ao tempo que se perde no commuting) e de dinheiro para ir trabalhar (refeições fora de casa e transportes).

Nem só as cidades e ambiente melhorava mas as pessoas seriam mais "ricas".
De TMC a 22 de Abril de 2010 às 13:05
Olá Nuno,

Obrigado pelas palavras.

Pois, faltou dizer isso explicitamente. É claro que o dinheiro que sobra de não usar carro fica comigo ou vai para outras coisas. E acaba por ser redistribuído noutros serviços. O sector automóvel vive muito de ser uma necessidade virtual.
De Joana a 22 de Abril de 2010 às 16:11
O que é mais engraçado é que nem sempre as casas nos subúrbios são mais baratas. Nos últimos tempos pesquisei bastante, por razões pessoais, e encontrei zonas com preços iguais ou mesmo superiores aos de Lisboa. Isto comparando unicamente tipologia (T1 com T1, etc.), área do fogo e qualidade de construção e de acabamentos. Portanto, em muitos casos eu tenho sérias dúvidas de que saia mais barato a quem vive nos subúrbios. Talvez na maioria saia, é o mais provável.

Noutra coisa que é preciso ter cuidado com os números é que os gastos com transportes não implicam necessariamente deslocação em automóvel ou apenas deslocação diária para o trabalho. Por exemplo, o que eu gasto em transportes no meu dia-a-dia é uma ínfima percentagem dos meus gastos (aliás, ando muito a pé; se calhar, também não chega a 1%), mas saio muitas vezes para fora de Lisboa, quer de comboio, quer de automóvel (quando não há comboio ou horários compatíveis). Quando a deslocação é em trabalho, esses gastos podem imputar-se nos custos profissionais. Mas se vou passar um fim-de-semana fora por mês ou umas mini-férias de uma semana para um sítio mais longe, os gastos podem ser significativos. No final, a minha parcela de gasto com transportes até pode dar os 14% (não fiz as contas) e isso nada ter a ver com as deslocações casa-trabalho.

A mim impressiona-me mais que os gastos com transportes sejam o dobro dos gastos com recreação, lazer e cultura. Os gastos financeiros e...o tempo gasto...
De Miguel Cabeça a 22 de Abril de 2010 às 16:43
A legenda do gráfico tem nove entradas mas o gráfico tem mais do que isso. O gráfico está completo?

Cumprimentos
Miguel Cabeça
De TMC a 22 de Abril de 2010 às 16:55
Erro meu e/ou qualquer coisa perdida na importação do Excel. Faltam:

- educação
- acessórios para o lar e manutenção
- hotéis e restaurantes
- bens e serviços directos

Não sei porque não agruparam, por exemplo, os hotéis e restaurantes na categoria lazer mas talvez seja para contabilizações do sector do Turismo.

E tu Miguel, estás acima/abaixo da média?

Abraço
De PJ a 25 de Abril de 2010 às 20:55
bom estes são os meus números:
30% - habitação (vivo no centro do porto);
8% - transportes, com utilização diária de bicicleta e/ ou transportes públicos para o trabalho (na periferia);
15% - transportes, caso utilizasse o automóvel diariamente, com consequente gastos em combustíveis e manutenção mais frequente;

podem achar que 8% até é um valor elevado, mas também sou ciclista "desportista", e como compreendem, há um orçamento inerente a esse gosto sempre bastante elevado..

isto faz-me é pensar que devia vender o carro de vez, que pagar um seguro e afins para andar nele para aí 6x ao fim de um ano, não compensa não..

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