Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Lisboa tem uma má rede de transportes públicos?

Longe de mim não ser crítico dos sistemas de transportes públicos de Lisboa. Não refiro o Porto porque não conheço tão bem o metro e o sistema de comboios suburbano respectivo.

 

Acho contudo que saíram injustiçados deste estudo. Admito que só conheço os resultados pela rama, ou seja, através da notícia. Não tenho acesso às metodologias empregues nem aos critérios escolhidos. O que escrevo de seguida baseia-se no que existe para qualquer outra pessoa.

 

O primeiro ponto que me saltou à vista foi a conclusão do director da FIA, Wil Botman: transportes eficientes com boas interligações são essenciais para persuadir as pessoas a deixarem os carros em casa.

 

É um ponto de partida errado. Está a desculpabilizar os utentes de automóveis, parecendo dizer que eles apenas os conduzem porque não existem transportes eficientes e boas interligações. Ou seja, primeiro ande-se e abuse-se de automóvel e se os transportes públicos forem mesmo bons, confortáveis e baratos, então experimentem-se. No caso de Lisboa, por exemplo, isso não se aplica de modo tão gratuito. A escolha modal das pessoas é não só económica mas cultural. O facto de não haver restrições tarifárias numa cidade ao uso do carro acultura o seu uso.

 

Seria preciso dizer que uma rede de transportes públicos cresce e desenvolve-se de modo cada vez mais eficiente na medida em que captar passageiros dos automóveis. Ou seja, seria preciso dizer, para cada cidade, quais são as restrições colocadas ao uso de automóveis, nomeadamente, o nível das tarifas de estacionamento, a existência de portagens, a regularidade da fiscalização do estacionamento abusivo, etc. Tal é relevante porque o uso de transportes públicos está em competição directa com o uso do transporte individual e se uma cidade permitir o uso desmesurado do último (como em Lisboa), o transporte público não tem tanto espaço para crescer e assim a sua rede não tem tantas hipóteses de se tornar mais robusta.

 

Este aspecto é facilmente negligenciado mas é tão mais flagrante quando se anda de autocarro ou eléctrico, porque são os tipos de veículo que partilham as ruas e estradas com o automóvel particular. A pontualidade é prejudicada, os tempos de espera aumentam e a regularidade do serviço passa a não ser tão digna de confiança, precisamente porque o espaço à superfície, por ser limitado, obriga a um equilíbrio; esse equilíbrio é destabilizado pelo automóvel particular, não por cada carro ter algo de peculiar no conflito com um autocarro ou eléctrico mas porque a sua quantidade ocupa o espaço viário e introduz assimetrias.

 

Isto não quer dizer que não haja melhorias que os vários operadores de transportes públicos possam tomar que melhorem a sua articulação. Apenas se deve ter em conta que na análise da qualidade da rede de transportes públicos de uma cidade não se pode omitir as condições de circulação dos carros, porque elas condicionam o uso e desenvolvimento dos primeiros.

publicado por TMC às 16:21
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14 comentários:
De Joana a 20 de Abril de 2010 às 17:43
Totalmente de acordo. Convém lembrar que quem fez o estudo foi o ACP e irmãos europeus...
Outra coisa que me fez confusão nesse estudo foi a posição relativa das várias cidades. Lisboa tem uma boa rede de transportes públicos, mas dizer que está ao mesmo nível de Paris...

Isto não tem nada a ver, mas aqui está um bom "post" sobre o pagamento de portagens nas SCUT:
http://www.aventar.eu/2010/04/20/sou-a-favor-do-pagamento-de-portagens-2/
De Dario a 20 de Abril de 2010 às 17:44
Pergunta incómoda: sabes quantos km de caminho-de-ferro construíram na Grande Lisboa desde o fim da monarquia?

ps: a rede do metro e eléctricos não entra nesta conta.

Vê lá se sabes...
De TMC a 20 de Abril de 2010 às 17:53
Provavelmente só os da Fertagus até Almada e Pragal. Não sei se o Fogueteiro ainda é da Grande Lisboa.
De Dario a 20 de Abril de 2010 às 17:58
Resposta afirmativa: Campolide a Pinhal Novo via Pragal.
Uns 30 km, depois digo com rigor.
De TMC a 20 de Abril de 2010 às 18:04
Não sei se haveria muito mais opções em termos de expansão da via férrea. Qual seria a opção, criar sublinhas em Sintra, Cascais, Azambuja?

Por outro lado, a diminuição da rede de eléctricos e a expansão do dispendioso metro são (outros) absurdos.

Um dado que não posso confirmar: a ponte 25 de Abril estar sempre entupida em horas de ponta e os barcos da Soflusa não estarem cheios.
De Dario a 20 de Abril de 2010 às 18:08
Linha do Norte-Loures-Oeste, uma grande circular a Lisboa a permitir um acesso rápido a todo o Oeste.
O West is the best...

Entre outras coisas.
De Joana a 20 de Abril de 2010 às 19:39
E ainda há as linhas que se ENCERRARAM na Grande Lisboa desde o fim da monarquia, entre elas o Ramal de Montijo e o Ramal do Seixal - que tanto jeito dariam hoje...
A necessidade de uma linha pelo canal de Loures é mais do que óbvia. Noutro país, estaria construída há muito.
Uma linha circular, sim. Tipo a começar em Algés e a terminar em Sacavém. No fundo, a CRIL férrea... Ou uma CREL férrea...
De Dario a 20 de Abril de 2010 às 19:41
"E ainda há as linhas que se ENCERRARAM na Grande Lisboa"

A juntar ao abate das linhas de eléctricos. É fazer as contas. Saldo negativo.
De pedro a 20 de Abril de 2010 às 19:24
colocar Lisboa Paris e Londres no mesmo patamar é no minimo engraçado.
De joão oliveira leonardo a 20 de Abril de 2010 às 19:27
A mim parece-me que um estudo que diz que o sistema de transportes públicos de Lisboa ou de Roma são melhores que o de Londres não merece grande credibilidade.
Para mais porque há pouco tempo algures um resumo do estudo (se não era este era outro semelhante) e o único mau indicador de Londres era o preço o que leva a crer que este factor teve uma ponderação exagerada para ter conseguido trazer o sistema para o fim da tabela
De CAV a 21 de Abril de 2010 às 11:01
Estes estudos apenas confirmam que esta gentinha nunca saiu do país onde moram. Comparar Lisboa com Londres é no mínimo hilário .
De TMC a 21 de Abril de 2010 às 11:41
Sei que a CREL da margem sul em modo rodoviário (claro) já está projectada.
De flip a 21 de Abril de 2010 às 19:20
apenas testaram a cidade de lisboa e não a grande lisboa. A cidade em si tem óptimos transportes públicos, mas o mesmo já não é valido para o resto da área meropolitana.
De Sergio a 27 de Abril de 2010 às 13:49
É tudo subjectivo, vivi 3 anos em Londres e considero os transportes na Grande Lisboa, sob muitos aspectos superiores (preço, limpeza, frequência, etc.)

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