Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

A falácia do uso das renováveis

A propósito da discussão sobre o uso de electricidade de fonte renovável há uma falácia que é irritantemente repetida.

Quando se diz que 40% da energia usada por um automóvel eléctrico é de fonte renovável, está implícito que esses 40% não têm impacto ambiental (admitindo por momentos que as renováveis não têm impacto ambiental, não sendo por isso indesejáveis). Este raciocínio só faz sentido quando é impossível evitar o uso desta electricidade. Na realidade é necessário pensar naquilo que em economia se chama o custo de oportunidade, ou seja é necessário comparar com as alternativas. Se a deslocação de automóvel nem fosse feita ou fosse feita de modos energeticamente mais eficientes, esses 40% de poderiam ser usados para reduzir a produção a partir de fontes não-renováveis. Quando um carro eléctrico consome 1 kWh, esse kWh vem assim a 100% de energias não-renováveis (90% dele se pensarmos que a deslocação seria feita de transporte público).

Por exemplo, se todos formos de Lisboa ao Porto de carro eléctrico cada um consume 100 de electricidade, 60 virão da carvão/petróleo e 40 virão de hídricas/eólicas. Dito deste modo, parece que apenas os 60 são negativos ambientalmente. Na realidade se fóssemos de comboio apenas teríamos gasto 10 de electricidade, menos 90 do que com o carro. A produção eléctrica nacional poderia ser baixada em 90. E onde iríamos baixar? Não nas renováveis, mas nas poluentes. Ao optarmos pelo comboio e não pelo carro, estaríamos a poupar 90 de electricidade não-renovável e não apenas 60.


 

 


Cartoon apanhado na mailing-list da World Carfree Network:

publicado por MC às 01:03
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4 comentários:
De Miguel a 21 de Janeiro de 2010 às 10:49
Existem alturas em que o teu raciocínio pode estar errado: se carregarmos o carro quando há excesso de energia eléctrica na rede (nomeadamente à noite quando as eólicas somadas às termoeléctricas no mínimo - já que não podem ser desligadas por tão pouco tempo - muitas vezes chegam para o consumo nacional) a energia pode efectivamente vir de renováveis e não haver produção não-renovável extra por ligarmos o carro à rede. Apenas estaremos a utilizar energia que muito possivelmente seria desperdiçada.
Claro que podemos complicar um bocado as coisas e dizermos que se gastarmos essa energia em excesso, então ela já não é usada nas barragens com grupos reversíveis, e por isso nos dias seguintes possivelmente poderão ser necessárias as centrais térmicas para compensar a água não bombeada nessa noite, e por isso o carro embora tenha andado a energia renovável, obrigou posteriormente ao uso de energia fóssil.
De MC a 21 de Janeiro de 2010 às 11:18
Miguel,
eu antecipei essa crítica, mas não quis complicar ainda mais o texto. O meu argumento não faz qualquer sentido obviamente quando falamos de um só automóvel.
Se houver 2 milhões de automóveis eléctricos, então a poupança em termos de produção eléctrica não-renovável, será (mais ou menos) igual ao consumo desses 2 milhões.

Pensando nas horas vazias, posso ter exactamente o mesmo raciocínio com um acumulador de calor. Se usarmos acumuladores de calor durante essas horas, teremos energia poupada nas horas cheias - energia que seria reduzida às não-renováveis.
De Miguel a 21 de Janeiro de 2010 às 15:04
Agora fizeste-me lembrar um colega meu na defesa da tese de mestrado dele. O arguente fez-lhe a primeira pergunta e ele responde: «Estava à espera dessa pergunta e até trouxe aqui a resposta escrita». lol
(quanto ao resto nem comento, porque obviamente tens razão)
De MC a 21 de Janeiro de 2010 às 16:25
:)
Aqui no blog acontece-me muitas vezes, só que prefiro deixar um texto que seja compreensível a todos em vez de entrar por pormenorzinhos.

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