Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

Resposta

Iniciamos aqui uma nova rubrica. Uma vez que a realidade não são as notícias, tentaremos actualizar o número de mortos nas estradas portuguesas para tentar colar mais ao osso essa trágica realidade que nos acompanha e da qual penso não estarmos bem cientes.

 

Uma vez que este governo teve a coragem - ou a honestidade - de contar o número de mortos na estrada tal como é feito no resto da Europa, é previsível que a queda no número de mortes registada nos últimos anos torne a aumentar. Até agora, apenas eram contabilizados as vítimas no local; a partir de 2010 passarão a ser registadas as mortes nos hospitais até 30 dias. E isso obrigará a campanhas e a estratégias mais restritas.

 

A resposta à pergunta feita há uns dias fala por si.

 

Em três anos e 2 meses morreram nas estradas portuguesas 2543 pessoas.

Cerca de 2 pessoas por dia.

Cerca de 16 pessoas por semana.

De 1 a 7 de Janeiro morreram já 18 pessoas.

 

Embora as principais causas de morte em Portugal sejam as doenças cardiovasculares e os vários tumores, os acidentes rodoviários assumem o protagonismo nas causas de mortes não naturais. Estimativas apontam para custos anuais equivalente a uma fracção não negligenciável do PIB. E as feridas abertas por mortes tão estúpidas e súbitas demoram muito a sarar.

 

Claro que as causas são múltiplas. Desde irresponsabilidade individual no que toca a embriaguez, falta de experiência ou fadiga até a problemas estruturais ou de desenho que propiciam uma maior ocorrência de acidentes. Acrescente-se em Portugal ainda alguns factores que considero contribuírem para esta situação:

  1. falta de tradição na justiça em condenar pelo menos um dos envolvidos em acidentes deste género por homícidio involuntário. A nossa cultura de paninhos quentes e irresponsabilização nunca faz doutrina com um caso; não sei se considerarão que a consciência pesada de um dos intervenientes já é castigo suficiente. Não é.
  2. ausência de uma campanha de prevenção rodoviária mais agressiva (com imagens chocantes porque a realidade é precisamente essa) que tenha presença constante nos horários nobres de todas os canais.
  3. falta da presença de uma educação defensiva nas escolas de condução. Por acaso lembro-me que quando tirei a carta a única vez que abordámos a sinistralidade rodoviária o instrutor referiu-se a ela da seguinte maneira: "não estão a tirar uma licença de condução; estão a tirar uma licença de porte de arma".
  4. Alta percentagem de deslocações feitas em automóvel, quer particulares quer de mercadoria, o que aumenta, é claro, as probablidades de acidentes rodoviários.

Parece-me que uma causa recorrente do mesmo fenómeno que são as mortes na estrada não pode merecer outro nome do que um problema de saúde pública. Arrisco aqui uma comparação Embora fumar não seja um acto tão inócuo (aparentemente) como conduzir, e fumar possa dar azo quer a doenças cardiovasculares, respiratórias ou ao cancro do pulmão, hoje em dia consideramos legítimo que quem queira fumar deva pagar a cada ano mais dinheiro pelo seu consumo; confinamo-los a locais próprios para o seu vício  porque de outra maneira prejudicariam a saúde dos demais e não temos qualquer problema em sublinhar nos próprios maços de tabaco quais as consequências prováveis de um fumador descontrolado. Nalguns países são os próprios maços de tabaco que têm imagens do que poderá vir a ser um futuro provável do fumador.

 

Acho que a comparação é válida porque há muitos pontos em comum. Quanto à vantagem pessoal, um fumador argumentaria que precisa do seu vício para trabalhar, para se concentrar, para simplesmente estar com alguém enquanto conversam. Parece-me precisamente a conversa daqueles que não se vêem a si próprios sem o seu automóvel. Convencidos da própria vantagem individual, atropelavam (no caso do tabaco, até bem há pouco tempo) os malefícios induzidos nos outros, até serem restritos a locais próprios. O mesmo espero que acontença com o automóvel: a sua entrada irrestrita nas cidades tem consequências danosas para o espaço público e para a saúde dos cidadãos, devendo de futuro os seus utilizadores pagarem cada vez mais por essa vantagem injustificada.

 

Finalmente, não vejo porque a tão laudatória e ridícula publicidade automóvel, presente em qualquer jornal, revista ou placard, não apresenta uma das consequências possíveis do uso generalizado do automóvel ao invés do seu apelo à potência, à velocidade ou à ecologia do veículo. No caso do tabaco as mensagens são explícitas: FUMAR PROVOCA O CANCRO PULMONAR MORTAL. Bom, pode não provocar, é claro. Mas isto é tão exacto como dizer que CONDUZIR PROVOCA O ACIDENTE RODOVIÁRIO MORTAL.

 

Sou fumador.

publicado por TMC às 01:16
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11 comentários:
De Mario a 19 de Janeiro de 2010 às 03:26
o que se tira do novo método de contagem, é que podemos começar a contar as mortes por atropelamento, algo que não consta nas estatísticas pois raramente morrem no local...
De GEB a 20 de Janeiro de 2010 às 10:27
Exatamente
De Joana a 19 de Janeiro de 2010 às 10:20
A comparação com a arma, quando a faço, costumam responder-me que é um exagero.

A comparação com o tabaco é boa. Ainda por cima, em quase todos os anúncios de automóveis a velocidade está presente. Neste país, isso é verdadeiramente criminoso.

A justiça rodoviária em Portugal é uma anedota. Alguém se lembra daquele condutor português que com o seu "camião-míssil" matou uma família numa estrada inglesa e foi condenado em pouco tempo? Por cá, se o caso chegasse a julgamento, ao fim de alguns anos o desfecho certinho era a multa ou a pena suspensa. Era interessante divulgar-se o número de pessoas que em Portugal foram parar à prisão por terem morto alguém na estrada.

Terminado o julgamento, pena suspensa no bolso, o condutor volta a conduzir na estrada da mesma forma. Conheço quem tenha tido vários acidentes graves e ainda não tenha aprendido. Compra-se um novo carro e pronto.

Ex-fumadora.
De MC a 19 de Janeiro de 2010 às 10:56
(vou fugir ao assunto)

"Embora as principais causas de morte em Portugal sejam as doenças cardiovasculares"

eu acrescentaria que umas das principais causa das doenças cardiovasculares é exactamente o sedentarismo causado pela ditadura do automóvel. e também aqui estamos perante um exemplo como o tabaco: tendo nós das cidades mais anti-peões que existem (ver o excelente post aqui da Joana sobre Chartres e Évora por exemplo), também o vício dos outros que leva ao nosso sedentarismo.
De Iletrado a 19 de Janeiro de 2010 às 23:58
Caro MC
É estranho como se obtêm conclusões definitivas sobre assuntos não provados. Pensa-se que e do pensa-se nasce a certeza. "A discussão está encerrada e a ciência está estabelecida." A esperança média de vida tem aumentado ao longo da história humana, o que significa que antes se morria, em média, mais cedo. Será que posso concluir que o sedentarismo é um dos factores que permitem uma maior longevidade humana?
Bom, apesar disso e apesar de não apreciares que registe as minhas performances ciclistas - embora pense que nunca me gabei de tal coisa, mas pode ser uma ilusão... - tenho que mostrar uns números que obtive da minha pessoa, não são baseados em leituras de qualquer livro ou qualquer página da Rede. Estes números poderão reforçar (ou não...) a tua opinião.
Nos meus passeios ciclistas, quando subo um declive mais inclinado, como alguns existentes em Vila Franca de Xira, por exemplo, a minha pulsação chega a ultrapassar as 180 ppm (instantâneas), dependendo da velocidade que imprimo na subida. Tento evitar ao máximo atingir tais batimentos, pois o limite para a minha idade e peso são 178 ppm. Tenho noção que este limite é um pouco teórico e tem alguma margem de segurança, mas ainda assim evito ultrapassá-lo. Mas, como deves compreender, há determinados percursos onde é difícil não ultrapassar este limite. Durante o treino, normalmente, a minha média cardíaca fica entre as 140 a 150 ppm, baixando para as 80 ppm ao fim de um minuto de pausa. A minha média em repouso é de 60 ppm. Acentuo, porque é importante para esta discussão, que estes valores são obtidos em esforço físico intenso.
Pois bem, nas minhas duas últimas viagens de carro a Lisboa decidi levar o pulsómetro, para registar os meus batimentos cardíacos. Como já afirmei, costumo conduzir tentando respeitar as regras, ignorando ao máximo as provocações dos seres de quatro rodas mais agressivos. Resultados da primeira viagem: máx de batimentos: 185 ppm, média de 152 ppm. Um minuto depois de sair do carro, os meus batimentos passavam as 100 ppm. Segunda viagem: máx de batimentos: 172 ppm, média de 161 ppm. E isto sentado, o esforço físico limitado a girar o volante e carregar nos pedais. Podemos concluir, com cautela, que ao meu coração estava a ser requerido um esforço que não tinha correspondência em termos físicos. Quais as consequências a prazo de se exigir tal esforço cardíaco não correspondente às necessidades do corpo? Será por isso que a maior parte das pessoas se sente cansada ao fim do dia de trabalho, não percebendo porquê, pois nada fizeram de fisicamente extenuante?
É uma amostra ridiculamente pequena, eu sei, oh grande mestre da estatística. E também poderão ser resultados enganadores, na medida em que foram feitos em alguém que, a cada ano que passa, utiliza cada vez menos o carro, logo, vai perdendo aqueles automatismos próprios dos sonâmbulos do volante. Como seriam as leituras em quem viaja todos os dias de carro para Lisboa? Talvez já alguém tenha feito uma pesquisa destas, não sei. De qualquer maneira e, apesar de não concordar totalmente com as tuas conclusões, estes meus resultados podem dar que pensar. Esperemos que, em especial, àqueles que usam o carro por tudo e por nada.
Boas pedaladas.
De CAV a 20 de Janeiro de 2010 às 11:22
Isso é extremamente curioso. Não imagino o que acontecerá ao coração de quem passa o tempo enervado no meio do trânsito.

Em relação à justiça, ela não existe aqui, e isso comprova-se facilmente no que (não) aconteceu ao condutor que levou uma mulher 100 metros arrastada em Loures, ao que levou uma senhora presa em cima do capô e depois foi à garagem do pai limpar e desamolgar o carro, à mulher que ia a mais de 100 no terreiro do paço e atropelou várias pessoas, aos energúmenos que iam a 120 no meio de Lisboa e se despistaram, etc, etc, etc...

O sistema está podre, é incompetente, é corrupto e o povo gosta porque sabe que tem sempre lastro suficiente para fugir à lei.
De Miguel a 20 de Janeiro de 2010 às 11:36
E não esquecendo aquele taxista bêbado do Porto que matou 4 (QUATRO) crianças no bairro do Cerco do Porto e no dia seguinte estava a trabalhar como se nada se tivesse passado.
De Miguel a 20 de Janeiro de 2010 às 11:13
Cá para mim o novo método de contagem vai fazer o número de mortos baixar consideravelmente. É que se agora se contava os mortos até 24 horas depois do acidente e depois chegava ao fim do ano e se multiplicava pelo coeficiente majorativo (1,14 ou 1,17, nunca sei bem) para o valor ser comparável com o resto da Europa (e só mesmo por isso, porque antes de estarmos no Eurostat já nós fazíamos contabilização da sinistralidade rodoviária segundo o nosso método, que é tão válido como o deles, embora tenha a distorção de muita mais gente agora sobreviver as primeiras 24 horas e não o primeiro mês mas não sei até que ponto, em termos comparativos, isso será significativo), agora não havendo nenhum coeficiente majorativo temos duas possibilidades:
1 - ou a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (supondo que são eles que compilam a informação sobre a sinistralidade) anda a seguir cada vítima grave ou muito grave de um acidente de viação durante um mês para ver se ele morre ou não, o que é inconcebível dado os meios humanos que exigiria ou,
2- temos que esperar que os médicos que seguem os pacientes (ou os legistas) metam na certidão de óbito que a causa, mesmo indirecta, foi um acidente de viação, se só meterem «múltiplos traumatismos» (p.e.) tanto pode ter morrido por acidente de viação ou por acidente de trabalho, ou por violência doméstica, etc. E já pra aí em Outubro ou Novembro veio num Público um responsável da Ordem dos Médicos a dizer que não contassem com os médicos para fazer isso porque eles não tinham obrigação de andar a ver qual a causa indirecta do que causou a morte.
Mas vamos ver como corre. Cá para mim, para o ano voltamos ao método antigo.
De MC a 20 de Janeiro de 2010 às 12:06
Miguel,
1. Os dados nacionais que o TMC refere nos posts são isso mesmo, os dados nacionais - ou seja sem essa correcção. Apenas os dados que aparecem no Eurostat são os corrigidos.
2. Há tempos houve uma notícia de um estudo qualquer que defendia que esses 1,14 ou 1,17 seriam demasiado baixos.
De Miguel a 20 de Janeiro de 2010 às 12:56
1. Ah, ok. Não tenho os números na minha cabeça, por isso pensei que fossem os resultados «oficiais» já trabalhados. Posso estar enganado, mas depois no relatório anual que é divulgado já a meio do ano seguinte os dados que aparecem não são os corrigidos?! Mas pronto, independentemente de quais sejam, já se sabe que o Governo depois ao falar sobre a sinistralidade vai sempre comparar com o valor que lhe der mais jeito....
2. Pois, é provável que o sejam. Mas na altura em que se começou a aplicar o coeficiente foi feito um estudo e chegou-se a esse valor (não sei se o estudo foi só feito tendo em conta um ano ou vários, e não faço ideia do tamanho da amostra), e gostava que se fizesse outro (agora que os novos métodos vão entrar em vigor era um boa ideia fâze-lo para verificar fiabilidade deste valor) para saber se o erro acumulado ao longo dos anos era assim tão grande (e nisto tenho as minhas dúvidas - não justificadas cientificamente, mas acho que mesmo que fosse 1,20 ou 1,25, isso não invalidaria a trajectória positiva que tivemos ao longo da última década, apenas nos colocaria um bocado pior comparado com os outros países europeus, mas também não sei se os seus sistemas de contagem são minimamente fiáveis e o que mais interessa nestes casos é reduzir ao máximo a sinistralidade, a comparação com os outros é secundária).
De MC a 10 de Fevereiro de 2010 às 01:07
sem dúvida. a trajectória descedente dos últimos 10, 20 anos é impressionante.

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