Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Mário Alves: Estacionamento do Campus do IST 2/2

(Primeira parte aqui)

 

Em zonas urbanas servidas por transportes colectivos, a variável que melhor explica a escolha de modo de transporte é a existência ou não de estacionamento no local de destino. O recinto do IST tornou-se na última década um exemplo de como a presença excessiva do automóvel é causa principal da degradação da qualidade ambiental do campus – a lógica de que cada canto é um espaço para colocar o carro tem que ser contrariada.

A Gestão da Mobilidade (GM) pode ser definida como um termo geral que engloba estratégias e medidas que resultam no uso mais eficiente de recursos necessários ao movimento de pessoas e bens. Se até agora o paradigma tem sido resolver os problemas da mobilidade aumentando a oferta, por exemplo, construindo mais estradas e oferecendo cada vez mais lugares de estacionamentos, a GM procura influenciar a mobilidade pelo lado da procura. No contexto de um campus universitário, implica o uso de meios inovadores para racionalizar e facilitar o acesso de todos. Apesar de relativamente recente, a GM já possui quase duas décadas de experiência em vários países do mundo.

Nos últimos anos tem vindo a ser cada vez mais habitual na Europa que instituições que servem e empreguem um grande número de pessoas (hospitais, universidades, fábricas, etc.) estabeleçam no seu seio um Centro de Mobilidade (CM) que se encarrega de informar, gerir e facilitar a acessibilidade e transportes à instituição. Uma das primeiras tarefas do CM é por norma, mas não obrigatoriamente, a execução de um Plano de Acessibilidade e Transportes para a Instituição.

Não sendo condição essencial para começar a pensar neste problema e ensaiar algumas soluções, este plano serve para estabelecer consensos e delinear um programa de acção. Um Centro de Mobilidade no IST poderia ter também a tarefa de distribuir informação relativamente ao serviço de transportes públicos da cidade, com ênfase nos percursos que servem a universidade, inclusivamente negociar com os operadores novos percursos, paragens ou mesmo tarifas especiais para quem trabalha ou estuda na instituição. É também comum que os CM estabeleçam os critérios de forma a gerir a atribuição de cartões de estacionamento.

Um lugar de estacionamento dentro de uma cidade como Lisboa tem um custo mensal considerável. Qualquer oferta de estacionamento gratuito constitui um subsídio escondido ao uso do automóvel. Não esquecer que o espaço ocupado por um automóvel estacionado é igual ao espaço de escritório necessário para um trabalhador. Algumas universidades no estrangeiro, já usam a receita da cobrança de estacionamento para oferecer passes de transportes colectivos ou mesmo bicicletas aos alunos com critérios claramente definidos. Estas medidas de restrição ao estacionamento poderão estar associadas a medidas de incentivo a que se desista do lugar de estacionamento ou, por exemplo, à criação de um sítio na rede para a gestão do encontro de parceiros para a partilha do carro.

O CM poderá também ser um elemento de pressão sobre a Câmara Municipal de Lisboa para que o espaço público envolvente do IST esteja bem tratado, tenha bons passeios livres de automóveis, as ruas tenham menos tráfego e sejam mais calmas para que seja mais fácil chegar ao Técnico de bicicleta ou a pé. As cadeiras de arquitectura ou transportes poderiam fazer trabalhos de desenho urbano e acalmia de tráfego na vizinhança da universidade, promovendo o debate em torno destes assuntos com o resto da sociedade civil e encorajar a CML a investir na requalificação do espaço público.

Uma dádiva simples, mas valiosa que a instituição poderia dar aos seus alunos, professores e também à cidade seria reduzir a oferta do número de estacionamentos dentro do seu recinto. Hoje em dia uma universidade que queira atrair quadros e estudantes exigentes e de qualidade tem que tomar conta do seu património – zonas verdes bem conservadas, limpas e abundantes, locais para estudar inspiradores, agradáveis e calmos, pontos de encontro vivos e abertos à cidade. Só para dar um exemplo, não é difícil de imaginar que um professor do MIT ficará com menos vontade de passar uma temporada no IST se durante a sua primeira visita tiver que caminhar entre um caos com poucas árvores e muitos carros.

A cidade e os estudantes não esperam menos da sua universidade. Já muito foi feito, muito haverá que fazer.

 

Mário José Alves, ex-aluno

Recomendação para biblioteca: Transportation and Sustainable Campus Communities: Issues, Examples, Solutions Will Toor and Spenser W. Havlick. Island Press, Washington, DC, 2004.

publicado por Menos Um Carro às 18:29
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6 comentários:
De Miguel a 17 de Dezembro de 2009 às 21:06
Sobre este tema do estacionamento no Técnico existe um blog de uns alunos (penso eu) com algumas imagens (computorizadas) engraçadas: http://estacionamentoist.blogspot.com/
De PJ a 17 de Dezembro de 2009 às 23:26
viva,

por curiosidade, será q o Mário Alves alguma vez preparou algum ensaio mais dedicado ao Porto? onde o poderemos encontrar?

cumps,
De D X a 18 de Dezembro de 2009 às 16:15
Concordo tão mas tão plenamente! Realmente o campus do Técnico deveria envergonhar todos os que lá trabalham ou estudam. Num local com tão bons acessos, é lamentável ocuparem tanto deste nobre espaço com carros.
De CM a 18 de Dezembro de 2009 às 16:55
Estudei na Faculdade de Ciências de Lisboa há mais de dez anos. Quando passo lá ao lado, apesar de existirem novos edifícios, etc, a grande diferença que me salta à vista é a invasão de carros. Estão por todos os lados, passeios, bermas, onde couber meio carro, está lá um inteiro!
De Carlos a 18 de Janeiro de 2011 às 15:14
Eu estudo no IST (não no IST Alameda, mas no IST Taguspark, que ainda é pior, porque nem sequer temos os pavilhões todos, nem vamos ter), e estou plenamente de acordo, que a Alameda tem montes de acessos, e isso é uma coisa que (eu no Tagus) sempre gostei da Alameda, e de que é preciso aproveitar isso. Mas quem deve de fazer pressão para tratar disso, pelo menos do meu lado (estudante) é a nossa associação e de que primeiro, não me parece de que vá fazer isso por causa das ligações ao PS (e de que algo assim não faz parte dos planos do PS) e para além de que em cinco anos no IST, nunca vi nada feito por aquela associação. E se isto não parte dos alunos, o interesse das outras entidades também não existe. Mas o que é uma vergonha é, porque a Alameda tem montes de transportes até se diz de que quem não tem carro vai para a Alameda, e depois o que se vê é a ocupação do espaço pelos carros em detrimento dos transportes públicos. E isto não se espera de uma universidade que aspira a ser a melhor do país, e a par das melhores da Europa.
De MC a 2 de Fevereiro de 2011 às 20:19
Não é dos 5 anos, nem da ligação ao PS. Há muito que estou ligado ao IST Alameda, e a Assoc Estudantes a única coisa que faz esporadicamente é pedir mais estacionamento para os estudantes.

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