Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Brasília

Ainda a propósito da posta sobre auto-estradas urbanas, onde se fala de Brasília, queria contar o que me aconteceu quando tive o (des)prazer de conhecer a capital brasileira - a cidade mais desagradável que alguma vez conheci.

Eu estava num hotel no ponto verde e queria ir ao ponto rosa, que distam 270m em linha recta, a pé. Embora não pareça, a foto não é de um subúrbio mas da zona mais central de todas da cidade (o Teatro Nacional é mesmo ali). O mapa não era grande coisa, pedimos ajuda na recepção, quem nos atendeu teve que chamar mais alguém e depois de uma breve discussão concluiram ambos que o melhor percurso era... ir de taxi. Fomos a pé, tendo que atravessar a correr as vias-rápidas que se aparecem na foto.

O centro de Brasília é uma cidade horrível, sem carisma, sem personalidade. Não há ninguém nas ruas. Não vi uma única loja de rua, apenas centros comerciais. É o resultado do urbanismo centrado no automóvel, vigente nos anos 50 e 60, e que ainda perdura na cabeça de muita gente.

 


A Carbusters (revista da World Carfree Network) tem agora uma versão online. Quem o notícia é o blogue Carfree Blogosphere, também associado à WCN.

Já agora, a WCN também está a sofrer da crise e pediu ajuda financeira. Assinem a revista, que vale a pena.

publicado por MC às 10:06
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17 comentários:
De Miguel a 9 de Dezembro de 2009 às 10:47
Acho que também não se deve julgar as coisas feitas há 50 anos pelos padrões actuais. Na altura era assim que se pensava que o mundo ia evoluir, não deu certo (felizmente) mas era o que quase todos os arquitectos e urbanistas defendiam... (basta ver o Corbusier que queria deitar Paris abaixo para construir arranha-céus e dizia que gostava de ver aviões a aterrar pelo meio de arranha-céus - os nova-iorquinos é que de certeza que não gostam dessa ideia)
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 11:52
Claro que sim. Há 40, 50 anos imagino que pouca gente se queixaria desta orientação porque o paradigma era diferente.

A questão é que este tipo de ideias de urbanismo ainda existem.
De Rogério Leite a 9 de Dezembro de 2009 às 13:04
Nunca fui a Brasília. Mas algumas semanas atrás, uma revista semanal trouxe um suplemento com os detalhes da construção dela, todo o movimento político, financeiro e humano. Dentre as propostas que PERDERAM para o plano urbanistico existia uma que era muito parecido com o conceito de pequenos bairros circulares, auto-suficientes, interligados entre si, formando quase micro-cidades. Células interligadas. A proposta foi rejeitada por que não tinha a "GRANDEZA necessária a CAPITAL de um GRANDE PAÍS". Coisas dos tempos UFANISTICOS que se avizinhavam no Brasil na época. Concordo com Miguel que não é possível julgar paradigmas urbanísticos com 50 anos de idade! E concordo com vc, é triste uma cidade que vive no umbigo do carro e mais triste que ainda tenha gente que pense assim!
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 14:42
Outra coisa que eu não gostei, e não percebo mesmo dado o que acabaste de contar (da grandeza da capital), é que a zona monumental é uma cópia de Washington. Uma alameda gigante, com um relvado gigante, com as principais instituições do país espalhados pela praça, etc. Não percebo como se decidiu copiar quando estava em causa um símbolo nacional.
De Rogério Leite a 9 de Dezembro de 2009 às 14:58
iH... lembra ai que era em 1953 ou 54 quando decidiram o projeto... a guerra tinha acabado alguns anos antes, a guerra fria estava num crescente... daí a copiarem algo "de sucesso" do modelo americano, um pulo!... Mas dado que o Niemeyer é reconhecidamente comunista de carteirinha, acho que foi coincidência... se fosse para copiar um modelo assim descaradamente, seria o da praça Vermelha ou da Paz Celestial!!! eheheheh... Em tempo, lembra outros lugares tb... Louvre... La Defense... acho que está na cabeça de todo "egocentrico" ser edeusado pela massa, em praça pública... ai precisa da praça na frente né não?!
De girino a 9 de Dezembro de 2009 às 13:10
Acho que você foi precipitado a julgar a cidade inteira baseado apenas num pequeno pedaço. Brasília pode ser dividida basicamente em duas partes: a parte "monumental", feita para ser vista por turistas e aparecer na TV, e a parte habitacional, feita para se morar.

Pelo mapa, vejo que se hospedou no sector hoteleiro. Ora, isso diz tudo: é um local onde há apenas hotéis! Não há comércio, ou qualquer outra coisa. É feito para hospedar os diversos visitantes, a maioria a trabalho, que vem a cidade. Lá não há comércio, e o comércio mais próximo é no sector comercial, que é onde se localizam os centros comerciais (e edifícios de escritórios comerciais, nada mais, o comércio de rua fica junto às residências). Não dá para julgar a cidade por isso.

Da próxima vez, visite os sectores residenciais, e terá uma impressão completamente diferente!

Brasília, pelo contrário, foi projectada para que NÃO fosse necessário o uso de carros. As quadras residenciais são intercaladas por pequenas ruas de comércio desenhadas para abastecer as residências próximas e tornar as quadras auto-suficientes. A ideia original era que os carros só seriam usados para percorrer longas distâncias. O projecto original (e funcionou assim por muito tempo) previa ônibus (se diz autocarro por aí, certo?) que passariam em cada quadra residencial recolhendo os funcionários e transportando-os até a esplanada, onde trabalhavam. Ainda funciona assim para quem trabalha para os militares.

A cultura do carro chegou sim a Brasília , mas foi APESAR do projecto da cidade, e não por causa dele! E hoje a cidade não comporta a quantidade de carros que tem. Há engarrafamentos nas pequenas ruas comerciais, próximas as residências pois não há local de estacionamento (foram projectadas para serem percorridas a pé), e não há vagas de estacionamento suficiente na esplanada ou no sector comercial, provocando diversos problemas.

Ainda assim, as quadras residenciais são imunes a isso! Continuam os locais onde se anda a pé, onde as crianças brincam sozinhas na rua, e onde se vai às compras sem precisar do carro.

Se um dia vier a Brasília , visite a cidade certa, aquela onde as pessoas moram! Não julgue a cidade por aquilo que foi feito apenas para forasteiros!
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 14:39
Eu tive o cuidado de me referir apenas ao centro de Brasília. :)
E não me referia apenas ao sector hoteleiro mas todo ao centro monumental, onde deveria estar a vida duma cidade.

Do pouco que vi dum bairro residencial, vi uma rua comercial, mas mesmo essa não me pareceu ser minimamente humana como é o Rio, Salvador ou qualquer cidade europeia. E um bairro residencial é apenas isso. Onde é que as pessoas se encontram, onde vão almoçar ou sair à noite, onde vão às compras, onde vão dar um passeio,etc. não é no bairro residencial.

Porque dizes que a cultura do carro chegou apesar do projecto? Não percebi.

Ab do outro lado do atlântico
De girino a 9 de Dezembro de 2009 às 16:20
Aqui em brasilia o "centro" é só onde os funcionarios publicos trabalham. A vida da cidade, fora do governo, está mesmo nos bairros residenciais. Restaurantes e casas noturnas estão nesses bairros e não no centro.

Clubes, escolas, hospitais, etc , tudo está fora do centro. A vida social acontece fora do centro, que é apenas o local de trabalho de uma minoria!

sobre ter dito que "a cultura do carro chegou apesar do projecto", quis dizer que a cidade foi projectada de forma a que os carros nao fossem necessários, e a vida das pessoas pudesse ser levada sem eles. Mas as pessoas que vieram morar aqui nao tinham a mesma visao dos arquitetos e urbanistas. O carro como simbolo de status social ganhou força e fez com que os onibus que transportavam os funcionarios ficassem cada vez mais vazios e fossem por fim abandonados. Os comercios das areas residenciais, que deveriam ter sua frente para DENTRO da quadra, e as costas voltadas para a rua (usada para transporte de cargas), foram invertidas e hoje tem a frente voltada para a rua e as costas para as casas e edifícios.

Sobre comparar com rio, salvador ou "qualquer cidade europeia", há de se lembrar que brasilia tem algumas peculiaridades, como limites de construção, que impedem que a concentração populacional aumente demais. Hoje residem em brasilia cerca de 200 mil pessoas, 50 vezes menos que no rio e 20 vezes menos que em salvador. O resto da população se espalhas nas "cidades satélites", e trafegam ao menos 30 km para chegarem a brasilia onde a maioria trabalha.
Uma quadra residencial de brasilia é uma quadra residencial de uma cidade de 200mil habitantes, em nada comparável com rio ou salvador!
De girino a 9 de Dezembro de 2009 às 16:25
Ou pensando ainda no que você disse no texto, brasília é uma ciade invertida, onde o suburbio fica no centro, e o centro se espalha em torno do suburbio (a distancias de até 30km!)
De Rogério Leite a 9 de Dezembro de 2009 às 13:11
Em tempo. O renomado Oscar Niemeyer, arquiteto de Brasília, ora com 103 anos, continua plantando concreto no País. Desde que chegou perto dos 100, todas as cidades que podem pedem uma obra com assinatura dele. Em João Pessoa, 2h daqui, na ponta meridional do país, saiu o Museu de Ciência e Tecnologia, outro "disco voador" cercado de concreto. Aqui em Recife, saiu o "Parque Dona Lindu", Dona Lindu é a mãe do atual presidente Lula (é casuísmo político mesmo!). São dois prédios parecendo bolos de noiva, brancos, em cima de um mar de concreto, com pouquissimas árvores e a beira mar, com um SOLÃO, que torra a cabeça de qualquer um. A população do entorno do parque queria uma area verde, mas nada saiu ou está saindo como queriam... e os dois bolos de noiva estão lá para ficar! Como vc disse MC, a mentalidade continua!
De girino a 9 de Dezembro de 2009 às 14:07
Rogério Leite: Só pra esclarecer, o "arquiteto de brasília" foi Lúcio Costa. O Niemeyer fez o projeto apenas dos MONUMENTOS de brasília, todo o projeto urbanístico foi feito pelo Lúcio Costa!
Quanto ao que é feito pelo Niemeyer, concordo que não são estruturas para abrigar pessoas. São monumentos para serem vistos de longe e fotografados, não servem para abrigar pessoas!
De Fabio Almeida a 10 de Dezembro de 2009 às 04:48
Acho que essa pessoa não condiz com a realidade, com certeza foi num fim de semana ou coisa parecida, e outra na área central com certeza não veria comércio de rua, pois a cidade é setorizada.

A cidade fora feita para carro, mas a cidade começa a pensar na acessibilidade das pessoas, tanto que estamos construindo 600 km de ciclovias.

Agora, uma cidade sem vida, é igual eu ir a Lisboa e falar que não curti nada a cidade, e falar mil defeitos na cidade.

Agora querer comparar culturas tão distintas, se a cidade é horrivel, porque será que ela é exemplo de arquitetura e copiada pelo mundo?

Até Dubai copiou parcialmente os traços de Brasília. Sinceramente a cidade está refazendo e corrigindo os erros do passado.

Agora falar que não viu ninguem, então porque não conhece a cidade, e justamente ali perto, tem um movimento de 500 mil pessoas diariamente.
De MC a 9 de Janeiro de 2010 às 01:46
Fabio,
1. Nunca vi tão pouca gente no centro de uma cidade, e já visitei centenas de cidades.
2. A minha história como peão que contei, não me teria acontecido em mais nenhuma cidade que visitei.

Podem ser observações ocasionais, de quem só lá esteve dois dias, mas não há nada que contrarie estes dois pontos.
De Gilson Azevedo a 10 de Janeiro de 2010 às 10:57
Domingo, 10 de Janeiro de 2009

Ola a todos,

Ha alguns anos, assisti a um doumentario da Discovery sobre as cidades e civilizacoes, nele conta um trecho sobre como eh a cidade e a vida em Brasilia, os predios, as distancias e como as regioes sao separadas e especificas para cada tipo de necessidade das pessoas.

Neste documentario conclui-se que quem torna uma cidade com ou sem vida sao as pessoas, o seu modo se conviver, mudar o cenario e como convivem no local.

Eu aprendi um pouco assistindo a este documentario, que eu comprei em VHS por volta de 1998-2000 e o assisti diversas vezes. E aprendi mais um pouco lendo todos estes comentarios acima.

Sobre um outro fator, o transito e os semafaros e os pedestres, ja assisti reportagens e comentarios na televisao dizendo que quando um pedestre se aproxima da rua, os carros param para que o pedestre atravesse. As que nao conhecem Brasilia pessoas por nao terem conhecimemto de como eh a cidade pensam que lah eh assim devido a educacao dos motoristas e que em todo pais deveria ser assim.
Pensem. . .

No meu ponto de vista, se lah ocorre assim eh por que poucas pessoas andam a pe nos setores onde existem os ministerios e os palacios. As distancias sao enormes, eu imagino. E quanto a ideia de estabelecer que o transito pare completamente para que o pedestre atravesse tranquilamente (...),
a ideia eh desnecessaria e inaplicavel, penso.

Com todas informacoes, eu ainda teria que visitar todas as partes da cidade de Brasilia e conviver com as pessoas para saber como eh a vida por lah.
Todos os pontos de vista devem ser analizados.

Mas, agora, neste momento, gostaria de estar mesmo eh deitado embaixo de uma arvore e ouvindo o som das ondas em Fernando de Noronha ou em qualquer outro paraiso tropical como existe tambem no litoral de Portugal.










De MC a 11 de Janeiro de 2010 às 23:35
gilson,

obrigado pelo texto!
esse documentário parece interessante.

muitas vezes o problema das cidades é terem sido feitas à escala do automóvel, distância e avenidas grandes. isso por si já faz com que ninguém queira andar a pé.
obrigar o trânsito a parar por uma pessoa só é mau quando o trânsito é muito. em muitas cidades do norte da europa, os automóveis são menos que os peões/pedestres.. aí tens uma minoria a esperar por uma maioria :)
De Gilson Azevedo a 10 de Janeiro de 2010 às 11:19
Pensei tanto em Fernando de Noronha que esqueci de colocar em meu post que eu moro no Brasil, cidade de Maua, ah 25 km do centro de Sao Paulo e ah 80 km do litoral.

Alguns meses atras eu li alguns comentarios sobre a minha cidade, que um amigo meu me disse para procurar (http://desciclo.pedia.ws/wiki/Mau%C3%A1) na Desciclopedia, e eu achei o comentario um tanto comico e tragico, mas, para quem mora na cidade desde crianca e conhece as particularidades, eh que sabe (...)

Espero que meus comentarios acima tenham acrescentado mais conhecimento a todos. Tambem espero nao ter desagradado a ninguem.

Um grande abraco a todos.

Gilson Azevedo



De Miguel Barroso a 28 de Abril de 2010 às 15:35
A propósito dos 50 anos de Brasília, uma notícia onde falam do problema: http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2010/04/25/cidades,i=188526/DAQUI+A+50+ANOS+O+CAOS+NO+TRANSITO+SERA+PIOR.shtml

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