Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Auto-estradas Urbanas

Uma das consequências mais danosas da implementação maciça do automóvel nas cidades foi a reorientação do planeamento das estruturas de acordo com a sua lógica; uma reorientação que sacrificou muitos dos outros elementos da cidade, nomeadamente o peão e o espaço público.

 

Toda a potencialidade que um determinado terreno tem para assumir uma função, seja um jardim, um parque, um bairro habitacional, comércio, escolas, etc é reduzida apenas a uma função quando se constrói. Voltar atrás é muito difícil porque na cidade não se apaga uma estrutura como se apaga uma assinatura. Mas enquanto se assumir que é legítimo obedecer à necessidade voraz de espaço do automóvel, não questionamos que a potencialidade de um espaço seja frequentemente redireccionada para novas estradas.

 

O ciclo perpetua-se da seguinte maneira: 1) criam-se vias para os automóveis poderem circular 2) facilita-se a aquisição e a guarita do automóvel, através de fiscalização inadequada e de estacionamento quase gratuito 3) numa certa escala de tempo as vias entopem e não escoam 3) obedece-se à procura, mantendo-se a ilusão que automóvel éé sempre sinónimo de ganho de tempo através da velocidade e, voilá, 1) outra vez

 

Já o quase esquecimento do peão é, quanto a mim, muito mais misterioso porque é a forma mais básica de locomoção do ser humano. Andar a pé é inevitável e embora alguns sonhos do urbanismo moderno imaginassem a vida no futuro equivalendo a cidade a um gigantesco drive-in, a medida da negligência do peão nas nossas estruturas só demonstra o quão infecciosa é hoje a presença do automóvel na cabeça dos que planeiam as cidades.

 

Esta negligência do andar a pé está hoje presente nas ditas auto-estradas urbanas: estruturas híbridas e monstruosas que rasgam o tecido urbano, já de si caótico; não são estradas nem avenidas, são apenas um erro crasso de planeamento e a vontade de continuar o paradigma da velocidade: se há congestionamento, criem-se mais acessos, para lá de tudo o que existe e servindo apenas e só o automóvel. 

 

Um exemplo, tirado do blogue Discovering Urbanism e que é delicioso porque mostra precisamente a tal inevitabilidade do andar a pé. A cidade é Brasília, o planeamento é muito moderno mas, teimosamente, lá surge o peão, esse rebelde e que teima em caminhar e criar os seus próprios trilhos, para lá daqueles delineados para o automóvel. A ilusão da velocidade promove o esquecimento do corpo mas é impossível desligarmo-nos dele.

 

 

 

Um peão que circule ao lado das velocidades permitidas aos automóveis nas vias principais não tem uma percepção favorável da sua segurança nem as condições necessárias para andar. Mesmo que seja esse o melhor caminho entre dois pontos e para as suas escolhas de locomoção (o automóvel não é universal).

 

 


Qual é a maneira mais simples  e elegante de criar, simultaneamente, barreiras anti-ruído, ar mais saudável, clima de proximidade e ainda desacelaração de tráfego? Será um sistema inteligente em tempo real geo-referenciado ou qualquer outra parafernália tecnológica? Árvores. Muitas. Uma distância não são dois pontos, é também o preenchimento dos intervalos.

publicado por TMC às 23:13
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9 comentários:
De Dario Silva a 8 de Dezembro de 2009 às 15:47
Queres qualidade de vida?

Então toma: http://ecosfera.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1413039
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 08:55
Já estava no nosso facebook :) ondo pomos alguns links que não "merecer" uma posta.
Juntem-se em http://www.facebook.com/editor.menos1carro
De PJ a 17 de Dezembro de 2009 às 23:33
ei, nem tudo são más notícias!

http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Vila%20Nova%20de%20Gaia&Option=Interior&content_id=1440071

http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais/concelho.aspx?Distrito=Porto&Concelho=Porto&Option=Interior&content_id=1437001

em gaia, menos 21mil automóveis por dia, no porto menos 11mil..

(links roubados do www.porto.taf.net)
De Miguel a 8 de Dezembro de 2009 às 18:17
Assim num off-topic completamente descarado: já viram que a CP vai voltar aos loucos anos 70 e vai permitir que se compre um bilhete para qualquer troço da rede em qualquer estação?!
«Na área da bilhética a CP espera em 2010 ter concluído o projecto da bilheteira universal (atrasado em mais de um ano) para que os seus clientes possam, em qualquer ponto de venda, comprar um bilhete de qualquer origem para qualquer destino e em qualquer tipo de serviço.» São uns malucos.
Fonte: http://economia.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1413020 (notícia esta sobre o passivo de 3.000 milhões de euros, 1/5 do da Estradas de Portugal...)
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 08:59
Isso é muito interessante!
Eu só li o título sobre o passivo e pensei logo "uma empresa que nem sabe vender bilhetes, não merece outra coisa..." é só pena ser pública e de interesse público.

Certamente não vão aderir ao Andante no Porto nem ao Lisboa Viva em Lisboa. Para isso faltará mais uns 40 anos.

Outra imbecilidade na gestão da CP:
http://menos1carro.blogs.sapo.pt/106686.html



De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 09:00
Esta é que a posta original:

http://menos1carro.blogs.sapo.pt/58815.html
De Miguel a 9 de Dezembro de 2009 às 09:08
No Andante no Porto já fazem parte desde o início: http://www.linhandante.com/linhas.asp
De Dario Silva a 9 de Dezembro de 2009 às 10:12
MC,

Não sejas injusto!
"Certamente não vão aderir ao Andante no Porto nem ao Lisboa Viva em Lisboa."

A CP foi, com força, co-fundadora do Andante no Porto e, ficas a saber, o sistema só não se aplica em toda a área Aveiro-Braga por culpa descarada dos autarcas... que, no caso de Braga, se deram ao luxo de demorar cinco anos para colocar uma carreira dedicada a nascer na estação. Viva Mesquita Machado e os seus 33 anos de dedicação à cidade...

Neste aspecto, a CP está de parabéns.
De MC a 9 de Dezembro de 2009 às 11:49
Ok!
Obrigado Dário pela correcção.
Deveria ter verificado isso antes de escreve.

Quanto ao Mesquita Machado, acho que o senhor tem pena de não poder fazer uma Brasília no Minho.

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