Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

Só mais um carro

Continuando a ideia de identificação da posse de automóvel com a riqueza do comprador, eis que nos chega mais uma imagem "pensada" por alguém algures num certo departamento de marketing da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

 

Porque é a publicidade é importante? Decertp não é pelas cores ou pela sua contribuição para a economia (afinal nós precisamos mesmo de comprar tudo aquilo que ela nos recomenda, apesar de não o sabermos) mas porque assinala todas aquelas premissas e tendências não questionadas presentes na sociedade, que de tão tácitas correm sem qualquer crítica.

 

Ora, eu já noto uma mudança ligeira quanto ao uso do carro, pelo menos a nível dos discursos. A questão da extrema necessidade de ter um carro em meio urbano parece-me mais ou menos descontruída, ou em vias disso.

 

Bom, o irónico é a dita cuja estar num transporte público. Ei-la:

 

 

Como diz e bem o Miguel Cabeça, autor da foto:

 

Uma publicidade aos jogos da Santa Casa da Misericórdia em que aparece a palavra AUTOCARRO, e em cima do AUTO um bilhete da lotaria, deixando o resultado: CARRO :-) Mais um perpetuar da ideia de que os autocarros, bem como os transportes públicos são para adolescentes, velhos e pobres, e que o que é óptimo é ganhar a lotaria para poder comprar o carro e deixar de andar nestes transportes "degradantes". Eu até percebo a ideia de aproveitar o meio para adaptar a publicidade, como também sei que a publicidade não é da Carris, mas é nos autocarros da Carris que estão afixados. Tiro no pé?

 


A ver: o programa bioesfera centrou-se na qualidade do ambiente urbano. No começo do programa dá-se um grande destaque aos efeitos perniciosos do uso generalizado do automóvel nas cidades. Se há reconhecimento académico dos seus efeitos nocivos, porquê ainda o presente estado de coisas?

 


A FPCUB, em parceria com a Carris (a empresa que permite publicidade enganosa a automóveis enquanto adoptando o programa Menos Um Carro) desenvolveu uma proposta para acalmar o tráfego da capital. Daí resultou a Carta Ciclável de Lisboa. Podem sacá-la daqui.

publicado por TMC às 15:31
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7 comentários:
De Joana a 2 de Dezembro de 2009 às 17:29
A reportagem do Biosfera é, como habitualmente, boa. Quanto aos efeitos perniciosos do uso generalizado do automóvel na cidade, o diagnóstico está feito. Mas "mudar" é uma palavra que só dificilmente entra no léxico dos portugueses...
De mlz a 3 de Dezembro de 2009 às 12:11
Viva,

O que vou dizer é possivelmente um pouco polémico, mas, de qualquer forma, as boas ideias nascem das boas polémicas (quando discutidas com honestidade) pelo que aqui vai:

Creio que às vezes há um certo fundamentalismo anti automóvel a> </a>por aqui. Eu estou à vontade para falar nisto porque não tenho automóvel a> nem pretendo vir a tê-lo

De qualquer forma as vantagens do automóvel a> e dos veículos motorizados em geral são inegáveis A mobilidade é de facto maior e permite ir a qualquer lado a qualquer hora. Dependemos dele, mesmo para quem não possui um veiculo motorizado, nem que seja pela mera distribuição de produtos que consumimos.

Agora o meu ponto de vista é o seguinte: não nos devíamos centrar mais em reivindicar que quem tem um automóvel a> pague os verdadeiros custos de posse (construção de auto-estradas, acessos, parqueamento, espaço ocupado pelas estradas e auto-estradas em detrimento de outros equipamentos, custos com acidentes, resíduos , poluição do ar, poluição sonora e até mesmo estética) do que em dizer mal do automóvel a> , as vezes com tão pouca argumentação que parecemos mais uns meninos birrentos com inveja? Não estou a dizer que é o caso deste post . Percebo perfeitamente a ideia do post quando diz que é um tiro no pé a imagem dada de que ter um automóvel a> é ascensão social... mas, não posso deixar de me questionar: quem ganha 12 ou 13 milhões de € no euromilhões também terá dinheiro para pagar o verdadeiro custo de posse de um automóvel a> .

Creio que o automóvel a> será sempre um objecto de desejo. Mais que não seja porque as marcas que os produzem se vão encarregar de o mostrar como tal e nós não somos imunes à publicidade e ao desejo.

Agora, uma linguagem que entendemos de forma universal é a do dinheiro. Quando nos vão à carteira reagimos. Já aqui houveram alguns posts bastante clarividentes a mostrar que o automóvel a> é muitíssimo subsidiado e já se viu, durante a recente crise dos combustíveis , que as pessoas reagem ao preço. Penso que pode ser por aí o motor da mudança mais do que pela critica "à mobilidade através do automóvel a> " que por si só não não tem muito por onde se lhe pegue.
De Miguel Cabeça a 3 de Dezembro de 2009 às 13:41
mlz,

Eu não sou fundamentalista anti-automóvel. Possuo um (pequeno) automóvel no meu agregado familiar que nos dá muito jeito em certas situações. Não é isso que está em causa neste post. O que eu acho errado é passar e perpetuar a ideia de que os transportes públicos são para quem não pode ter (ainda) um automóvel. Que é a solução de recurso. É esta a mensagem passada por esta publicidade: se ganhares a lotaria, já tens dinheiro para o carro e deixas de te sujeitar a esta treta dos autocarros.

Enquanto os transportes públicos forem vistos como último recurso, cheios de adolescentes (que ainda não podem conduzir) ou de velhotes (que já não podem ou nunca aprenderam a conduzir) e de pobres (que não podem comprar/sustentar carro), nunca se fará a transferência modal do carro para TP do público em geral. Enquanto não se virem pessoas de classe média/alta a usarem constantemente os TP, estes vão continuar sempre com este estigma do "é para os pobres, eu já tenho carro".

E para min, só há um caminho a seguir nesse sentido (este sim, fundamentalista :-) tornar a vida dos automobilistas urbanos um inferno. Como? Redistribuíndo um espaço urbano claramente inclinado para dar primazia ao transporte individual. Retirar faixas e espaço de estacionamento automóvel e fornecendo-o para outros meios de transportes mais sustentáveis ou simplesmente transformando-os em zonas de fruição. Assim, a balança ficava um pouco mais equilibrada.

Cumprimentos

Miguel Cabeça
De MC a 3 de Dezembro de 2009 às 16:58
mlz,
cada um tem a sua opinião, e quando chamamos fundamentalista a alguém estamos a compará-lo com o nosso referencial. É importante não esquecer isso porque quem nos acusa de algum fundamentalismo esquece do seu referencial.

Eu dou a mesma resposta que dou sempre quando me/nos acusam de fundamentalismo: TUDO o que defendemos aqui já é posto em prática em países do Norte da Europa. Ao nos acusarem de fundamentalistas estão a fazer a mesma acusação aos especialistas de tráfego, planeamento urbano e economistas de transporets de países que têm uma experiência acumulada de 40 anos a lidar com o problema do abuso do automóvel.

Quanto ao teu ponto (reinvindicar mais em vez de barafustar), eu julgo que é essencial reinvindicar com argumentação - e isso claramente é o oposto de um fundamentalista :). É isso que fazemos.
De Joana a 3 de Dezembro de 2009 às 14:26
Mais uma vez, subscrevo inteiramente o que disse o Miguel Cabeça.
(Que seria uma grande "aquisição" para este blogue, diga-se...)
De TMC a 3 de Dezembro de 2009 às 16:28
"Creio que às vezes há um certo fundamentalismo anti automóvel por aqui. Eu estou à vontade para falar nisto porque não tenho automóvel a> nem pretendo vir a tê-lo".

Os fundamentalistas não costumam justificar as suas crenças ou, quando o fazem, não são conhecidos pela sua coerência. Não é o caso deste blogue. Aqui tenta-se questionar o porquê de uma lógica tão centrada no automóvel.

"De qualquer forma as vantagens do automóvel e dos veículos motorizados em geral são inegáveis A mobilidade é de facto maior e permite ir a qualquer lado a qualquer hora".

Não, isso é falso. Não pode generalizar e dizer que o automóvel ou os meios motorizados em geral são vantajosos em toda e qualquer circunstância. A percepção da sua vantagem individualmente é inquestionável mas em termos sociais é bastante duvidosa. O automóvel não o leva a qualquer lado (embora já seja possível pedir umas hamburgas sem sair do automóvel) e quando o faz devemos perguntar-nos se é justo e coerente adoptarmos essa generalização de acessos. E se tiver paciência, o automóvel também o põe no sítio que quer a qualquer hora do dia. A questão não é a das vantagens individuais que cada um reconhece no uso do carro (e isso já é generalizar e muito o seu uso) mas a seguinte: como sociedade, devemos preferir um meio de transporte a outros com menos custos e com mais eficiência?

Eu percebo o sentido da sua crítica e nesta posta, pelo menos nas minhas palavras, não se procurou a crítica gratuita e fundamentalista ao automóvel. Por concordar e defender que o uso do automóvel deve reflectir todas as suas externalidades em termos de ruído, poluição, sinistralidade e ocupação do espaço público é que assinalei a facilidade acrítica com que a adopção do seu uso nos aparece, hoje, em forma de publicidade.

Claro que podia, cada vez que se escrevia uma nova posta, dizer tudo isto, mas há coisas que devem ficar implícitas. Senão ninguém nos lia :)
De CM a 4 de Dezembro de 2009 às 00:18
"De qualquer forma as vantagens do automóvel e dos veículos motorizados em geral são inegáveis A mobilidade é de facto maior e permite ir a qualquer lado a qualquer hora".

Isto é verdade em cidades como as nossas onde o carro é rei e senhor. Se formos a algumas cidades aqui referidas, ou é impossível, ou se dá "uma-granda-bolta" ou é tão caro que se torna proibitivo.

O que este blog defende (e muito bem) é uma mudança de paradigma e não o simples facto de dizer que o automóvel não faz sentido e deixar tudo o resto como está.

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