Terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Tão pobre que nem tinha dinheiro para a portagem

A imagem do automóvel como bem de primeiríssima necessidade não cessa de me surpreender. Na "À Mesa com a Crise", a última edição da Reportagem TSF (um excelente programa radiofónico) o tema é a crise, o desemprego e a pobreza. Dir-se-ia que se falaria de pessoas com fome, sem dinheiro para cuidados de saúde, pessoas em desespero. Sim fala-se nisso, mas há várias referências a automóveis. A certa altura, uma funcionária de uma instituição de caridade relata "... começam a não ter dinheiro para as portagens, até nos diziam «nós depois até já íamos pela estrada nacional, mas já nem pela estrada nacional conseguíamos ir porque não tínhamos gasolina e ficámos confinados a 4 paredes»".

E não se fala só em pessoas com vergonha em admitir que têm fome ou que não têm dinheiro. Há uma mulher que fala na vergonha de ter o carro avariado: "dávamos desculpas às pessoas para não dizer que tínhamos a carrinha avariada".

O que dirão estas pessoas de mim, que não tenho carro há 11 anos? O que dirão elas de muitíssimas pessoas que nem a carta têm? Seremos etíopes à espera da ajuda da Madonna? Estarei eu confinado a 4 paredes? Será que deverei ter vergonha de dizer que não tenho carro?

Mas não são só as próprias pessoas que o referem. São os funcionários das instituições de solidariedade que acham este aspecto suficientemente importante ao ponto de acrescentarem isto à sua descrição das situações de pobreza. É a jornalista que escolheu estas citações entre as várias horas de gravações audio que tinha, onde haveria certamente alguém sem dinheiro para uma operação ou a viver à custa de ajudas há longo tempo.

 

Como já escrevi em tempos, será que ainda veremos a velha canção do Sérgio Godinho transformada em "O paz, a pão, a habitação, a saúde, a educação, e o carro novo"?

 


A ler: The Politics of Happiness sobre Bogotá no Cidade-Ideal.

publicado por MC às 22:07
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10 comentários:
De PJ a 25 de Novembro de 2009 às 02:54
Muito bem captado. a par do discurso do PM mais da jornalista do nós por cá, vê-se que andam todos feitos uns com os outros, e depois ainda convidam ilustres desconhecidos para alimentar ainda mais o lixo que jornalistas e políticos têm na cabeça. já ninguém pensa? anda tudo inebriado nestas estórias?

sinceramente, hoje em dia o telejornal parece-me uma nova gente ou uma caras, um verdadeiro desfile de acontecimentos sociais, só que em vez de ser sobre actores dos morangos com açúcar ou do cristiano ronaldo, é com políticos. nem sei qual destes todos é o pior.

mas o q não percebo mesmo, é como o povo come isto tudo e ainda por cima parece gostar..

é mesmo este sentido (ou a falta dele) q só me faz exasperar por uma regionalização, raios parta, se os portugueses soubessem o que são, já tinham oferecido umas barbatanas de cimento a esta gente toda.

desabafo!! :p
De JV a 25 de Novembro de 2009 às 06:34
Não é um bem de primeirissima necessidade, mas muitas vezes é mesmo uma necessidade. Falando de Lisboa e arredores, a verdade é que é dificil fazer um percurso de transportes, mesmo que seja apenas ferrovia (metro, electrico, comboio) mais rápido do que de carro, se for mais de 6 ou 8 km. Os transportes não são maus, mas há pessoas que 15 min. fazem a diferença entre chegar a uma escola a tempo ou não. Nos países do centro/norte da europa as pessoas saiem às 17h e vão calmamente buscar os filhos, em Portugal não. Este blog é bastante bom, mas falta perceber isto, que estamos num país onde se trabalha até tarde.

Falo por experiência própria, vivo e trabalho em lisboa (distância de 6 km) e já tentei várias vezes fazer o percurso de transportes (porque gostava mesmo de o fazer sempre), mas o que é certo é que nos dias que tenho que ir buscar o filho à escola, tenho que ir de carro, senão não chego a tempo.

Bom dia e continuação deste excelente blog.
De MC a 26 de Novembro de 2009 às 13:45
JV,
primeiro de tudo e para que fique sempre claro, este blogue não é contra o uso do automóvel, mas contra o seu abuso. Ou dito de uma forma menos subjectiva, não defende a abolição do automóvel ou algo parecido.

Não ponho em causa que o automóvel é mais conveniente para a maioria das pessoas (o problema é que elas se esquecem do inconveniente que criam aos outros!).

O que está em causa aqui é se podemos considerar que alguém com dificuldades financeiras no uso do carro pode ser considerado como um pobrezinho que mereça a pena e caridade de todos nós. Pela reportagem, há muita gente que acha que sim.

Pegando no teu exemplo, uma pessoa que se dá ao "luxo" de andar de carro por 15min, nunca merecerá a minha compaixão económica. Tá no seu direito de o fazer (não o quero negar, apenas quero desincentivá-lo), mas não é um coitadinho.
De Joana a 25 de Novembro de 2009 às 09:19
Mas... MC... sem carro há 11 anos?! Xiiii... Vê lá, se precisares de uma ajudinha... não sou rica, mas talvez possa contribuir com alguns euros... E há também o Banco Alimentar Contra a Fome...
De MC a 26 de Novembro de 2009 às 13:39
E isso episódio há 11 anos tem muito que se lhe diga.

Ainda é criado um Banco Automóvel contra a Pobreza, onde se poderia depositar o carro antigo para os pobrezinhos.
De Fuschia a 25 de Novembro de 2009 às 10:44
Entendo a posição do JV e concordo que há realmente quem trabalhe muitas horas, demasiadas para quem tem filhos e que não deve ser fácil conciliar as coisas. Mas também tenho como exemplo os meus pais, que nunca tiveram carro, fomos morar para Mem Martins há 20 anos atrás (o comboio naquela altura parecia de terceiro mundo, haviam pessoas penduradas do lado de fora) e sempre me trouxeram a mim e ao meu irmão (bébé na altura)de comboio. E sempre trabalharam em Lisboa. E não apanhavam só comboio. Depois de nos deixarem na escola e na ama, tinham que apanhar autocarro para irem até ao trabalho. Por isso impossível não é, mas é realmente muito dificil. E eu continuo a ver crianças no comboio, embora não tantas, é uma realidade.
A questão é, o JV diz que para quem vive a 6km de Lisboa já não dá para vir de transportes. Eu diria que só dá para andar de transportes para quem vive em Lisboa ou periferia (idem para o Porto). Porque o resto do País é péssimo em transportes. Há zonas no Norte que estão completamente isoladas. As estações foram desactivadas e os autocarros passam uma vez por dia. Aí sim, não há opção ao carro.
De CAV a 25 de Novembro de 2009 às 10:44
Caro JV, nos países do centro/norte da Europa, as pessoas vão buscar os filhos è escola de bicicleta. Eu já cheguei a levar o meu durante 1 ano, mas entretanto mudou de escola para uma zona em que só há espaço para carros circularem e o perigo é demasiado grande para quem anda de bicicleta com uma criança.
Agora levo-o de autocarro, e apanho filas de trânsito de centenas de comodistas que levam as criancinhas até à porta da escola de popó, e quando digo porta não estou a exagerar.

Onde trabalho, reparo que o ficar até tarde, é na maioria das situações uma fuga às responsabilidade familiares e não uma obrigação. Conheço quem chega à 8 e sai às 19 porque prefere estar ali do que em casa com a família ou porque (dizem-me) não tem mais nada para fazer... Muitos nem as férias gozam ou recusam reformarem-se... Quando chega a hora de ir pegar o filho, ouço lamentos como: " Lá tenho que ir buscá-lo..."

Não estou a dizer que é o seu caso, mas este sair tarde já virou uma forma de viver aqui em Portugal e é justificação para tudo, assim como a dos transportes serem maus. Já pensou que não o consegue levar a horas de transportes porque HÁ carros a mais???
De Anónimo a 25 de Novembro de 2009 às 13:03
Provavelmente não me fiz entender no meu comentário.

1- a escola é a 500 m de casa e trabalho a 6 km de casa (tudo em Lisboa). a bicicleta é o meio de transporte mais lento neste caso (o regresso é sempre a subir).

2 - Os transportes que apanho são sempre imunes a carros (andar um pouco a pé, metro e electrico numa via reservada).

3 - quando levo a criancinha à porta da escola de pópó é porque fica em caminho e é nos dias que levo carro porque tenho que o ir buscar no regresso (continua a justificação do tempo). Algumas vezes o carro fica num estacionamento residencial, ainda dentro do bairro e fazemos o resto a pé (nos dias que não o vou buscar e sigo de transportes).
(Quanto a ficar até tarde só para não ir para casa aturar, não é o meu caso certamente)

5 - Eu sei que se saísse 30 min. mais cedo do trabalho estava o problema resolvido, mas quando o vou buscar, já estou a sair 30 min. antes normalmente. Não é um trabalho em que cada um faz o seu horário.
Continuo a dizer, tirando alguns sectores de trabalho em portugal, a regra é mesmo sair-se tarde porque é assim que as empresas funcionam. Foi nisto que Portugal se tornou. Este é o ponto chave: horário de saída dos empregos e horário de fecho de escolas. Está cada vez mais dificil conciliar em portugal.

6 - Conheço muita gente que vai sempre de carro e não tem grandes responsabilidades antes e depois do trabalho. Isso sim é puro comodismo. Eu fui sempre ao contrário, antes de ter um filho andei sempre (SEMPRE) de transportes públicos, carro sempre em casa durante a semana.
De Miguel Cabeça a 25 de Novembro de 2009 às 13:34
Caro JV,

O que acontece se propôr no seu emprego sair às horas que o permitam ir buscar o seu filho sem ser de carro ( e mudando o horário de entrada de acordo)? Não o deixam, não o olham com bons olhos, não se importam, propoêm pagar-lhe menos por possíveis menos horas que faça?

Não olhe para esta pergunta como uma provocação, mas como uma genuína curiosidade na análise do seu problema.

Cumprimentos

Miguel Cabeça
De PJ a 27 de Novembro de 2009 às 01:25
viva,

n tenho criancinha para ir buscar, mas tenho alguma experiência q pode dar algumas dicas. por exemplo, até à 4ª classe lembro-me q ficava até mais tarde na escola em actividades extra-curriculares (acho q é assim q lhe chama hoje em dia -- será q as escolas todas dispõe de tal serviço?); a partir daí já n tive esse problema: deslocava-me de casa à escola e regressava sem depender dos meus pais -- primeiro de autocarro ou eléctrico, depois de bicicleta.

bom, e é nomeado o horário de saída -- e quanto ao horários de entrada? é tudo assim tão incompatível, mutuamente exclusivo? e em que medida é que 15 minutos fazem diferença na vida das pessoas? para quê?, que é que se ganha e perde com isso?

também dou como exemplo os empregos que já tive -- os 2 primeiros, mais ligados à produção, requeriam um acompanhamento sem grande flexibilidade de horário (na altura esse tema também não me incomodava muito). neste emprego que tenho agora, a flexibilidade fui conquistando aos poucos. enfim, não é uma conquista: todos ficam a ganhar porque consigo congregar melhor o "meu" horário com o de trabalho, e por isso usufruir de uma maneira mais proveitosa o meu tempo, esteja em trabalho, nos fazeres quotidianos, no café com os amigos.

resumindo, acho que falta às vezes às empresas dar liberdade aos trabalhadores; e falta aos trabalhadores -- será um reflexo? -- dar liberdade aos filhos. não creio q o emprego seja mais ou menos importante q a vida pessoal, muito menos creio que sejam duas coisas distintas. é por isso q me faz confusão ver pessoal a afirmar «tenho mesmo de», «preciso mesmo de». mas será que temos armas apontadas à cabeça?, já não podemos ter opções?, não somos nós que as escolhemos? -- tal como o Miguel Cabeça, peço para não interpretar estas questões como uma provocação, antes, como um questionar dos seus valores, e dos de tantos nesta sociedade..

cumps,

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