Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Regresso à nossa terrinha*

Não gosto de críticas gratuitas, mas ao voltar a Portugal depois de uns dias nos Nortes da Europa é impossível não ficar desiludido com várias coisas.

 

1. As cidades são cada vez mais uns pequenos aglomerados desumanos de prédios rodeados de parques de estacionamento e vias-rápidas. E o que mais assusta é não haver ninguém a reparar ou questionar. Tudo devido ao imperativo de mais e mais mobilidade automóvel.

2. A vida passa fora da cidade. Os cinemas, as lojas onde toda a gente vai, as saídas de casa à ao fim-de-semana, etc. não estão no centro vazio, mas em locais onde só se chega de carro.

3. Logo no aeroporto é impossível não notar na quantidade de gente "avantajada", no país campeão europeu da obesidade infantil. Tudo sustentado pela nossa cultura de sedentarismo.

4. O espanto das outras pessoas por nos querermos deslocar a pé, de metro, de autocarro ou de comboio.

 

Enfim...


O título do post é uma homenagem ao blogue A Nossa Terrinha, que nos faz uma saudável concorrência. A não perder.

publicado por MC às 01:38
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21 comentários:
De Dario Silva a 3 de Novembro de 2009 às 04:43
Welcome aboard, sir…
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 15:53
;)
De CAV a 3 de Novembro de 2009 às 10:23
Pois, bem vindo ao clube dos deprimidos quando põe o pé de volta em Lisboa
De Joana a 3 de Novembro de 2009 às 10:34
Eu também sofro do mesmo problema, quase fico deprimida nos primeiros dias! Quando passava férias em Portugal, o regresso a Lisboa era sempre muito mais soft... Tenho sempre conseguido vencer o "choque" com facilidade, lembrando-me de que fui uma sortuda por poder ter estado lá fora e, sobretudo, que tenho muita sorte por viver em Portugal. O nosso "azar" (que é simultaneamente uma grande vantagem) é viver ao lado de países civilizados, com os quais nos podemos comparar... Quando digo "nosso" azar, estou a referir-me, claro, a nós, os que não se conformam com este "império do automóvel" em que vivemos, porque a maioria dos portugueses achará que vive bem nele.
É pena que por cá muita gente não tenha noção de como se pode viver com muito mais qualidade de vida numa cidade não dominada pelos automóveis.

P.S. Não vos queremos fazer "concorrência" nenhuma! Nem conseguiríamos...
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 11:24
Eu disse concorrência saudável!
De Rogério Leite a 3 de Novembro de 2009 às 11:14
Do que tenho lido nos blogs dedicados a mobilidade em Lisboa, percebo uma similaridade de problemas com os nossos cá deste lado do atlântico, e que são centrados em um ponto chave: escolher melhor nossos políticos. Aqui, a massa que pedala ainda não definiu bem sua força a ponto de exigir melhores condições. Dois prefeitos em 3 eleições, se candidataram usando a idéia de construir ciclovias, de integra-las em um plano cicloviário. Depois de 12 anos, 25km de péssimas ciclovias de LAZER, é o que temos. O carro impera, a falta de educação também. A obesidade se espalha de forma alarmante. Andar ou pegar um ônibus está tão associado com a imagem de pessoas sem recursos que só daqui a umas 3 gerações se muda isto! Pena... parece que nossos países não irão a parte alguma daqui para frente!
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 11:30
Rogério,
falo por Lisboa, que é onde vivo. Aqui os políticos a população é mais pró-automóvel que os políticos. Há sempre protestos e abaixos-assinados quando a câmara (prefeitura) reduz lugares de estacionamento, coloca barreiras para os carros não estacionarem na calçada, constrói ciclovias...
Claro que deveríamos escolher melhor os políticos, mas em Lisboa o problema é maior ainda...
De Rogério Leite a 3 de Novembro de 2009 às 13:18
É o que diz o adágio: cada povo tem os políticos que merece! Entendo quando vc estende a "culpa" a falta de ação da própria população. É preciso que o político seja muito certo e tenha muita força moral e fibra para aguentar o "tranco" que vai levar ao tomar decisões impopulares como estas. Acontece porém! Aconteceu em Bogotá, Colômbia. Aconteceu em Curitiba, no sul do Brasil. No princípio, a população quer o "fígado" do prefeito que resolve agir em prol da redução do império dos automóveis. Mas depois de algum tempo, se ele conseguir resistir até lá, a situação se inverte de forma marcante. Tanto o prefeito de Bogotá quanto o de Curitiba estiveram quase no IMPEACHMENT. Hoje, são cultuados como os papas da mobilidade sustentável! Só precisa resistir!
De Henrique Cruz a 3 de Novembro de 2009 às 13:09
É evidente que as cidades estão - na sua maioria - cada vez mais desumanizadas. É igualmente evidente que este fenómeno é global (havendo, naturalmente, excepções). Até podemos ir mais longe e afirmar que as cidades sempre foram locais pouco "amigos" das pessoas; já os romanos se queixavam do trânsito, do lixo, do barulho, dos assaltos, etc. Concordo quando diz que em Lisboa se sempre quase sempre em primeiro lugar no automobilista e só depois no peão. Já quanto à obesidade, sendo um problema crescente, não atinge ainda a dimensão que vemos nos países do norte da europa e nos EUA. Concordo consigo quando diz que em Portugal se olha com desdém para quem se desloca a pé ou de transportes públicos; acontece frequentemente comigo. Parece-me ser uma consequência do tardio - vou arriscar a palavra - ENRIQUECIMENTO do país. Aqui, o automóvel continua a ser um sinal social distintivo.
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 15:51
Henrique,
1. Cidades humanas
Eu conheço o centro e os subúrbios de todo o tipo de cidades por essa Europa fora, e garanto que nunca vi nada tão desumano (no sentido da prevalência do automóvel sobre a pessoa) como os nossos. Claro que não há (?) cidades ideais, mas em termos de escala, estamos no fundo.
2. Obesidade
Mais uma vez, é só tirar uma foto no centro de várias cidades e contar o número de obesos.
Se seguires o link no post, vais ver que Portugal é o pior país em obesidade infantil, logo não percebo a tua afirmação de que não estamos tão mal.
3. Enriquecimento tardio... tens toda a razão. A cultura do novo-riquismo, da população com pouca instrução que está fascinada com o dinheiro que tem.
O que mais me assusta é haver adolescentes que ainda crescem neste ambiente.
De Joana a 3 de Novembro de 2009 às 13:16
Mas o futuro está do nosso lado. E vai havendo alguns sinais positivos, reveladores de que o ponto de viragem poderá não estar muito longe.
Quem conhecer bem a nossa história saberá que sempre andámos com muito atraso relativamente ao resto da Europa...
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 15:54
Depois de escrever este post, quis fazer um contra-post com bons exemplos de cá...
infelizmente não escrevi logo, e agora só me lembro de um!! Deve ser porque não eram muito relevantes
De Pedro M. a 3 de Novembro de 2009 às 13:23
Por falar em Nortes de Europa, já viram esta nova passadeira londrina que- pasmem-se- pára TODOS os carros para atravessarem peões do modo mais curto e cómodo?

http://www.treehugger.com/files/2009/11/london-pedestrians-scramble-crossing.php?dtc=th_rss

Lá se vai a economia londrina! Como é que as pessoas vão chegar aos empregos??

*sarcasmo
De MC a 3 de Novembro de 2009 às 15:47
Viva,
isso é muito comum. Existe há vários anos no Japão, por exemplo.
Inexplicavelmente ainda não fiz nenhum post sobre isso (até tenho um video feito por mim). Mas muito obrigado pelo link, vou usá-lo no post!
De Nuno a 3 de Novembro de 2009 às 17:42
Miguel. bem vindo de volta à pátria!!!
Concordo com o que dizes e sinto o mesmo sempre que vou para fora do país (para países como os nórdicos) e regresso.
Acho que a explocação para este esteado de coisas é cultural, dado que o veículo por excelência de transmissão cultural, para a maior parte dos portugueses, é infelizmente a televisão.
E na TV o que passa - o estilo de vida americano, e novelas brasileiras e portuguesas com valores importados dos brasileiros e norte americanos.
Se é com isto que são bombasdeadas as pessoas quando chegam a casa, ser anti-excesso-automóvel como nós é algo de uma elite cultural, que vai beber os seus valores a outros meios de transmissão de informação mais elevados, coerentes e inteligentes.
Eu além de não andar de carro nem tenho acesso a canais de TV em casa, por isso sou imune a publicidade automóvel, a excessos de consumismo e a centros comerciais, mas quando era consumidor assíduo de TV já não era bem assim.
Se calhar tem que se inventar um novo lema "menos1tv".....
De (R)evolution a 3 de Novembro de 2009 às 21:08
Parabéns pelo blog ;D

Colaborem no nosso projecto,
Visitem:
http://atm-revolution.blogs.sapo.pt/
De PJ a 3 de Novembro de 2009 às 22:26
viva,

bem, falando do meu ponto de vista, sempre que tenho regressado do estrangeiro (estocolmo, amesterdão, etc) ao Porto, a minha urbe, o impacto é invariavelmente amplamente positivo. resumindo, dou graças a deus por não sermos como outros povos. é claro que nem tudo são rosas, e entristece-me ver taaanto carro, e raios partam, se isto não seria uma cidade (ainda mais) do carago se houvesse menos carros. nisto, pego nas palavras do Rogério Leite, e vejo o problema na dicotomia políticos--povo. E pego também nas palavras do Nuno, que vê na TV (eu tb não a vejo) um óptimo veículo de formatação de estilos de vida e cantiga de político, tudo influenciando o povo adormecido. restam-nos iniciativas como este blog, e a nível político, a meu ver, outras, como a regionalização, não só porque aproxima mais os políticos do povo mas, acima de tudo, o povo dos políticos!

ok, mais dia menos dia tinha que deixar esta minha opinião por aqui :p..

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