Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

O tráfego é contra-intuitivo II (Evaporação de tráfego)

Nas conversas de café, e infelizmente em discussões políticas e pseudo-técnicas, assume-se que o fecho de uma rua ao trânsito automóvel (ou o seu condicionamento) leva ao aumento do trânsito nas imediações. A intuição diz que quem passava nessa rua terá que desviar caminho entupindo os percursos alternativos próximos. Este raciocínio esquece que a maioria dos percursos não começa imediatamente antes nem acaba imediatamente depois da rua encerrada, logo as alternativas podem estar bem longe do local em causa. Mas esquece também que as dificuldades causadas ao automóvel podem tornar o transporte público, a bicicleta e o andar mais atractivos. Esquece ainda que há percursos que só eram feitos porque havia ali uma facilidade de passagem, que deixarão assim de ser realizados.

Há muitos estudos em transportes que mostram que o encerramento de uma rua não leva obrigatoriamente a congestionamentos nas imediações. Um estudo da University College of London faz um levantamento de 62 casos de restrições ao trânsito e conclui que houve uma redução média de 21,9% do tráfego na zona em torno da intervenção. Em apenas 11 dos casos houve um aumento de tráfego. Neste documento da Comissão Europeia é dito que há um período inicial de confusão que rapidamente é seguido pela evaporação de tráfego. São analisados oito casos de sucesso, onde as previsões catastrofistas não se concretizaram.

 

A evaporação de tráfego é melhor entendida se pensarmos no seu oposto, a indução de tráfego. Quando há um aumento da capacidade da rede viária, nos primeiros meses há uma redução do congestionamento mas isto é sol de pouca dura. Há tráfego que é desviado de outras vias congestionadas, há mudança modal dos transportes públicos para o agora mais apetecível automóvel, há deslocações que dantes não eram feitas (como idas ao hipermercado depois de existir uma via-rápida até lá).

Os lisboetas têm dois excelentes exemplos da evaporação de tráfego.

1. Como nota e bem o vereador Sá Fernandes, quando a Av.Duque de Ávila foi fechada não houve um aumento do congestionamento no Saldanha. O caso é ainda mais cómico quando quem critica o seu encerramento definitivo prevendo os congestionamentos daí decorrentes, se esquece que avenida já está encerrada há muito (se bem que com carácter temporário)!

2. Túnel do Marquês versão marcha-atrás. Dir-se-ia que o seu encerramento entupiria a "Avenida" Joaquim António de Aguiar e toda a zona do Rato, Marquês e Campolide. Mas quem se lembra da zona antes das obras do túnel, sabe que a situação era sensivelmente a mesma que hoje.

 


Posta recomendada sobre uma corrida modal bem radical em São Paulo: bicicleta contra helicópetro no Apocalipse Motorizado.

publicado por MC às 13:39
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14 comentários:
De Eduardo a 26 de Outubro de 2009 às 23:52
Pior mesmo é a opinião pública, em Matosinhos, estar toda convencida de que o melhor é enterrar o metro na Rua Brito Capelo para que os carros possam voltar e entupir, conspurcar e buzinar à superficie...
De PJ a 27 de Outubro de 2009 às 10:51
pois, isso é pq qem tem essa "opinião pública" são pessoas que não andam de metro. a meu ver, uma das particularidades de tornar o metro tão confortável ao utente é precisamente ter grande parte do percurso "às claras". se entubassem o pessoal que anda de carro, queria ver qual era a opinião deles de se deslocarem metidos lá em baixo.

cumps,
De CAV a 27 de Outubro de 2009 às 11:13
É por isso e por outras que temos fama de terceiro mundo da Europa.
De Mário a 27 de Outubro de 2009 às 12:05
Boa posta Miguel. Outra forma de pensar na evaporação/indução é pelo paradoxo de Jevons - que de facto não é um paradoxo, mas algo perfeitamente explicável pela teoria clássica de economia. Ao aumentar a eficiência de um produto, a tendência será baixar o preço do mesmo (no caso da indução temporariamente reduzir o tempo de percurso), o que faz aumentar o seu consumo. O inverso também é verdade.

No caso do Marquês, mais duas notas. Durante quase dois anos, aquele canal foi servido por duas faixas (uma de entrada em Lisboa e outra de saída) sem os efeitos catastróficos previstos - um caso típico de evaporação. Agora, a situação só aparentemente é a mesma - sabemos que estão a entrar em Lisboa, por aquele eixo, dezenas de milhares de carros a mais.

O que pode levar a um corolário em planeamento de um sistema de transportes, na ausência de preço: esforçarmos pela eficiência do que queremos e ineficiência do que não queremos: antes (http://3.bp.blogspot.com/_E-Gmv1JFKtE/SQIUytC4SPI/AAAAAAAAB5o/GdNrq8IH_8U/s1600-h/DSCF8474-1.JPG) e depois (http://1.bp.blogspot.com/_E-Gmv1JFKtE/SQIUzH00DrI/AAAAAAAAB5w/WazPiP7pTio/s1600-h/DSCF8474-2.JPG).

Desejarmos a eficiência de todos os modos em todas as circunstâncias, é a ausência de política de transportes (uma ilusão tecnocrática).

Para quem se choque com a opção pela ineficiência, a outra solução é usar o preço de forma a que cada modo de transporte pague exactamente o que custa à sociedade (inclusivamente o custo do congestionamento). Como estamos longe desse objectivo e como é politicamente complicado lá chegar, o mais natural é que no futuro se tenha que usar ambos os métodos.
De MC a 28 de Outubro de 2009 às 16:23
Obrigado Mario!
Acho que vou usar essas duas fotos :)
Têm "créditos"?
De Joana a 27 de Outubro de 2009 às 16:02
Este continua a ser o meu blogue preferido. Já vos tinha dito, não já? Mas não me canso de o dizer...

Faz sentido. (o meu comentário continuava, mas apaguei, porque entretanto percebi que não estava a dizer nada de novo, só estava a repetir o que está no post...)

Em 2008, no período da grande alta do preço dos combustíveis (e naqueles dias de bloqueio em que a gasolina esgotou), muita gente largou o carrinho e teve de arranjar alternativa. Se bem me lembro, os transportes públicos da região de Lisboa aguentaram bem a sobregarga de passageiros, contrariando o que vulgarmente se diz (que actualmente não há nenhuma margem para aumentar o volume de passageiros sem antes se investir na melhoria da rede). [tive de interromper e já não sei onde queria chegar... há dias assim...]
De MC a 28 de Outubro de 2009 às 16:25
Joana, podes repeti-lo, não levamos a mal.

O exemplo que descreves é algo diferente, e que será a próxima posta, que é a elasticidade da procura do transporte. Assume-se muitas vezes que ó número de viagens, bem como a sua origem e destino, é um número fixo. Nada mais absurdo, tanto a nível micro como macro.

De MC a 28 de Outubro de 2009 às 17:40
Agora que releio o que escrevi, até eu fiquei baralhado.
Não faz sentido dizer que é algo diferente, porque não é. A evaporação de tráfego é um fenómeno macro que acontece devido à variação da procura de transportes, que é um fenómeno micro.
De Miguel Cabeça a 1 de Novembro de 2009 às 22:59
Viva,

Em relação à teoria da evaporação de tráfego o Prof. Fernando Nunes da Silva do IST (Secção de Urbanismo, Transportes, Vias e Sistemas) não acredita muito neste conceito como demonstrou neste vídeo:

http://www.vimeo.com/5449774

Cumprimentos

Miguel Cabeça
De MC a 9 de Novembro de 2009 às 10:09
O Sr. Dr. Prof., como mostra neste video e mostrou no debate do Passeio Livre, não tem grande pudor em desrespeitar os factos e os outros quando veste a sua pele de político.

Por exemplo, nesse vídeo ele refere o radicalismo de quem quer acabar pura e simplesmente com o automóvel. Ora eu apesar de escrever neste blogue há 3 anos, ainda não conheci ninguém que tivesse essa posição em Portugal. Acho que isto mostra bem a honestidade intelectual do orador. Esta atitude é típica de quem não sabe/quer discutir: colar uma posição radical e FALSA a uma facção para a desprezar e não se dar ao trabalho de discutir os seus argumentos.

A evaporação de tráfego não é aceite por engenheiros de tráfego que ainda estão agarrados ao que aprenderam há 20 ou 30 anos, e não foram capazes de se actualizar. Os três professores do artigo que deixo link, merecem-me mais respeito que este Prof cujo currículo académico nem consigo encontrar online. Mais, este artigo refere dezenas de estudos diferentes, não se baseia numa observação apenas: será que estão todos errados?
De MC a 9 de Novembro de 2009 às 11:48
Outra coisa, na parte do vídeo onde ele refere a evaporação de tráfego, ele mostra bem que nem sabe a definição desse conceito!
Reconheço que o meu post também não é muito claro mas a evaporação de tráfego NÃO diz (como se ouve no vídeo) que não possa haver aumento do tráfego nas vias adjacentes. O que diz é que a quantidade de tráfego na área urbana em causa, é reduzido na totalidade.
Ou seja, imagina 3 vias paralelas, A, B e C, com tráfegos de 10,20,10. Agora fecha-se a B e o tráfego passa a ser 15,0,15. Aqui houve evaporação de tréafego, porque se baixou de 40 para 30 na totalidade.
De MC a 9 de Novembro de 2009 às 14:07
Miguel,
desculpa a resposta um pouco enraivecida... A raiva obviamente não era dirigida a ti mas à arrogância da pessoa em causa. Não foi só neste vídeo que o vi com esta atitude sobre quem discorda dela, lembro-me de algo semelhante aos microfones da TSF.
De Miguel Cabeça a 9 de Novembro de 2009 às 23:39
Eu percebi que "raiva" não era dirigida a mim. Este professor é famoso no IST e faz parte da câmara municipal de Lisboa, tendo o pelouro da Mobilidade, Obras e Tráfego. O facto de ele não acreditar na evaporação de tráfego não é nada abonatório para estes quatro anos de mandato da CML. Significa que não irá querer correr riscos nas aproximações aos problemas de tráfego na nossa cidade. Significa que não quererá reduzir a primazia do automóvel. Significa que ficará provavelmente tudo na mesma durante quatro anos. :-(


De MC a 10 de Novembro de 2009 às 23:04
Sim, eu conheço o Nunes da Silva, e não é só ele. Entristece-me que se dê tanta importância a estes professores.
Eles podem ser excelentes técnicos, mas o que eles fazem não é necessariamente o que uma cidade necessita. Eles serão excelentes a organizar o fluxo N automóveis do ponto A ao B, do C ao D, etc. Mas é isso que queremos da cidade, que seja um bom ramal de transportes rodoviários, esquecendo todas as consequências que vêm daí?
Claro que não!

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