Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Aceitar as migalhas da ditadura do automóvel?

Correndo o risco de ser polémico entre pessoas amigas que normalmente concordam comigo, não posso de deixar de notar que a submissão à lógica da sociedade automóvel está mais difundida do que se possa julgar. Muitas críticas ao paradigma automóvel são também elas feitas do ponto vista desse próprio paradigma.

Eu detesto a atitude do "sê realista, exige o impossível", não está em causa um radicalismo utópico da minha parte. Falo sim em vários casos que não passam de tiros no pé. Concretizo:

 

1. Vai ser construída uma ponte para peões e ciclistas sobre a 2ª circular em Lisboa (uma via-rápida dentro da cidade) e tenho lido imensos elogios à ideia. Claro que estaremos melhor com a ponte do que sem ela, mas isso não faz da ponte uma boa notícia.

Aceitar a ponte é aceitar que o local do peão e da bicicleta não é à superfície, mas por baixo ou por cima dela. Numa cidade humana, os peões e a bicicleta têm que andar na rua. não ficam com as migalhas do automóvel. Uma estrutura do género da ponte é algo que se vai manter durante longuíssimos anos, logo vai ajudar a prolongar a actual lógica da predominância do automóvel no espaço urbano, ironicamente sob a capa do pró-peão e pró-bicicleta.

 

2. O movimento pela manutenção das poucas linhas ferroviárias em Trás-os-Montes está em grande com um interessante documentário e várias iniciativas. Aquelas linhas têm um potencial turístico, logo económico, interessante e isso não pode ser descurado. Mas não serão algumas linhas que só servem algumas centenas de pessoas e que só permitem velocidades baixas que vão revolucionar a região. Trás-os-Montes (ou outra qualquer região abandonada) precisa é de ter pequenas cidades onde os jovens tenham possibilidades, onde haja equipamentos sociais e comércio para que não fuja tudo para Lisboa e Porto.

Deste ponto de vista o que é realmente uma vergonha é Bragança, Chaves e Macedo não terem comboio. Vila Real e Mirandela ainda têm linha (com comboios a 20km/h) que nem sei se ainda funciona. Isto sim é importante para a região.

 

3. A Avenida das Forças Armadas em Lisboa (que liga duas praças centrais da cidade) está tão apinhada de viadutos de vias-rápidas urbanas, que é impossível fazer a avenida a pé. Numa série de reportagens da SIC chamava-se a atenção para existência de uma barreira de betão onde deveria haver uma passadeira. A situação é tão grave que a inexistência da passadeira onde os automóveis passam a 90km/h, é apenas a cereja em cima do bolo.

 

4. Quando se pensa no quanto custa o uso do automóvel ou no quanto espaço urbano tem que ser sacrificado para que uma única pessoa se possa deslocar de automóvel, fazem-se cálculos que deixariam o lóbi-automóvel bem orgulhoso. O custo não é só a gasolina, nem o espaço necessário se resume à área física do automóvel.

 

Espero que os "visados" não se sintam ofendidos, nós estamos todos do mesmo lado, mas precisamos de ver o mundo por outros olhos.

 


Foto do Apocalipse Motorizado que mostra o mesmo tipo de atitude vinda de cicloativistas de Curitiba, numa acção em que pintaram a sua própria ciclovia. Reparem na sua diminuta largura e no mau estado do piso. Neste caso os automobilistas até agradecem que os ciclistas se confinem àquela bermazinha.

publicado por MC às 15:15
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8 comentários:
De Joana a 22 de Outubro de 2009 às 17:06
Sempre achei uma miséria as passagens superiores para peões em avenidas de Lisboa. Na 2.ª Circular talvez seja menos chocante, mas em avenidas como a Marechal Gomes da Costa, são uma vergonha.

A Avenida das Forças Armadas é um óptimo sítio para passear a pé. Era agarrar no presidente da câmara e nos vereadores pelas orelhas, levá-los lá e obrigá-los a passar de um lado para o outro 20 vezes seguidas. (foi apenas um desabafo, sou uma pacifista!)

Vila Real e Mirandela estão neste momento sem comboio. A circulação está "temporariamente suspensa" para obras, segundo escreveu anteontem em artigo no Público a Secretária de Estado dos Transportes. As obras na Linha do Corgo, que serve Vila Real, já foram consignadas há alguns meses, fazendo suspirar muita gente que pensava que a linha já não voltaria a abrir. Mas só em 2011 é que o combóio voltará a Vila Real: a linha vai ser toda renovada.
Quanto à Linha do Tua, está à espera da sentença de morte definitiva (em consequência da construção da barragem de Foz Tua)...
De MC a 26 de Outubro de 2009 às 10:24
Mas sabes como a linha do Corgo vai ser renovada?
O traçado actual é fenomenal do ponto de vista turístico, mas como transporte público é um disparate.
De Iletrado a 22 de Outubro de 2009 às 20:51
Caro MC
1. Subscrevo tudo o que afirmas. Quando alguém faz seja o que for em Portugal, logo surge outro alguém a perguntar "mas e os carros, como chegam lá?". Acessos para a praia? Carro. Acessos ao pinhal? Carro. Acessos a áreas protegidas? Carro. (Serão áreas protegidas para os carros? Não lhes chegam as AE?) Queres ir para a praia a pé ou de bicicleta? Arrisca-te. Queres ir para o pinhal a pé ou de bicicleta? Arrisca-te. Queres ir a uma área protegida a pé ou de bicicleta? Arrisca-te. Aqui à uns anos aconselharam-me a fazer a Malcata de carro, pois de bicicleta era perigoso e cansativo (!).
Agora retira "ponte" e acrescenta "ciclovia". Esse é um dos motivos porque sou contra ciclovias e pontes para peões (guetos de atravessamento, plagiando a expressão certeira do TMC).
2. Comboios? A linha do Oeste é um exemplo prático do desincentivo à sua utilização. Para cada melhoramento corresponde dez ou quinze intervenções nas AE da região. Só ainda não acabaram com a linha porque a massa crítica ainda é grande.
Boas pedaladas.
De Dario Silva a 23 de Outubro de 2009 às 01:14
"Vila Real e Mirandela ainda têm linha (com comboios a 20km/h) que nem sei se ainda funciona."

De Régua a Vila Real - a Linha do Corgo está actualmente sem carris e em obras de modernização após o seu fecho, por alegadas razões de segurança, há alguns meses.

Quanto a Chaves, Macedo ou Bragança: era uma vez.
Não faz mal, o comboio Madrid-Vigo continua a passar em Puebla de Sanabria duas vezes ao dia.
Fica a 35 km de Bragança. Ah, está para breve a nova estação de Bragança: fica também perto de Puebla de Sanábria (Espanha) e vai servir os comboios de alta velocidade que hão-de colocar a Vigo a menos de quatro horas de Madrid e cerca de seis de Barcelona.

Como é que dizia o Cavaco? - Virem-se para Espanha. E de comboios percebe ele!
De MC a 26 de Outubro de 2009 às 10:25
Dario, repito a pergunta que fiz acima:
Mas sabes como a linha do Corgo vai ser renovada?
O traçado actual é fenomenal do ponto de vista turístico, mas como transporte público é um disparate.
De Dario Silva a 26 de Outubro de 2009 às 10:27
Sim, a Linha do Corgo está em renovação, assim como o Tâmega: ambas estão já sem carris há alguns meses.
De MC a 26 de Outubro de 2009 às 13:35
Mas renovada com o mesmo traçado, ou um traçado novo?
O traçado antigo é belíssimo, mas não é alternativa à AE.
De Dario Silva a 26 de Outubro de 2009 às 16:04
Em ambos os casos, no mesmo traçado centenário a que a AE 24 e A4 não conseguem fazer concorrência.
São mundos diferentes.

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