Domingo, 13 de Setembro de 2009

Como não andar de carro?

Como tentei mostrar aqui, o automóvel não é apenas um objecto banal. Mesmo que apenas o fosse, teríamos de contar com as suas consequências físicas mais directas, como a sinistralidade, o ruído e a poluição atmosférica.

 

É ao nível do urbanismo que o automóvel tem efeitos mais perniciosos. A sua presença invisível preside à própria expansão urbana e ao planeamento dos respectivos acessos. Gera a fragmentação do território por criar uma assimetria evidente entre os locais de trabalho e locais de residência; o automóvel é a solução universal de mobilidade que nos é imposta mas sem que a razão o justique. Detectar esta responsabilidade dos urbanistas no planeamento do território é descobrir as próprias condições a que temos de obedecer se nos quisermos deslocar para determinado local. Acima de tudo, o território desenhado segundo o automóvel é uma forma de controlo irresponsável.

 

Graças ao Gabinete de Estudos e Planeamento do IST, estamos em condições de fazer um pequeno exercício. Em todos os anos são feitos inquéritos aos alunos caloiros e uma das perguntas feitas é a sua opção de mobilidade. Antes de vos mostrar os resultados, deixo-vos com umas fotografias aéreas da área de cada campus (Alameda e Taguspark).

 

IST-Alameda (azul), em plena cidade de Lisboa:

 

 

IST-Taguspark (a amarelo), algures em Oeiras:

 

 

A diferença de densidade urbanizada é óbvia, apesar da distância a eixos rodoviários principais ser semelhante. As áreas verdes (jardins e arborização) na primeira figura são a excepção enquanto que na segunda são a regra (terrenos aráveis); a área urbana está fragmentada e algo isolada mas é possível sair desse isolamento porque há estradas que a podem ligar ao mundo.

 

A oferta de transportes públicos para cada um dos diferentes pólos consta da página de apresentação do IST e a diferença é abismal. Apesar do pólo da Alameda possuir vários departamentos de transportes (CESUR e DTEA) e de autoridades académicas em termos de planeamento, transportes e urbanismo, os passeios do próprio campus é usado como um parque de estacionamento. Ainda assim, os resultados são evidentes:

 

 

As percentagens ultrapassam os 100% devido às viagens de ida e volta poderem ser feitas de forma diferente e de cada viagem poder ainda ser multimodal. Confesso que esperava um menor peso do transporte público nas deslocações para o Taguspark. Mesmo assim, diga-se que é um autocarro construído para o efeito: serve os alunos e pouco mais, o que é a antítese de um transporte público porque recolhe apenas alunos para os largar todos num destino final; um bom transporte público serve todo o percurso do seu trajecto, não apenas um ponto. 

 

Como ir a pé ou de bicicleta para o Taguspark? É sequer possível?

 

É óbvio que a possibilidade de ficar apeado no Taguspark é maior para alguém que não tenha automóvel (36% dos utilizadores contra 14% da Alameda); além disso, os horários dos transportes públicos não são tão flexíveis. No fundo foi feita uma escolha de localização para o Taguspark que discrimina valências de mobilidade mais eficientes, justas e acessíveis. O ordenamento do espaço condiciona a maneira como nos deslocamos porque ele foi pensado de acordo com o conceito automóvel...como não andar de carro?

publicado por TMC às 12:39
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5 comentários:
De CM a 14 de Setembro de 2009 às 12:15
Trabalho no Tagus Park, mesmo junto ao IST.
O IST no TP é um projecto a longo prazo, a meu ver. Tem vantagens e desvantagens. A grande vantagem é poder vir a ser um verdadeiro Campus!
O Tagus Park é um projecto de sucesso e o IST faz parte dele.
Em termos de mobilidade é um projecto mau, mas sobretudo devido a falta de clientela dos transportes públicos, pois o nível de vida de quem cá trabalha é elevado, em regra, e aí, já se sabe, tudo de carro!!
Os estudantes, com menos capacidade financeira, saõ apanhados no meio de um universo distinto e são mal servidos, claro.
Segundo sei, também o alojamento é muito caro aqui, pois a menor oferta faz os preços dispararem.

Um efeito positivo destes parques fora de Lisboa é a fixação de pessoas que provoca. Grande parte dos meus colegas acabaram por comprar casa no concelho e vivem felizes da via por estarem fora de Lisboa (onde esta instituição ficava localizada anteriormente).
No meu caso pessoal , vou todos os dias de carro de Lisboa para o Tagus Park e não há alternativa viável, acreditem!
Por carolice, de vez enquando vou de bicicleta, apanhando o comboio entre Benfica e Massamá. Demoro mais de o dobro, com muito esforço físico e pago 2,4€, quase o mesmo que gasto em combustível.
De TMC a 14 de Setembro de 2009 às 12:28
CM, obrigado pelo testemunho. Nada como alguém que vive e estuda no Taguspark para dizer como é o dia-a-dia. Por aí, por exemplo, é possível fazer madrugadas a estudar? Ou ir aos bolos, um hábito de muitos do que estudam ou trabalham de madrugada no pavilhão de civil?

Os transportes públicos (e não as ajudas do IST) continuarão a servir mal o campus enquanto a sua localização for tão isolada porque assim o único ponto de largada de passageiros é o destino final e a recolha está muito fragmentada. Efeitos do urban sprawl!

Por outro lado, gostava de saber o que é um verdadeiro campus; quer isso dizer que o da Alameda não o é ou não poderá vir a ser?

Eu diria que a fixação de pessoas é positiva claro, mas para Oeiras e talvez à custa de Lisboa. A batalha por capital humano entre concelhos é perfeitamente legítima mas a localização do TP quanto a mim deveria ter sido mais bem pensada.

E parabéns pela coragem de tentares ir de bicicleta.
De CM a 14 de Setembro de 2009 às 14:33
Eu trabalho no Tagus Park e não estudo no IST.
Segundo parece, o IST tem um terreno muito grande.
Ser um campus, pode, por exemplo, inclui alojamento para estudantes.
Quanto a ir aos bolos, de certeza que nas imediações há padarias, terão é que ir de carro, claro!
Isto é o "fim do mundo" e apenas tem alguns serviços para a população profissional - serviços utilizados na hora de almoço (jornais, restaurantes, cabeleireiro, ginásio, etc). Só recentemente apareceu uma farmácia, por exemplo.
De PJ a 14 de Setembro de 2009 às 22:51
CM disse:

«...(jornais, restaurantes, cabeleireiro, ginásio, etc)»

a-ha! apanhado! o típico ginásio para quem muito anda de carro! :p
ao menos podem-se utilizar os balneáreos para quem fizer uma distância mais longa de bicicleta?

cumps,
De CM a 14 de Setembro de 2009 às 23:19
Ginásio (Tupperware sports)? Não obrigado.
Já enviei e-mail para o ginásio e para a administração do Tagus Park sobre utilização/criação de balneários, and guess what? No reply!

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